{"id":1228,"date":"2022-01-04T01:58:00","date_gmt":"2022-01-04T01:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=1228"},"modified":"2022-01-06T01:59:38","modified_gmt":"2022-01-06T01:59:38","slug":"a-curiosa-relacao-entre-guardas-e-os-caes-abandonados-de-chernobyl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/a-curiosa-relacao-entre-guardas-e-os-caes-abandonados-de-chernobyl\/","title":{"rendered":"A curiosa rela\u00e7\u00e3o entre guardas e os c\u00e3es abandonados de Chernobyl"},"content":{"rendered":"\n<p>04\/01\/2022<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ao chegar ao cen\u00e1rio atingido pela radia\u00e7\u00e3o da Zona de Exclus\u00e3o de Chernobyl, na Ucr\u00e2nia, n\u00e3o demorou muito para Bogdan perceber que teria companheiros inesperados em seu novo trabalho. J\u00e1 nos primeiros dias como guarda em um dos postos de controle de Chernobyl, ele come\u00e7ou a compartilhar o local com uma matilha de c\u00e3es.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Bogdan (nome fict\u00edcio) trabalha h\u00e1 quase dois anos naquela zona e agora conhece bem os cachorros. Alguns t\u00eam nomes; outros, n\u00e3o. Alguns ficam por perto, outros seguem afastados \u2014 v\u00eam e v\u00e3o conforme querem. Bogdan e os outros guardas alimentam os c\u00e3es, oferecem abrigo e, \u00e0s vezes, cuidam de doen\u00e7as e feridas. E os enterram, quando eles morrem.<\/p>\n\n\n\n<p>De certa forma, esses c\u00e3es s\u00e3o refugiados do desastre de 1986, quando explodiu o reator n\u00b0 4 da Usina Nuclear de Chernobyl. Em consequ\u00eancia, dezenas de milhares de pessoas foram evacuadas da cidade pr\u00f3xima de Pripyat \u2014 instru\u00eddas a deixar para tr\u00e1s seus animais de estima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma tentativa de evitar que a contamina\u00e7\u00e3o se espalhasse, soldados sovi\u00e9ticos mataram a tiros muitos dos animais abandonados. Mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que alguns se esconderam e sobreviveram.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, 35 anos depois, centenas de c\u00e3es de rua perambulam pelos 2.600 km\u00b2 da Zona de Exclus\u00e3o de Chernobyl, estabelecida para restringir o tr\u00e1fego humano de entrada e sa\u00edda da \u00e1rea. Ningu\u00e9m sabe quais desses c\u00e3es s\u00e3o descendentes diretos dos animais abandonados e quais podem ter vindo de outros lugares para a regi\u00e3o. Mas, agora, todos eles s\u00e3o c\u00e3es da Zona de Exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida desses c\u00e3es \u00e9 perigosa. Eles correm o risco de contamina\u00e7\u00e3o radioativa, ataques de lobos, inc\u00eandios florestais e fome, al\u00e9m de outras amea\u00e7as. A vida m\u00e9dia dos c\u00e3es da zona de exclus\u00e3o de Chernobyl \u00e9 de apenas cinco anos, segundo o Fundo Clean Futures, organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental que monitora e fornece assist\u00eancia aos c\u00e3es que vivem na Zona de Exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de que c\u00e3es habitam esse lugar abandonado \u00e9 bem conhecido. Alguns deles at\u00e9 se tornaram pequenas celebridades nas redes sociais. Lucas Hixson, cofundador do Fundo Clean Futures \u2014 que abandonou sua carreira em pesquisa para cuidar dos animais \u2014, oferece visitas virtuais da Zona de Exclus\u00e3o mostrando os cachorros.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas pouco se sabe sobre os trabalhadores locais que interagem com esses c\u00e3es diariamente. Jonathon Turnbull, candidato a PhD em geografia na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, percebeu que poderia valer a pena reunir as hist\u00f3rias dessas pessoas. &#8220;Se eu quisesse conhecer os c\u00e3es&#8221;, afirma ele, &#8220;eu precisaria falar com as pessoas que os conhecem melhor \u2014 que s\u00e3o os guardas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele descobriu hist\u00f3rias emocionantes sobre o relacionamento dos guardas com os animais que eles encontram nesse ambiente abandonado \u2014 hist\u00f3rias que oferecem melhor compreens\u00e3o da profunda liga\u00e7\u00e3o entre os c\u00e3es e os seres humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os guardas deram apelidos a v\u00e1rios dos c\u00e3es. Segundo Turnbull, l\u00e1 vivem Alfa, cujo nome refere-se a um tipo de radia\u00e7\u00e3o, e Tarzan, um cachorro bem conhecido dos turistas que visitam Chernobyl. Ele vive perto do famoso sistema de radar Duga, constru\u00eddo pelos sovi\u00e9ticos, e sabe fazer truques obedecendo comandos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra moradora da regi\u00e3o \u00e9 Lingui\u00e7a \u2014 uma cadela pequena e gorda que gosta de se aquecer no inverno deitando sobre canos de aquecimento. Esses canos atendem uma das constru\u00e7\u00f5es usadas pelos trabalhadores na Zona de Exclus\u00e3o que participam dos esfor\u00e7os em andamento para desativar e descontaminar a usina nuclear danificada.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ter acesso \u00e0 Zona de Exclus\u00e3o de Chernobyl, \u00e9 necess\u00e1rio uma autoriza\u00e7\u00e3o. O trabalho dos guardas \u00e9 supervisionar os postos de controle nas estradas que entram e saem da regi\u00e3o. As pessoas que burlam esses postos de controle para adentrar na Zona de Exclus\u00e3o s\u00e3o conhecidas como &#8220;invasores&#8221;. Os guardas os denunciam \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Turnbull \u2014 que vive na capital da Ucr\u00e2nia, Kiev \u2014 come\u00e7ou a visitar regularmente a zona, ele conheceu Bogdan e outros guardas dos postos de controle. Inicialmente, eles relutaram em ser entrevistados, de forma que Turnbull precisou convenc\u00ea-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ofereceu aos guardas a oportunidade de participar da pesquisa, que ele afirmava ser uma &#8220;virada importante&#8221;. Sua ideia era fornecer c\u00e2meras descart\u00e1veis aos guardas e pedir que eles tirassem fotografias dos cachorros \u2014 n\u00e3o retratos posados, mas cenas da vida di\u00e1ria. Os guardas s\u00f3 fizeram um pedido: &#8220;por favor, por favor \u2014 traga comida para os c\u00e3es&#8221;. E Turnbull assim fez.<\/p>\n\n\n\n<p>As fotografias tiradas pelos guardas revelaram a import\u00e2ncia do relacionamento que eles desenvolveram com os c\u00e3es que vagueiam pela Zona de Exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2020, Turnbull publicou em um estudo parte das imagens e do material resultante das entrevistas com os guardas. Posteriormente, ele entrevistou novamente um dos participantes do estudo para a BBC. O guarda em quest\u00e3o pediu que n\u00e3o fosse identificado, para evitar investiga\u00e7\u00f5es disciplinares sobre o seu trabalho. Por isso, n\u00f3s nos referimos a ele pelo pseud\u00f4nimo &#8220;Bogdan&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Bogdan conta que os c\u00e3es o acompanham alegremente quando ele anda pelas ruas abandonadas da Zona de Exclus\u00e3o em busca de invasores. Eles sempre parecem ansiosos para ver se ele ou algum turista trazem comida. Quando um c\u00e3o de companhia se distrai ou corre para ca\u00e7ar um animal, ele sempre retorna, acrescenta Bogdan.<\/p>\n\n\n\n<p>E essa lealdade \u00e9 uma via de m\u00e3o dupla. Turnbull conta que os guardas \u00e0s vezes se d\u00e3o ao trabalho de ajudar os c\u00e3es retirando carrapatos grudados na pele ou aplicam vacina antirr\u00e1bica nos animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Monitorar quem entra e quem sai da Zona de Exclus\u00e3o \u00e0s vezes \u00e9 um trabalho mon\u00f3tono, mas os c\u00e3es est\u00e3o sempre por perto. Em alguns postos de controle, os guardas praticamente adotaram alguns dos animais, dando a eles comida e abrigo. Mas nem todos s\u00e3o t\u00e3o mansos. Durante sua pesquisa, um guarda contou a Turnbull: &#8220;n\u00e3o podemos dar vacina em Arka porque ela morde&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro participante contou sobre uma cadela que era ainda mais dif\u00edcil de se aproximar. Ela se recusava a ser tocada. &#8220;Voc\u00ea precisa dar a ela uma panela [de comida] e se afastar. Ela espera voc\u00ea sair e, s\u00f3 depois, ela come&#8221;, explica o guarda.<\/p>\n\n\n\n<p>Os c\u00e3es \u00e0s vezes latem para os estranhos no primeiro encontro porque \u00e9 a natureza deles, segundo Bogdan. Mas, quando eles percebem que n\u00e3o est\u00e3o amea\u00e7ados, se acalmam e come\u00e7am a abanar a cauda. Em algumas ocasi\u00f5es, parece at\u00e9 que os cachorros est\u00e3o sorrindo, acrescenta ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Geralmente, os visitantes em Chernobyl s\u00e3o aconselhados a n\u00e3o tocar nos c\u00e3es, por medo de que os animais possam estar carregando poeira radioativa. \u00c9 imposs\u00edvel saber por onde os c\u00e3es andam, e algumas partes da Zona de Exclus\u00e3o s\u00e3o mais contaminadas do que outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos c\u00e3es, existem animais silvestres vivendo na Zona de Exclus\u00e3o de Chernobyl. Em 2016, Sarah Webster, bi\u00f3loga da vida selvagem do governo norte-americano que, na \u00e9poca, trabalhava na Universidade da Ge\u00f3rgia, publicou um estudo com seus colegas revelando como mam\u00edferos, desde lobos at\u00e9 javalis e raposas-vermelhas, haviam colonizado a Zona de Exclus\u00e3o \u2014 e imagens de c\u00e2meras escondidas demonstraram que o n\u00famero de animais era bem menor nas \u00e1reas onde a contamina\u00e7\u00e3o radioativa era mais alta.<\/p>\n\n\n\n<p>Os animais que vivem na Zona de Exclus\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o necessariamente confinados naquela \u00e1rea. Um estudo posterior de Webster e colegas, publicado em 2018, detalhou os movimentos de um lobo que recebeu um dispositivo GPS. Ele viajou por 369 km desde a sua casa na Zona de Exclus\u00e3o, fazendo um longo arco para sudeste, depois novamente para nordeste, acabando por entrar em territ\u00f3rio russo.<\/p>\n\n\n\n<p>Lobos, c\u00e3es e outros animais poderiam teoricamente carregar contamina\u00e7\u00e3o radioativa, ou muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que poderiam ter sido transmitidas pelas gera\u00e7\u00f5es, at\u00e9 locais fora da Zona de Exclus\u00e3o. &#8220;Sabemos que isso est\u00e1 acontecendo, mas n\u00e3o entendemos sua extens\u00e3o ou magnitude&#8221;, afirma Webster.<\/p>\n\n\n\n<p>Turnbull conta que os guardas geralmente n\u00e3o se preocupam com a radia\u00e7\u00e3o, embora eles ocasionalmente verifiquem os c\u00e3es com detectores.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, parece que os c\u00e3es, com a companhia que oferecem, acabam transmitindo confian\u00e7a \u00e0s pessoas que interagem com eles regularmente, segundo Greger Larson, arque\u00f3logo que estuda a domestica\u00e7\u00e3o animal na Universidade de Oxford, no Reino Unido, e que n\u00e3o participou da pesquisa de Turnbull.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles [os guardas] est\u00e3o como que se colocando na posi\u00e7\u00e3o dos cachorros&#8221;, sugere ele. &#8220;Se o c\u00e3o est\u00e1 bem, isso significa que voc\u00ea est\u00e1 bem.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, na verdade, essa pode ser uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. &#8220;\u00c9 um ambiente excepcional&#8221;, relembra Jonathon Turnbull. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o consegue ver o perigo. Voc\u00ea sabe o tempo todo que ele pode estar l\u00e1, mas tudo parece normal.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os c\u00e3es podem representar um risco em termos de radioatividade, mas guardas como Bogdan enfatizam os benef\u00edcios de ter os animais por perto. Ele afirma, por exemplo, conhecer c\u00e3es que latem de formas distintamente diferentes, dependendo do que eles viram \u00e0 dist\u00e2ncia: um ser humano desconhecido, um ve\u00edculo ou um animal silvestre. Esses sinais de advert\u00eancia s\u00e3o \u00fateis e Bogdan considera os c\u00e3es como &#8220;assistentes&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 acontecendo na Zona de Exclus\u00e3o de Chernobyl \u00e9 consequ\u00eancia das intera\u00e7\u00f5es com c\u00e3es que sabemos que ocorrem nas diferentes civiliza\u00e7\u00f5es humanas h\u00e1 milhares de anos, segundo Greger Larson.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Encontramos [essa intera\u00e7\u00e3o] ao longo dos \u00faltimos 15 mil anos ou mais. As pessoas fazem isso, elas formam associa\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3ximas n\u00e3o s\u00f3 com os c\u00e3es, mas com muitos animais dom\u00e9sticos [&#8230;], como que dizendo &#8216;esta \u00e9 a nossa liga\u00e7\u00e3o com o ambiente&#8221;, afirma ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo o mundo, existem c\u00e3es que vivem em um estado intermedi\u00e1rio similar aos de Chernobyl \u2014 eles n\u00e3o s\u00e3o totalmente domesticados, nem totalmente selvagens. Estes s\u00e3o os c\u00e3es de rua que vagueiam pelas cidades e \u00e1reas industriais procurando alimento e que, at\u00e9 certo ponto, podem ser adotados pelas pessoas sem que sejam considerados animais de estima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os c\u00e3es de Chernobyl tamb\u00e9m vivem nesse tipo de espa\u00e7o, quase domesticados, mas Sarah Webster \u2014 que participou de um estudo diferente do de Turnbull no passado \u2014 afirma que h\u00e1 uma diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A Zona de Exclus\u00e3o \u00e9 muito diferente porque foi abandonada pelos humanos&#8221;, segundo ela. &#8220;As \u00fanicas pessoas [que est\u00e3o] naquela regi\u00e3o diariamente, na verdade, s\u00e3o os guardas.&#8221; Por isso, as oportunidades que aqueles cachorros t\u00eam de fazer amizade com seres humanos s\u00e3o muito poucas.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o mundo externo permanece fascinado pelos c\u00e3es e suas hist\u00f3rias, para muitos guardas a conex\u00e3o \u00e9 muito mais profunda. Bogdan conta que sempre perguntam a ele por que \u00e9 permitido que os c\u00e3es permanecessem na Zona de Exclus\u00e3o. Ele responde: &#8220;porque eles nos alegram. Para mim, pessoalmente, \u00e9 uma esp\u00e9cie de s\u00edmbolo da continuidade da vida nesse mundo radioativo p\u00f3s-apocal\u00edptico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>04\/01\/2022 Ao chegar ao cen\u00e1rio atingido pela radia\u00e7\u00e3o da Zona de Exclus\u00e3o de Chernobyl, na Ucr\u00e2nia, n\u00e3o demorou muito para Bogdan perceber que teria companheiros inesperados em seu novo trabalho. J\u00e1 nos primeiros dias como guarda em um dos postos de controle de Chernobyl, ele come\u00e7ou a compartilhar o local com uma matilha de c\u00e3es. 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