{"id":1046,"date":"2021-10-21T02:34:00","date_gmt":"2021-10-21T02:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=1046"},"modified":"2021-10-25T02:37:49","modified_gmt":"2021-10-25T02:37:49","slug":"10a-sinfonia-de-beethoven-como-musicologos-e-inteligencia-artificial-completaram-obra-inacabada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/10a-sinfonia-de-beethoven-como-musicologos-e-inteligencia-artificial-completaram-obra-inacabada\/","title":{"rendered":"10\u00aa Sinfonia de Beethoven: como music\u00f3logos e intelig\u00eancia artificial completaram obra inacabada"},"content":{"rendered":"\n<p>21\/10\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando Ludwig van Beethoven morreu em 1827, tr\u00eas anos haviam se passado ap\u00f3s a conclus\u00e3o da sua 9\u00aa Sinfonia, considerada por muitos a sua obra-prima. Ele havia come\u00e7ado a trabalhar na 10\u00aa Sinfonia, mas, com a deteriora\u00e7\u00e3o da sua sa\u00fade, n\u00e3o conseguiu avan\u00e7ar muito: tudo o que ele deixou foram alguns rascunhos musicais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, f\u00e3s de Beethoven e music\u00f3logos v\u00eam se lamentando e tentando entender o que poderia ter sido a sinfonia. Suas notas indicavam um resultado magn\u00edfico, mas que parecia fora do alcance para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, gra\u00e7as ao trabalho de uma equipe de historiadores da m\u00fasica, music\u00f3logos, compositores e cientistas da computa\u00e7\u00e3o, a vis\u00e3o de Beethoven vai ganhar vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu dirigi a parte de intelig\u00eancia artificial do projeto, liderando um grupo de cientistas da startup de intelig\u00eancia artificial criativa Playform AI, que ensinou a uma m\u00e1quina todo o repert\u00f3rio de trabalho de Beethoven e seu processo criativo.<\/p>\n\n\n\n<p>O lan\u00e7amento da grava\u00e7\u00e3o completa da 10\u00aa Sinfonia de Beethoven aconteceu em 9 de outubro de 2021 \u2014 o mesmo dia da primeira apresenta\u00e7\u00e3o mundial em Bonn, na Alemanha \u2014 o \u00e1pice de um esfor\u00e7o de mais de dois anos.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Tentativas-anteriores-n\u00e3o-tiveram-sucesso\">Tentativas anteriores n\u00e3o tiveram sucesso<\/h2>\n\n\n\n<p>Por volta de 1817, a Sociedade Real Filarm\u00f4nica de Londres encomendou a Beethoven sua 9\u00aa e a 10\u00aa Sinfonia. Escritas para orquestras, as sinfonias costumam ter quatro movimentos: o primeiro em andamento r\u00e1pido, o segundo mais lento, o terceiro em andamento moderado ou r\u00e1pido e o \u00faltimo em andamento r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Beethoven completou sua 9\u00aa Sinfonia em 1824, cuja conclus\u00e3o \u00e9 a imortal &#8220;Ode \u00e0 Alegria&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 10\u00aa Sinfonia, Beethoven n\u00e3o deixou muitas anota\u00e7\u00f5es, exceto por algumas notas musicais e um punhado de ideias.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve no passado algumas tentativas de reconstruir partes da 10\u00aa Sinfonia de Beethoven. A mais famosa foi a de 1988, quando o music\u00f3logo Barry Cooper se aventurou a completar o primeiro e o segundo movimento. Ele reuniu 250 compassos musicais dos rascunhos para criar o que era, na opini\u00e3o dele, uma produ\u00e7\u00e3o do primeiro movimento, fiel \u00e0 vis\u00e3o de Beethoven.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os poucos rascunhos de Beethoven impossibilitaram que os especialistas em sinfonias fossem al\u00e9m daquele primeiro movimento.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"A-forma\u00e7\u00e3o-da-equipe\">A forma\u00e7\u00e3o da equipe<\/h2>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de 2019, o Dr. Matthias R\u00f6der, diretor do Instituto Karajan \u2014 organiza\u00e7\u00e3o de Salzburgo, na \u00c1ustria, que promove a tecnologia musical \u2014 entrou em contato comigo. Ele explicou que estava formando uma equipe para completar a 10\u00aa Sinfonia de Beethoven, para celebrar o 250\u00ba anivers\u00e1rio do compositor. Conhecendo o meu trabalho sobre a gera\u00e7\u00e3o de arte por intelig\u00eancia artificial, ele queria saber se a IA seria capaz de ajud\u00e1-lo a preencher as lacunas deixadas por Beethoven.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio parecia gigantesco. Para venc\u00ea-lo, a IA precisaria fazer algo nunca realizado antes. Mas eu disse que iria tentar.<\/p>\n\n\n\n<p>R\u00f6der ent\u00e3o montou uma equipe que inclu\u00eda o compositor austr\u00edaco Walter Werzowa. Famoso por compor o jingle de assinatura da Intel, Werzowa recebeu a tarefa de escrever um novo tipo de composi\u00e7\u00e3o que integraria o que Beethoven deixou para tr\u00e1s com o que seria gerado com IA. Mark Gotham, especialista em m\u00fasica computadorizada, liderou os esfor\u00e7os para transcrever os rascunhos de Beethoven e processar todo o seu repert\u00f3rio de trabalho, para que a IA pudesse ser adequadamente treinada.<\/p>\n\n\n\n<p>A equipe tamb\u00e9m incluiu o music\u00f3logo Robert Levin, da Universidade de Harvard, nos EUA, que, por acaso, \u00e9 tamb\u00e9m um excelente pianista. Levin havia anteriormente completado uma s\u00e9rie de trabalhos incompletos do s\u00e9culo 18, de autoria de Mozart e Johann Sebastian Bach.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"O-projeto-toma-forma\">O projeto toma forma<\/h2>\n\n\n\n<p>Em junho de 2019, o grupo se reuniu para um workshop de dois dias na biblioteca de m\u00fasica de Harvard.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma grande sala com um piano, um quadro-negro e uma pilha de livros de rascunhos de Beethoven cobrindo a maioria dos seus trabalhos conhecidos, discutimos como os fragmentos poderiam ser transformados em uma m\u00fasica completa e como a IA poderia ajudar a resolver esse quebra-cabe\u00e7as, de forma fiel ao processo e \u00e0 vis\u00e3o de Beethoven.<\/p>\n\n\n\n<p>Os especialistas em m\u00fasica na sala estavam ansiosos por aprender mais sobre o tipo de m\u00fasica que a IA havia criado no passado. Contei a eles como a IA havia gerado m\u00fasica no estilo de Bach com sucesso. Mas era apenas a harmoniza\u00e7\u00e3o de uma melodia introduzida que era similar a Bach. Ela n\u00e3o chegava nem perto do que precis\u00e1vamos fazer: construir uma sinfonia completa com um punhado de anota\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, n\u00f3s, os cientistas da sala, quer\u00edamos aprender quais tipos de materiais havia dispon\u00edveis e como os especialistas pretendiam us\u00e1-los para completar a sinfonia.<\/p>\n\n\n\n<p>A tarefa \u00e0 nossa frente acabou por cristalizar-se. N\u00f3s precisar\u00edamos usar notas e composi\u00e7\u00f5es completas de todo o repert\u00f3rio de trabalho de Beethoven \u2014 al\u00e9m dos rascunhos dispon\u00edveis da 10\u00aa Sinfonia \u2014 para criar algo que o pr\u00f3prio Beethoven pudesse ter escrito.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio era imenso. N\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos uma m\u00e1quina que pudesse receber os rascunhos e, ao apertar de um bot\u00e3o, emitir uma sinfonia. A maior parte da IA dispon\u00edvel na \u00e9poca n\u00e3o conseguia preencher uma m\u00fasica incompleta para al\u00e9m de alguns segundos adicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s precisar\u00edamos cruzar a fronteira do que a IA criativa poderia fazer, ensinando para a m\u00e1quina o processo criativo de Beethoven &#8211; como ele usaria alguns compassos de m\u00fasica para desenvolver meticulosamente suas inspiradoras sinfonias, sonatas e quartetos.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"A-reconstru\u00e7\u00e3o-do-processo-criativo-de-Beethoven\">A reconstru\u00e7\u00e3o do processo criativo de Beethoven<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que o projeto progredia, o lado humano e o lado da m\u00e1quina da coopera\u00e7\u00e3o progrediam.<\/p>\n\n\n\n<p>Werzowa, Gotham, Levin e R\u00f6der decifraram e transcreveram os rascunhos da 10\u00aa Sinfonia, tentando entender as inten\u00e7\u00f5es de Beethoven. Usando suas sinfonias completas como modelo, eles tentaram montar o quebra-cabe\u00e7as, definindo onde deveriam se encaixar os fragmentos de rascunhos \u2014 em qual movimento e em qual parte do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles tentaram tomar decis\u00f5es, como determinar se um rascunho indicava o ponto inicial de um scherzo \u2014 que \u00e9 uma parte muito alegre da sinfonia, tipicamente no terceiro movimento. Ou eles determinaram que uma linha de m\u00fasica era provavelmente a base de uma fuga, que \u00e9 uma melodia criada pelo entrela\u00e7amento de partes que refletem um mesmo tema central.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o lado de IA do projeto \u2014 a minha parte \u2014 enfrentava uma s\u00e9rie de tarefas desafiadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, era fundamental descobrir como usar uma sequ\u00eancia curta, ou at\u00e9 mesmo um motivo, para desenvolver uma estrutura musical mais longa e complicada, como Beethoven teria feito. A m\u00e1quina precisou aprender, por exemplo, como Beethoven construiu a 5\u00aa Sinfonia a partir de um motivo b\u00e1sico de quatro notas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, como a continua\u00e7\u00e3o da sequ\u00eancia tamb\u00e9m precisa seguir certa forma musical, seja ela um scherzo, trio ou fuga, a IA precisou aprender o processo de Beethoven para desenvolver essas formas.<\/p>\n\n\n\n<p>A lista de tarefas cresceu: precis\u00e1vamos ensinar \u00e0 IA como harmonizar uma linha mel\u00f3dica. A IA precisava aprender como reunir duas se\u00e7\u00f5es de m\u00fasica. E percebemos que a IA precisava conseguir compor uma coda, que \u00e9 um segmento que leva \u00e0 conclus\u00e3o de uma m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, quando tiv\u00e9ssemos uma composi\u00e7\u00e3o completa, a IA precisaria idealizar como orquestr\u00e1-la, o que envolve a atribui\u00e7\u00e3o de diferentes instrumentos a diferentes partes.<\/p>\n\n\n\n<p>E precisava desenvolver essas tarefas na forma em que Beethoven poderia faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"O-primeiro-grande-teste\">O primeiro grande teste<\/h2>\n\n\n\n<p>Em novembro de 2019, a equipe se reuniu pessoalmente mais uma vez \u2014 agora, em Bonn, no museu da Casa de Beethoven, onde o compositor nasceu e cresceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta reuni\u00e3o foi o teste decisivo para determinar se a IA poderia completar este projeto. N\u00f3s imprimimos partituras musicais que haviam sido desenvolvidas por IA com base nos rascunhos da 10\u00aa Sinfonia de Beethoven. Um pianista tocou em uma pequena sala de concertos do museu perante um grupo de jornalistas, estudiosos de m\u00fasica e especialistas em Beethoven.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s pedimos aos presentes que determinassem onde terminavam as sequ\u00eancias de Beethoven e onde come\u00e7ava a extrapola\u00e7\u00e3o por IA. Eles n\u00e3o conseguiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns dias depois, uma dessas partituras geradas por IA foi tocada por um quarteto de cordas em uma entrevista coletiva. Apenas pessoas intimamente familiarizadas com os rascunhos da 10\u00aa Sinfonia de Beethoven conseguiram determinar quando come\u00e7avam as partes geradas por IA.<\/p>\n\n\n\n<p>O sucesso desses testes confirmou que est\u00e1vamos no caminho certo. Mas eram apenas dois minutos de m\u00fasica. Havia ainda muito trabalho a fazer.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Prontos-para-o-mundo\">Prontos para o mundo<\/h2>\n\n\n\n<p>A cada momento, o g\u00eanio de Beethoven estava presente e nos desafiando a melhorar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que o projeto evolu\u00eda, a IA funcionou bem. Ao longo dos 18 meses seguintes, n\u00f3s constru\u00edmos e orquestramos dois movimentos inteiros com mais de 20 minutos cada pe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s antecipamos alguns entraves para este trabalho \u2014 as pessoas que diriam que a arte seria inacess\u00edvel para a IA e que a IA n\u00e3o deveria tentar reproduzir o processo criativo humano. Mas, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arte, considero a IA n\u00e3o como substituto, mas como instrumento \u2014 que abre as portas para que os artistas se expressem em novas formas.<\/p>\n\n\n\n<p>Este projeto n\u00e3o teria sido poss\u00edvel sem a experi\u00eancia de historiadores e m\u00fasicos humanos. Foi necess\u00e1rio um trabalho imenso \u2014 e sim, pensamento criativo \u2014 para atingir este objetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um dado momento, um dos especialistas em m\u00fasica da equipe afirmou que a IA relembrava um estudante de m\u00fasica ansioso, que pratica todos os dias, aprende e se torna cada vez melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, aquele estudante, tomando a batuta de Beethoven, est\u00e1 pronto para apresentar a 10\u00aa Sinfonia para o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>21\/10\/2021 Quando Ludwig van Beethoven morreu em 1827, tr\u00eas anos haviam se passado ap\u00f3s a conclus\u00e3o da sua 9\u00aa Sinfonia, considerada por muitos a sua obra-prima. Ele havia come\u00e7ado a trabalhar na 10\u00aa Sinfonia, mas, com a deteriora\u00e7\u00e3o da sua sa\u00fade, n\u00e3o conseguiu avan\u00e7ar muito: tudo o que ele deixou foram alguns rascunhos musicais. 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