{"id":1186,"date":"2021-12-16T00:02:00","date_gmt":"2021-12-16T00:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=1186"},"modified":"2021-12-24T00:10:59","modified_gmt":"2021-12-24T00:10:59","slug":"como-surpreendente-recuperacao-de-florestas-pode-ser-arma-contra-aquecimento-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/como-surpreendente-recuperacao-de-florestas-pode-ser-arma-contra-aquecimento-global\/","title":{"rendered":"Como surpreendente recupera\u00e7\u00e3o de florestas pode ser arma contra aquecimento global"},"content":{"rendered":"\n<p>16\/12\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As florestas tropicais s\u00e3o algumas das melhores ferramentas do mundo para o combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e \u00e0 perda de esp\u00e9cies selvagens. Elas armazenam enormes quantidades de carbono, abrigam milhares de plantas e animais e s\u00e3o o lar de povos ind\u00edgenas que as preservam.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, mais de 100 l\u00edderes mundiais comprometeram-se a eliminar o desmatamento at\u00e9 2030, na recente confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas em Glasgow, na Esc\u00f3cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas organiza\u00e7\u00f5es e comunidades est\u00e3o trabalhando para restaurar florestas nativas, reclamando terras abandonadas ou improdutivas e conduzindo dispendiosos esfor\u00e7os de plantio de \u00e1rvores. Esses esfor\u00e7os s\u00e3o projetados para incentivar o retorno de plantas e animais nativos e recuperar as fun\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e os produtos que eram fornecidos por essas florestas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, em muitos casos, as florestas podem recuperar-se naturalmente, com pouca ou nenhuma assist\u00eancia humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos ecologistas florestais e membros de uma rede de pesquisas colaborativa que estuda as florestas secund\u00e1rias &#8211; aquelas que se recuperam naturalmente ap\u00f3s uma \u00e1rea ser limpa e empregada para cultivo ou pastagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um estudo rec\u00e9m-publicado na revista Science, o nosso grupo apresentou uma abordagem in\u00e9dita de recupera\u00e7\u00e3o florestal que fornece informa\u00e7\u00f5es sobre mais de 2,2 mil lotes de florestas em processo de renova\u00e7\u00e3o natural nas regi\u00f5es tropicais do continente americano e do oeste da \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossas pesquisas indicam que as florestas tropicais recuperam-se com rapidez surpreendente. Elas podem crescer novamente em terras abandonadas e recuperar muitas das suas caracter\u00edsticas originais, como sa\u00fade do solo, atributos de \u00e1rvores e funcionamento do ecossistema em at\u00e9 10 a 20 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, para sustentar o planejamento e a recupera\u00e7\u00e3o efetiva da floresta, \u00e9 importante compreender a rapidez com que se recuperam as diferentes fun\u00e7\u00f5es e atributos florestais.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Florestas-se-recuperam\">Florestas se recuperam<\/h2>\n\n\n\n<p>A maioria das florestas atualmente existentes no mundo recuperou-se ap\u00f3s dist\u00farbios de origem natural e humana, incluindo inc\u00eandios, enchentes, extra\u00e7\u00e3o de madeira e desmatamento para a agropecu\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns exemplos s\u00e3o as florestas recuperadas na Europa durante os s\u00e9culos 18 e 19 e no leste dos Estados Unidos no in\u00edcio e em meados do s\u00e9culo 20. Atualmente, o nordeste dos Estados Unidos possui maior cobertura florestal que 100 ou 200 anos atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento, nas regi\u00f5es tropicais do mundo, existem florestas se recuperando em cerca de 8 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados de terrenos antes utilizados para plantio e cria\u00e7\u00e3o de animais. Cientistas e legisladores concordam que \u00e9 fundamental proteger essas florestas em recupera\u00e7\u00e3o e evitar mais destrui\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o de florestas antigas para a atividade agropecu\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>As florestas tropicais s\u00e3o mais do que apenas um conjunto de \u00e1rvores. Elas s\u00e3o redes complexas e din\u00e2micas de plantas, animais e micr\u00f3bios. A recupera\u00e7\u00e3o florestal leva tempo e, muitas vezes, segue caminhos vari\u00e1veis com resultados imprevis\u00edveis. E os padr\u00f5es de recupera\u00e7\u00e3o s\u00e3o diferentes entre as florestas tropicais secas e \u00famidas.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 aqui, essa \u00e1rea de pesquisa ativa concentrou estudos que examinaram de que forma as caracter\u00edsticas espec\u00edficas das florestas &#8211; como o n\u00famero de esp\u00e9cies que elas cont\u00eam ou a biomassa de suas \u00e1rvores &#8211; modificam-se ao longo do tempo e do espa\u00e7o. Acreditamos que \u00e9 importante compreender a recupera\u00e7\u00e3o florestal como um processo integrado, moldado pelas condi\u00e7\u00f5es locais, de terreno e hist\u00f3ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Porto Rico, florestas tropicais foram devastadas em meados do s\u00e9culo 20, mas se recuperaram nos terrenos agr\u00edcolas abandonados.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Vis\u00e3o-multidimensional\">Vis\u00e3o multidimensional<\/h2>\n\n\n\n<p>O nosso estudo concentrou-se em 12 atributos que s\u00e3o componentes essenciais das florestas saud\u00e1veis. Entre eles, encontram-se:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>Solo: qual a quantidade de nitrog\u00eanio e carbono org\u00e2nico contida no solo e qual o seu grau de compacta\u00e7\u00e3o? Solo densamente compactado &#8211; por exemplo, pelos cascos do gado durante a pastagem &#8211; dificulta a penetra\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes das plantas e n\u00e3o absorve bem a \u00e1gua, podendo causar eros\u00e3o.<\/li><li>Funcionamento do ecossistema: quais altera\u00e7\u00f5es s\u00e3o verificadas na quantidade e no tamanho das \u00e1rvores \u00e0 medida que a floresta se recupera? Qual \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores cujas ra\u00edzes se associam a bact\u00e9rias fixadoras de nitrog\u00eanio na recupera\u00e7\u00e3o florestal? Como a recupera\u00e7\u00e3o afeta a densidade m\u00e9dia da madeira e a durabilidade dos tecidos das folhas?<\/li><li>Estrutura florestal: qual a altera\u00e7\u00e3o do tamanho m\u00e1ximo das \u00e1rvores, a varia\u00e7\u00e3o do tamanho das \u00e1rvores e o total da biomassa &#8211; a quantidade de mat\u00e9ria vegetal acima do solo na forma de troncos, ramos e folhas de \u00e1rvores &#8211; \u00e0 medida que a floresta se recupera?<\/li><li>Diversidade e composi\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies de \u00e1rvores: como a quantidade de esp\u00e9cies de \u00e1rvores presentes e os padr\u00f5es de diversidade e abund\u00e2ncia se alteram, aproximando-se das florestas mais antigas da regi\u00e3o?<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Para determinar as taxas de recupera\u00e7\u00e3o a longo prazo, comparamos os atributos entre as florestas em crescimento em \u00e1reas agr\u00edcolas abandonadas em diferentes \u00e9pocas. Tamb\u00e9m comparamos as florestas em recupera\u00e7\u00e3o com florestas antigas vizinhas. Para isso, desenvolvemos uma nova abordagem de modelos para estimar a rapidez da recupera\u00e7\u00e3o de cada um dos atributos.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos desses atributos dependem uns dos outros. Por exemplo, se as \u00e1rvores crescerem novamente com rapidez, elas podem produzir muitos res\u00edduos de folhas, que ir\u00e3o restaurar os n\u00edveis de carbono org\u00e2nico no solo ao se decomporem. N\u00f3s analisamos essas rela\u00e7\u00f5es, comparando a proximidade da associa\u00e7\u00e3o dos atributos florestais entre si.<\/p>\n\n\n\n<p>As florestas que estudamos estavam em \u00e1reas com intensidade de uso da terra baixa a moderada, o que significa que os solos n\u00e3o estavam exauridos nem haviam sofrido eros\u00e3o, possibilitando r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Na regi\u00e3o amaz\u00f4nica brasileira, por exemplo, 2,7 milh\u00f5es de hectares de floresta foram recuperados naturalmente entre 1996 e 2015. Existe muito menos potencial de recupera\u00e7\u00e3o de florestas tropicais em \u00e1reas onde os solos foram muito exauridos e n\u00e3o h\u00e1 florestas remanescentes nas proximidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os atributos florestais que examinamos recuperaram-se ap\u00f3s 120 anos de crescimento. Alguns desses atributos atingiram at\u00e9 100% dos seus valores antigos nos primeiros 20 anos de recupera\u00e7\u00e3o florestal.<\/p>\n\n\n\n<p>Os atributos do solo que analisamos, por exemplo, atingiram 90% dos valores antigos ap\u00f3s 10 anos e 98% a 100% ap\u00f3s 20 anos. Isso significa que, ap\u00f3s 20 anos de recupera\u00e7\u00e3o, os solos das florestas continham virtualmente a mesma quantidade de carbono org\u00e2nico e densidade aparente similar ao solo das florestas antigas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o reflete o fato de que os solos dos nossos locais de estudo n\u00e3o haviam sido muito degradados quando come\u00e7ou a recupera\u00e7\u00e3o florestal. Os atributos de funcionamento do ecossistema tamb\u00e9m retornaram rapidamente aos n\u00edveis anteriores, com recupera\u00e7\u00e3o de 82% a 100% ap\u00f3s 20 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os atributos de estrutura florestal, como di\u00e2metro m\u00e1ximo das \u00e1rvores, recuperaram-se mais lentamente. Em m\u00e9dia, eles atingiram 96% dos valores antigos ap\u00f3s 80 anos de recupera\u00e7\u00e3o. A composi\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies de \u00e1rvores e a biomassa acima do solo recuperaram-se ap\u00f3s 120 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s identificamos um conjunto de tr\u00eas atributos &#8211; tamanho m\u00e1ximo das \u00e1rvores, varia\u00e7\u00e3o geral do tamanho das \u00e1rvores e n\u00famero de esp\u00e9cies de \u00e1rvores da floresta &#8211; que, quando considerados em conjunto, fornecem um retrato confi\u00e1vel da recupera\u00e7\u00e3o da floresta.<\/p>\n\n\n\n<p>A medi\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas fatores \u00e9 relativamente f\u00e1cil e os administradores podem utiliz\u00e1-los para monitorar a restaura\u00e7\u00e3o florestal. Agora \u00e9 poss\u00edvel monitorar o tamanho das \u00e1rvores e a estrutura da floresta em \u00e1reas e escalas de tempo maiores, utilizando dados coletados por sat\u00e9lites e drones.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"A-import\u00e2ncia-da-recupera\u00e7\u00e3o-natural\">A import\u00e2ncia da recupera\u00e7\u00e3o natural<\/h2>\n\n\n\n<p>Nossas conclus\u00f5es demonstram que a recupera\u00e7\u00e3o natural das florestas tropicais \u00e9 uma estrat\u00e9gia barata e eficaz para promover o desenvolvimento sustent\u00e1vel, restaurar ecossistemas, retardar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e proteger a biodiversidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E, como as florestas que cresceram novamente em regi\u00f5es onde a terra n\u00e3o foi muito prejudicada recuperam muitos dos seus atributos principais com mais rapidez, a recupera\u00e7\u00e3o florestal nem sempre exige o plantio de \u00e1rvores.<\/p>\n\n\n\n<p>Na nossa opini\u00e3o, diversos m\u00e9todos apropriados de reflorestamento podem ser implementados, dependendo das condi\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o e das necessidades dos habitantes locais. Nossa recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 empregar a recupera\u00e7\u00e3o natural sempre que poss\u00edvel e utilizar plantio restaurador ativo quando necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>16\/12\/2021 As florestas tropicais s\u00e3o algumas das melhores ferramentas do mundo para o combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e \u00e0 perda de esp\u00e9cies selvagens. Elas armazenam enormes quantidades de carbono, abrigam milhares de plantas e animais e s\u00e3o o lar de povos ind\u00edgenas que as preservam. 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