{"id":1273,"date":"2022-01-12T02:13:00","date_gmt":"2022-01-12T02:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=1273"},"modified":"2022-01-19T02:16:55","modified_gmt":"2022-01-19T02:16:55","slug":"depressao-e-redes-sociais-pros-e-contras-de-falar-abertamente-sobre-a-doenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/depressao-e-redes-sociais-pros-e-contras-de-falar-abertamente-sobre-a-doenca\/","title":{"rendered":"Depress\u00e3o e redes sociais: pr\u00f3s e contras de falar abertamente sobre a doen\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p>12\/01\/2022<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Eu s\u00f3 estou aqui, de p\u00e9, porque desde que afundei meus amigos organizaram um rod\u00edzio pra ficar sempre gente na minha casa&#8221;, escreveu o youtuber Felipe Neto. &#8220;A depress\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a da mente, como a gastrite \u00e9 uma doen\u00e7a do est\u00f4mago.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O maior influencer do Brasil detalhou recentemente seus problemas com a sa\u00fade mental em uma s\u00e9rie de apari\u00e7\u00f5es nas redes sociais. Desabafos p\u00fablicos sobre o tema, que chegam a dezenas de milh\u00f5es de pessoas, tamb\u00e9m j\u00e1 foram feitos por outros influenciadores, como o comediante Whindersson Nunes.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes restritas ao \u00e2mbito privado, conversas sobre depress\u00e3o, ansiedade, bipolaridade, s\u00edndrome do p\u00e2nico e outros transtornos t\u00eam se livrado da atmosfera de segredo e constrangimento do passado para ajudar a romper estigmas e estimular pessoas a buscar tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente acabava encarcerando o sofrimento, a loucura, as contradi\u00e7\u00f5es humanas na vida privada. Algo como &#8216;n\u00e3o traga isso aqui para a rua, deixe l\u00e1 no seu quarto, na sua casa, na sua fam\u00edlia, mas n\u00e3o divida isso, n\u00e3o torne isso um assunto coletivo&#8221;, diz o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e autor do livro\u00a0<em>Reinven\u00e7\u00e3o da Intimidade &#8211; Pol\u00edticas do Sofrimento Cotidiano<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, h\u00e1 um movimento positivo em se mostrar mais vulner\u00e1vel, inclusive do ponto de vista cognitivo: &#8220;Nossas vulnerabilidades que antes precisavam ser escondidas na vida privada s\u00e3o uma mat\u00e9ria-prima para o la\u00e7o com o outro. Porque pode ser de cuidado m\u00fatuo, pode ser de reflex\u00e3o conjunta, pode ser de partilha de afetos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Cl\u00ednicas de S\u00e3o Paulo, diz que o impacto de revela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas sobre o enfrentamento da depress\u00e3o \u00e9 &#8220;basicamente na diminui\u00e7\u00e3o do estigma. Parece pouco, mas ele \u00e9 brutal, \u00e9 uma das principais causas para uma pessoa n\u00e3o buscar tratamento&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O psiquiatra afirma que esse atual momento &#8220;nem de longe significa que o estigma deixou de existir. H\u00e1 o preconceito, que passa por um componente afetivo, emocional, e se expressa em posturas como &#8216;eu n\u00e3o me sinto bem ao estar perto de uma pessoa com esse problema&#8217;. E h\u00e1 o estere\u00f3tipo: um aspecto racional, cognitivo, materializado em achar que se conhece exatamente o comportamento de algu\u00e9m, por exemplo, com s\u00edndrome do p\u00e2nico&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"O-que-as-pesquisas-dizem\">O que as pesquisas dizem?<\/h2>\n\n\n\n<p>Alguns estudos j\u00e1 mostraram resultados ben\u00e9ficos quando personalidades de alcance na internet falam sobre sa\u00fade mental.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pesquisa examinou os efeitos sobre homens negros nos Estados Unidos depois que o rapper Kid Cudi exp\u00f4s seus problemas com depress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise da repercuss\u00e3o no Twitter aponta que as revela\u00e7\u00f5es de Kid Cudi ajudaram a engajar no debate sobre sa\u00fade mental um perfil populacional muitas vezes sujeito a press\u00f5es do ideal de masculinidade &#8211; que historicamente trata a depress\u00e3o com termos como &#8220;frescura&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 um trabalho de cientistas dos EUA e de Taiwan focou em microcelebridades (refer\u00eancias em nichos espec\u00edficos, como games) que abordam seus problemas emocionais em lives no YouTube e na plataforma Twitch.<\/p>\n\n\n\n<p>Falar do tema ajuda os seguidores a perceberem os riscos da depress\u00e3o. Faz tamb\u00e9m, segundo o estudo, com que essas microcelebridades pare\u00e7am mais aut\u00eanticas &#8211; embora surjam d\u00favidas entre o p\u00fablico sobre a credibilidade delas como porta-vozes do assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o pesquisador brasileiro Felipe Giuntini, da empresa Sidia, detectou algo diferente sobre os efeitos dessa conversa na internet.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu trabalho de doutorado no Instituto de Ci\u00eancias Matem\u00e1ticas e de Computa\u00e7\u00e3o (ICMC) da USP em S\u00e3o Carlos, ele formulou um sistema de intelig\u00eancia artificial que analisou posts de 415 mil participantes da maior comunidade sobre depress\u00e3o do site Reddit. O estudo contou com o suporte do departamento de psicologia da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFScar)<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00f3s notamos que os usu\u00e1rios pioraram seus sentimentos no ambiente de suporte m\u00fatuo&#8221;, afirma Giuntini, que utilizou um per\u00edodo de 10 anos para avalia\u00e7\u00e3o das postagens.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os usu\u00e1rios que entraram com depress\u00e3o leve sa\u00edram com depress\u00e3o moderada. E os usu\u00e1rios que entraram com uma depress\u00e3o moderada evolu\u00edram para um quadro mais grave. N\u00e3o notamos casos de melhora.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa sugere que ambientes como esse, em que pacientes de depress\u00e3o trocam experi\u00eancias, deveriam contar com especialistas em sa\u00fade mental no papel de moderadores. Para Giuntini, &#8220;n\u00e3o adianta voc\u00ea apenas agrupar pessoas com depress\u00e3o. A coisa n\u00e3o vai melhorar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"A-din\u00e2mica-das-redes-sociais\">A din\u00e2mica das redes sociais<\/h2>\n\n\n\n<p>Para o psicanalista Christian Dunker, essa cultura da conversa nas redes sociais ainda est\u00e1 se consolidando.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Acho que \u00e9 um fen\u00f4meno amplo, geral, mas que ainda est\u00e1 sobre o impacto da novidade. N\u00f3s ainda estamos formando, vamos dizer assim, uma cultura de avalia\u00e7\u00e3o sobre as produ\u00e7\u00f5es em redes sociais. A gente v\u00ea fen\u00f4menos de regula\u00e7\u00e3o disso. Por exemplo, o cancelamento ou a superpopularidade de alguns influenciadores.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Paula Sibilia, professora de estudos de m\u00eddia da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio, e autora do livro&nbsp;<em>O Show do Eu: A Intimidade como Espet\u00e1culo<\/em>&nbsp;diz que &#8220;a rela\u00e7\u00e3o destes fen\u00f4menos com o crescente uso das tecnologias digitais de comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o \u00e9 direta e evidente&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ela considera que s\u00e3o &#8220;transforma\u00e7\u00f5es socioculturais bem complexas que v\u00eam ocorrendo nas \u00faltimas d\u00e9cadas, muito profundas e significativas, que est\u00e3o sendo acompanhadas e alavancadas pela inven\u00e7\u00e3o e r\u00e1pida ado\u00e7\u00e3o de dispositivos t\u00e9cnicos adequados para a sua canaliza\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora da UFF observa que &#8220;tem ocorrido n\u00e3o apenas um aumento dos diagn\u00f3sticos de transtornos psiqui\u00e1tricos como a depress\u00e3o, a ansiedade e o p\u00e2nico, mas tamb\u00e9m o reconhecimento da legitimidade (e inclusive do prest\u00edgio) desse tipo de sofrimento. Os problemas de sa\u00fade mental, portanto, v\u00eam ganhando visibilidade e dignidade, motivando at\u00e9 um certo &#8216;orgulho&#8217; de quem ousa assumir publicamente que os padece&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso aparentemente se conecta com a quest\u00e3o da autenticidade e com outros elementos do ecossistema das redes sociais &#8211; como a ind\u00fastria dos influenciadores &#8211; que se tornam parte insepar\u00e1vel do cen\u00e1rio descrito acima.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Na sociedade contempor\u00e2nea, a vulnerabilidade se tornou um crit\u00e9rio ou um cap\u00edtulo do que a gente poderia chamar de indiciamento de autenticidade. Aquele que mostra suas dificuldades, que compartilha seus limites, aparece como algu\u00e9m mais real, como todo mundo&#8221;, diz Dunker, em uma conclus\u00e3o semelhante \u00e0 da pesquisa dos cientistas dos EUA e de Taiwan sobre microcelebridades.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Sibilia, &#8220;o&nbsp;<em>eu&nbsp;<\/em>de cada um \u00e9 incessantemente trabalhado para se tornar um produto ou uma grife atraente, desdobrando toda sorte de estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O te\u00f3rico de m\u00eddias sociais e soci\u00f3logo Nathan Jurgenson afirma &#8220;que n\u00e3o se consegue entender a cultura da confiss\u00e3o hoje sem estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o com uma gamifica\u00e7\u00e3o das m\u00e9tricas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A personalidade \u00e9 uma moeda. A fragilidade \u00e9 uma commodity&#8221;, diz ele, que tamb\u00e9m \u00e9 editor-chefe da revista norte-americana sobre cultura e tecnologia&nbsp;<em>Real Lif<\/em><em>e<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o psiquiatra Martins de Barros, do HC de S\u00e3o Paulo, diz que o saldo \u00e9 positivo a partir de todo esse cen\u00e1rio que vem se formando.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando as pessoas se abrem, elas diminuem a ignor\u00e2ncia, elas levam informa\u00e7\u00e3o para o bem. Nem sempre da maneira mais precisa, mas colocam o assunto na pauta, aumentam o debate e diminuem o estigma. Quando se come\u00e7a a ver pessoas produtivas, sejam artistas ou gerentes de banco, falando &#8216;eu me trato&#8217;, isso ataca os principais obst\u00e1culos ao tratamento.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>12\/01\/2022 &#8220;Eu s\u00f3 estou aqui, de p\u00e9, porque desde que afundei meus amigos organizaram um rod\u00edzio pra ficar sempre gente na minha casa&#8221;, escreveu o youtuber Felipe Neto. &#8220;A depress\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a da mente, como a gastrite \u00e9 uma doen\u00e7a do est\u00f4mago.&#8221; O maior influencer do Brasil detalhou recentemente seus problemas com a sa\u00fade [&#8230;]\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1275,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[23,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1273"}],"collection":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1273"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1273\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1274,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1273\/revisions\/1274"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1275"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}