{"id":1075,"date":"2021-11-04T03:42:00","date_gmt":"2021-11-04T03:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=1075"},"modified":"2021-11-05T03:44:13","modified_gmt":"2021-11-05T03:44:13","slug":"fernanda-montenegro-e-eleita-para-a-abl-conheca-os-bastidores-da-disputa-pelo-titulo-de-imortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/fernanda-montenegro-e-eleita-para-a-abl-conheca-os-bastidores-da-disputa-pelo-titulo-de-imortal\/","title":{"rendered":"Fernanda Montenegro \u00e9 eleita para a ABL: conhe\u00e7a os bastidores da disputa pelo t\u00edtulo de imortal"},"content":{"rendered":"\n<p>04\/11\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A atriz Fernanda Montenegro foi eleita na quinta-feira (4\/11) a mais nova imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL).<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fernanda, que era a \u00fanica concorrente \u00e0 vaga, recebeu 32 votos. Aos 92 anos, ela ser\u00e1 a primeira mulher a assumir a cadeira 17 e suceder\u00e1 o diplomata Affonso Arinos de Melo Franco (1930-2020).<\/p>\n\n\n\n<p>Os ocupantes anteriores foram o escritor S\u00edlvio Romero, o poeta Os\u00f3rio Duque-Estrada, o antrop\u00f3logo Roquette-Pinto, o cr\u00edtico liter\u00e1rio \u00c1lvaro Lins e o fil\u00f3logo Antonio Houaiss.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Fernanda Montenegro \u00e9 um dos grandes \u00edcones da cultura brasileira. Intelectual engajada e sens\u00edvel leitora do real. Sua presen\u00e7a enriquece os la\u00e7os profundos da Academia com as artes c\u00eanicas&#8221;, disse o presidente da ABL, Marco Lucchesi.<\/p>\n\n\n\n<p>A atriz \u00e9 apenas a nona mulher eleita para a ABL ao longo dos 124 anos de hist\u00f3ria da academia.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de dela, tornaram-se imortais Rachel de Queiroz (1977), Dinah Silveira de Queiroz (1980), Lygia Fagundes Telles (1985), N\u00e9lida Pi\u00f1on (1989), Z\u00e9lia Gattai (2001), Ana Maria Machado (2003), Cleonice Berardinelli (2009) e Rosiska Darcy de Oliveira (2013).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Posso estar enganada, mas acho que \u00e9 in\u00e9dito algo como o que est\u00e1 acontecendo agora, de ningu\u00e9m concorrer com Fernanda Montenegro&#8221;, observa a acad\u00eamica Ana Maria Machado, ocupante da cadeira 1 e presidente da institui\u00e7\u00e3o entre 2012 e 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Talvez seja um sinal de como ela se constitui num \u00edcone cultural, embora seja uma atriz &#8211; a rigor um perfil algo ins\u00f3lito para a Casa de Machado de Assis. D\u00e1 ideia de seu valor simb\u00f3lico hoje&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito antes de Rachel de Queiroz (1910-2003) se tornar a primeira mulher a vestir o fard\u00e3o de ramos de caf\u00e9 bordados com fios de ouro, outras mulheres tentaram.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira delas foi a jornalista Am\u00e9lia de Freitas Bevil\u00e1qua (1860-1946). Em 1930, escreveu uma carta ao ent\u00e3o presidente da casa, Alo\u00edsio de Castro (1881-1959), propondo sua candidatura. Em v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta anos depois, Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982) tamb\u00e9m cumpriu os protocolos da academia: entregou uma carta oficializando sua inscri\u00e7\u00e3o e disponibilizou suas obras para os acad\u00eamicos. De nada adiantou. Um ano depois, tentou novamente. E, em 1979, mais uma vez. S\u00f3 foi eleita em 1980.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Historicamente, as candidaturas femininas foram n\u00e3o s\u00f3 reiteradamente condenadas e rejeitadas pela esmagadora maioria dos membros da academia, como sua proibi\u00e7\u00e3o foi incorporada ao regimento interno da ABL em 1951&#8221;, afirma Michele Asmar Fanini, doutora em sociologia pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e autora da tese&nbsp;<em>Fardos e Fard\u00f5es: Mulheres na Academia Brasileira de Letras (1897-2003).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A proibi\u00e7\u00e3o regimental \u00e0s candidaturas femininas vigorou at\u00e9 1976. Em seus primeiros 80 anos de exist\u00eancia, tornar-se &#8216;imortal&#8217; correspondia a uma prerrogativa exclusivamente masculina&#8221;. Hoje, apenas cinco dos 40 acad\u00eamicos, o que corresponde a 12,5% do total, s\u00e3o do sexo feminino.<\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 2018, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo bem que tentou, mas n\u00e3o conseguiu se eleger. Ela concorreu \u00e0 cadeira 7, que pertenceu ao cineasta Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), mas s\u00f3 obteve um voto. Cac\u00e1 Diegues conquistou 22 votos e Pedro Corr\u00eaa do Lago, 11.<\/p>\n\n\n\n<p>De nada adiantaram, entre outras iniciativas, o &#8220;tuita\u00e7o&#8221; usando a hashtag #Concei\u00e7\u00e3oEvaristonaABL e uma peti\u00e7\u00e3o online com 40 mil assinaturas. Se tivesse conseguido se eleger, Concei\u00e7\u00e3o seria a primeira mulher negra a se tornar uma imortal da ABL.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Vagas-em-disputa\">Vagas em disputa<\/h2>\n\n\n\n<p>Fundada em 20 de julho de 1897, a ABL sempre vira not\u00edcia quando um de seus membros morre e a cadeira que ocupava torna-se alvo da cobi\u00e7a de aspirantes a &#8220;imortais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, al\u00e9m da que ser\u00e1 agora ocupada por Fernanda Montenegro, outras quatro s\u00e3o disputadas por 22 candidatos &#8211; h\u00e1 desde cantor e advogado at\u00e9 m\u00e9dico, economista e representante ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>E esse n\u00famero n\u00e3o \u00e9 maior porque dois pretendentes adiaram suas candidaturas: o jornalista Edney Silvestre e a professora universit\u00e1ria Raquel Naveira.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quero muito representar meu estado, o Mato Grosso do Sul, mas, por motivos pessoais, deixei para uma pr\u00f3xima oportunidade&#8221;, justifica Naveira.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 11, ser\u00e1 escolhido o sucessor do jornalista Murilo Melo Filho (1928-2020). S\u00e3o tr\u00eas os pretendentes \u00e0 cadeira 20: Gilberto Gil, Salgado Maranh\u00e3o e Ricardo Daudt.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Seguindo um certo protocolo informal, n\u00e3o pretendo falar sobre a campanha&#8221;, respondeu Maranh\u00e3o, por e-mail. O atual presidente da ABL tamb\u00e9m declinou do convite. &#8220;Por tradi\u00e7\u00e3o, presidentes n\u00e3o falam da elei\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma regra&#8221;, justificou Marco Lucchesi, por correio eletr\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 18, a disputa ser\u00e1 pela cadeira 12, que pertenceu ao cr\u00edtico liter\u00e1rio Alfredo Bosi (1936-2021). Mais tr\u00eas candidatos: Paulo Niemeyer, Joaquim Branco e Daniel Munduruku. &#8220;Sou um educador que escreve ou um escritor que educa&#8221;, define Munduruku.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sempre tive como meta dar visibilidade \u00e0 tem\u00e1tica dos povos ind\u00edgenas para tentar aproximar nossos saberes dos saberes da cultura ocidental. Ambos t\u00eam uma riqueza muito grande e podem se ajudar a construir uma vis\u00e3o de sociedade capaz de estabelecer um caminho novo para o Brasil que queremos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Joaquim Branco, outro candidato \u00e0 cadeira 12, a parte mais dif\u00edcil da campanha \u00e9 &#8220;advogar em causa pr\u00f3pria&#8221;. &#8220;Como algu\u00e9m dizer que \u00e9 merecedor disso ou daquilo?&#8221;, indaga. &#8220;Sei que sou um autor mineiro com 35 livros publicados e alguns pr\u00eamios liter\u00e1rios no Brasil e no exterior. Escrevi, como de praxe, a cada acad\u00eamico dando meus motivos e pretens\u00f5es \u00e0 vaga. Resta aguardar para ver&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 25, seis candidatos disputam a vaga deixada pelo advogado Marco Maciel (1940-2021). S\u00e3o eles: Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti, Ricardo Cavaliere, Godofredo de Oliveira Neto, Luiz Coronel, Camilo Martins e Leandro Gouveia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estar na Casa onde estiveram o autor de Br\u00e1s Cubas e o de Grande Sert\u00e3o: Veredas \u00e9 uma honra para qualquer escritor. Conviver com intelectuais por quem tenho admira\u00e7\u00e3o e respeito, idem. E, de quebra, uma oportunidade para representar literariamente o estado de Santa Catarina&#8221;, afirma Oliveira Neto.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de Ricardo Cavaliere, quem o estimulou a candidatar-se foi o acad\u00eamico Evanildo Bechara. Perto de completar 94 anos, Bechara est\u00e1 preocupado com o futuro do setor de Filologia e Lexicografia da ABL. &#8220;Os estatutos da Academia conferem-lhe o dever de cultivar a l\u00edngua e a literatura nacional. Trata-se de uma voca\u00e7\u00e3o que a Casa de Machado de Assis n\u00e3o pode olvidar em respeito \u00e0 vontade de seu patrono maior. Creio poder contribuir para o cumprimento deste compromisso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, mais dez nomes disputam o voto dos acad\u00eamicos: S\u00e9rgio Bermudes, Gabriel Chalita, Eduardo Giannetti da Fonseca, S\u00e2mia Macedo, Ant\u00f4nio H\u00e9lio da Silva, Jos\u00e9 Humberto da Silva, Eloi Angelos Ghio D&#8217;Aracosia, Jeff Thomas, Jos\u00e9 William Vavruk e Joana Rodrigues Alexandre Figueiredo.<\/p>\n\n\n\n<p>A elei\u00e7\u00e3o ser\u00e1 no dia 16 de dezembro e quem vencer ocupar\u00e1 a cadeira 2, do fil\u00f3sofo Tarc\u00edsio Padilha (1928-2021).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A campanha por uma cadeira na Academia \u00e9 \u00e1rdua porque s\u00e3o muitos os pretendentes e poucos os lugares&#8221;, sintetiza Bermudes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em dezembro, outra elei\u00e7\u00e3o: a do pr\u00f3ximo presidente da ABL. O nome mais cotado para substituir Lucchesi \u00e9 o do jornalista Merval Pereira. O ocupante da cadeira 31, se confirmado, ser\u00e1 o 47\u00ba presidente da ABL. Quem ocupou o cargo por mais tempo foi Austreg\u00e9silo de Athayde (1898-1993): 34 anos.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Como-ocorre-a-vota\u00e7\u00e3o\">Como ocorre a vota\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Cada um dos candidatos precisou enviar carta, telegrama ou e-mail ao atual presidente da institui\u00e7\u00e3o, Marco Lucchesi, no cargo desde 2018. Para ser eleito, o postulante precisa ter metade dos votos mais um. O voto, a prop\u00f3sito, \u00e9 secreto e a sess\u00e3o, h\u00edbrida.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 acad\u00eamicos que moram em outros Estados, como Lygia Fagundes Telles, em S\u00e3o Paulo, e pa\u00edses, caso de Paulo Coelho, na Su\u00ed\u00e7a. No total, podem ser realizados at\u00e9 quatro escrut\u00ednios no mesmo dia. Se ningu\u00e9m conquistar a maioria dos votos, a elei\u00e7\u00e3o \u00e9 encerrada e tem in\u00edcio uma nova fase de inscri\u00e7\u00f5es. Terminada a contagem dos votos, as c\u00e9dulas s\u00e3o queimadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da pandemia, cada acad\u00eamico podia receber at\u00e9 R$ 12 mil, considerando uma ajuda de custo mensal de R$ 3 mil, mais participa\u00e7\u00e3o em duas reuni\u00f5es semanais, uma \u00e0s ter\u00e7as e outra \u00e0s quintas, al\u00e9m de um bom plano de sa\u00fade. No ch\u00e1 das quintas-feiras, entre um gole e outro, hist\u00f3rias que mais parecem anedotas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a vez em que Aur\u00e9lio Buarque de Hollanda (1910-1989), vestido de fard\u00e3o, apanhou \u00e0s pressas um t\u00e1xi e ouviu do motorista que se acalmasse: &#8220;Do jeito que o senhor est\u00e1 vestido, a cerim\u00f4nia n\u00e3o vai come\u00e7ar enquanto o senhor n\u00e3o chegar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o artigo 2\u00ba do estatuto da ABL, &#8220;s\u00f3 podem ser membros efetivos da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos g\u00eaneros de literatura, publicado obras de reconhecido m\u00e9rito ou, fora desses g\u00eaneros, livro de valor liter\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Para ser candidato, duas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o essenciais: ser brasileiro e ter escrito pelo menos um livro&#8221;, resume o acad\u00eamico Arnaldo Niskier, o ocupante da cadeira n\u00famero 18 e presidente da institui\u00e7\u00e3o entre 1998 e 1999. &#8220;Por causa disso, o teatr\u00f3logo Pedro Bloch (1914-2004) n\u00e3o p\u00f4de se candidatar. Era nascido na Ucr\u00e2nia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Machado ressalva que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 a menor pretens\u00e3o ou obriga\u00e7\u00e3o de ler todos os livros de todos os aspirantes&#8221;. &#8220;N\u00e3o precisamos ler todos os livros de todos os aspirantes a vagas para sabermos quem \u00e9 quem. Levamos em conta outros aspectos. Como, por exemplo, a busca de um certo equil\u00edbrio de saberes ou a possibilidade de um conv\u00edvio ameno. Isso pode eventualmente dificultar a entrada de um rabugento not\u00f3rio ou de um briguento insuport\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Secchin afirma que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 receita infal\u00edvel&#8221; para ingressar na ABL. At\u00e9 o ritual das visitas, pondera, deixou de ser norma. &#8220;A conviv\u00eancia entre n\u00f3s \u00e9 vital\u00edcia e compuls\u00f3ria, at\u00e9 que a morte nos separe: n\u00e3o h\u00e1 div\u00f3rcio na Academia&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O ideal \u00e9 que o postulante tenha algum conv\u00edvio pr\u00e9vio com os acad\u00eamicos, pois o voluntarismo quase sempre d\u00e1 errado: algu\u00e9m supor que tem de entrar simplesmente porque se considere merecedor, independente das circunst\u00e2ncias. E elas s\u00e3o important\u00edssimas. Saber perder com eleg\u00e2ncia hoje pode ser trunfo para uma vit\u00f3ria amanh\u00e3&#8221;. Palavra de imortal.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Barrados-na-academia\">Barrados na academia<\/h2>\n\n\n\n<p>A mais disputada elei\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da ABL ocorreu no dia 21 de agosto de 2008. Dezenove inscritos, como Ant\u00f4nio Torres e Ziraldo Alves Pinto, disputaram a cadeira 23, que pertencia \u00e0 escritora Z\u00e9lia Gattai (1916-2008). O escolhido foi o jornalista Luiz Paulo Horta (1943-2013).<\/p>\n\n\n\n<p>Uma curiosidade: quando Horta morreu, cinco anos depois, quem assumiu sua vaga foi Torres. &#8220;A ABL \u00e9 uma das institui\u00e7\u00f5es culturais mais respeitadas do pa\u00eds. E fala de modo muito intenso ao imagin\u00e1rio da na\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Ana Maria Machado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Celso Furtado (1920-2004) contava que os feirantes da rua onde ele morava se orgulhavam de dizer que ali residia um membro da ABL, como se nada mais do que ele fez na vida tivesse import\u00e2ncia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ingressar na ABL n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil. Muitos tentaram e n\u00e3o conseguiram. Monteiro Lobato (1882-1948) foi um deles. O mais importante nome da literatura infanto-juvenil brasileira tentou duas vezes: em 1922, perdeu para Eduardo Ramos (1854-1923) e, em 1926, para Adelmar Tavares (1888-1963), ambos juristas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A ABL \u00e9 uma confraria. Consegue votos suficientes para entrar nessa confraria quem cumpre certos rituais de &#8216;beija-m\u00e3o&#8217; e se mostra af\u00e1vel e prestigioso o suficiente para ser aceito no &#8216;clube&#8217;. E isso tem pouqu\u00edssimo a ver com a qualidade da obra de quem entra ou n\u00e3o ali&#8221;, observa o jornalista e cr\u00edtico liter\u00e1rio Rodrigo Casarin.<\/p>\n\n\n\n<p>Lima Barreto (1881-1922) \u00e9 outro bom exemplo. O autor de&nbsp;<em>Triste Fim de Policarpo Quaresma&nbsp;<\/em>(1911) bateu \u00e0 porta da ABL em tr\u00eas ocasi\u00f5es. &#8220;Na \u00faltima, desistiu&#8221;, conta a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, autora de&nbsp;<em>Lima Barreto &#8211; Triste Vision\u00e1rio<\/em>&nbsp;(2017).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Penso que Lima n\u00e3o tinha o &#8216;modelo moral e bem-comportado&#8217; da academia&#8221;. Em compensa\u00e7\u00e3o, o inventor Santos Dumont (1873-1932), o pol\u00edtico Get\u00falio Vargas (1883-1954) e o empres\u00e1rio Assis Chateaubriand (1892-1968) conseguiram se eleger.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1940, o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) tentou ingressar na ABL. Como manda o protocolo, redigiu carta ao ent\u00e3o presidente da casa, o historiador Celso Vieira (1878-1954), se declarando candidato \u00e0 sucess\u00e3o de Luiz Guimar\u00e3es Filho (1878-1940).<\/p>\n\n\n\n<p>Quando soube da decis\u00e3o de Bandeira, Menotti Del Picchia (1892-1988) retirou sua candidatura. Com isso, sobrou, apenas, Oswald de Andrade (1890-1954). Contados os votos, Bandeira ganhou de lavada: 21 a um. H\u00e1 controv\u00e9rsia sobre quem teria votado em seu oponente: se Cassiano Ricardo (1895-1974) ou Guilherme de Almeida (1890-1969).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nesse ano, Oswald de Andrade chamou a academia de &#8216;asilo de impotentes'&#8221;, escreveu Daniel Piza (1970-2011) no livro&nbsp;<em>Academia Brasileira de Letras &#8211; Hist\u00f3rias e Revela\u00e7\u00f5es<\/em>&nbsp;(2003). &#8220;Certamente, sua pouca aceita\u00e7\u00e3o vinha de sua l\u00edngua bipartida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1980, outro poeta, M\u00e1rio Quintana (1906-1994), tamb\u00e9m tentou a sorte. Encorajado pelo Pr\u00eamio Machado de Assis, que recebera um ano antes pelo conjunto da obra, anunciou sua candidatura \u00e0 vaga aberta pela morte de Ot\u00e1vio de Faria (1908-1980).<\/p>\n\n\n\n<p>Teria como concorrente o ex-ministro da Educa\u00e7\u00e3o do governo Figueiredo, Eduardo Portella (1932-2017). Quintana, por\u00e9m, n\u00e3o teve o mesmo \u00eaxito de Bandeira. Perdeu por 31 a 6. Abalado, deu entrada numa cl\u00ednica de repouso em Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quintana apresentou-se em ocasi\u00f5es pouco prop\u00edcias&#8221;, avalia o acad\u00eamico Ant\u00f4nio Carlos Secchin, ocupante da cadeira 19, &#8220;desconsiderando que muitos acad\u00eamicos, que certamente votariam nele em outro momento, n\u00e3o poderiam faz\u00ea-lo por j\u00e1 estarem previamente comprometidos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de &#8220;academizar not\u00e1veis&#8221; partiu de Joaquim Nabuco (1849-1910), um dos fundadores da ABL. Em 1898, ele sugeriu a Machado de Assis (1839-1908) o nome do Bar\u00e3o de Rio Branco (1845-1912), ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Segundo relato do acad\u00eamico Carlos Heitor Cony (1926-2018) no artigo A Academia e o Tempo Brasileiro, Machado hesitou, alegando que &#8220;o bar\u00e3o n\u00e3o tinha livro publicado&#8221;. Nabuco argumentou: &#8220;Rio Branco est\u00e1 escrevendo o mapa do Brasil&#8221;. E o bar\u00e3o tornou-se acad\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, houve quem nunca sonhou em tomar o tradicional ch\u00e1 das quintas-feiras, com direito a bolo, suspiros e biscoitos, entre outros quitutes saborosos. Caso de Graciliano Ramos (1892-1953), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Clarice Lispector (1920-1977).<\/p>\n\n\n\n<p>Em Todas as Cartas (2020), a escritora ucraniana naturalizada brasileira admite, em bilhete escrito a Lygia Fagundes Telles, em novembro de 1977: &#8220;Quero dizer que, apesar do grande respeito que tenho pela Academia, eu jamais aceitaria entrar nela&#8221;. &#8220;A gente d\u00e1 um espirro, j\u00e1 pensam que estamos morrendo e querem a nossa vaga&#8221;, completou a autora de\u00a0<em>A Paix\u00e3o Segundo G.H<\/em>. (1964).<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>04\/11\/2021 A atriz Fernanda Montenegro foi eleita na quinta-feira (4\/11) a mais nova imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Fernanda, que era a \u00fanica concorrente \u00e0 vaga, recebeu 32 votos. Aos 92 anos, ela ser\u00e1 a primeira mulher a assumir a cadeira 17 e suceder\u00e1 o diplomata Affonso Arinos de Melo Franco (1930-2020). Os [&#8230;]\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1076,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[24,23],"tags":[69,52,56,51,391],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1075"}],"collection":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1075"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1075\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1077,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1075\/revisions\/1077"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}