{"id":479,"date":"2021-02-22T21:19:00","date_gmt":"2021-02-22T21:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=479"},"modified":"2021-02-27T21:22:32","modified_gmt":"2021-02-27T21:22:32","slug":"mudancas-na-petrobras-estatal-privado-ou-misto-os-tres-modelos-de-exploracao-de-petroleo-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/mudancas-na-petrobras-estatal-privado-ou-misto-os-tres-modelos-de-exploracao-de-petroleo-no-mundo\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as na Petrobras: estatal, privado ou misto, os tr\u00eas modelos de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no mundo"},"content":{"rendered":"\n<p>22\/02\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Petr\u00f3leo \u00e9 certamente fonte de dinheiro, mas nem sempre gera desenvolvimento e, para alguns pa\u00edses, chega a ser uma &#8220;maldi\u00e7\u00e3o&#8221;. Pelo menos \u00e9 o que revela a hist\u00f3ria de v\u00e1rias das na\u00e7\u00f5es que possuem esse cobi\u00e7ado recurso natural.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dos 15 pa\u00edses com as maiores reservas, apenas tr\u00eas s\u00e3o hoje na\u00e7\u00f5es desenvolvidas: Canad\u00e1, Estados Unidos e Noruega. Alguns dos maiores exportadores s\u00e3o na\u00e7\u00f5es com grandes desigualdades sociais, guerras e pobreza, como Iraque, Nig\u00e9ria e Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo tem a Petrobras como protagonista e uma pol\u00edtica que variou de grande intervencionismo do Estado para a abertura gradativa do mercado. Agora, no governo Jair Bolsonaro, dois discursos opostos parecem disputar espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, havia prometido privatizar subsidi\u00e1rias da Petrobras e reduzir interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Por outro, o presidente Jair Bolsonaro decidiu mudar o comando da empresa, ap\u00f3s fazer cr\u00edticas aos recentes reajustes no pre\u00e7o da gasolina e do diesel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele anunciou o general da reserva Joaquim Silva e Luna para substituir o economista liberal Roberto Castello Branco, provocando derretimento das a\u00e7\u00f5es da Petrobras e alta no d\u00f3lar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas qual modelo de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo \u00e9 mais vantajoso para a popula\u00e7\u00e3o? \u00c9 melhor ter interven\u00e7\u00e3o do Estado ou deixar as for\u00e7as de mercado livres para atuar?<\/p>\n\n\n\n<p>A BBC News Brasil entrevistou alguns dos principais especialistas em gest\u00e3o de petr\u00f3leo do mundo para identificar quais modelos existem, quais foram bem-sucedidos e se a op\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 vantajosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tina Hunter, diretora do curso de legisla\u00e7\u00e3o em petr\u00f3leo da Universidade de Aberdeen, na Esc\u00f3cia, explica que existem tr\u00eas grandes modelos de explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo: o americano, o do Mar do Norte (tamb\u00e9m chamado modelo noruegu\u00eas), e o da Ar\u00e1bia Saudita.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles s\u00e3o classificados, principalmente, pelo n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o do Estado, sendo o americano o de menor participa\u00e7\u00e3o do governo e o da Ar\u00e1bia Saudita, o de maior controle estatal.<\/p>\n\n\n\n<p>Quais vantagens e problemas o uso desses modelos trouxe para os pa\u00edses que hoje produzem e vendem petr\u00f3leo? A op\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 a mais adequada?<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"O-modelo-americano\">O modelo americano<\/h2>\n\n\n\n<p>Foi o primeiro a ser implementado e \u00e9 baseado numa interven\u00e7\u00e3o m\u00ednima do Estado. O governo abre leil\u00f5es para concess\u00f5es de \u00e1reas de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, as empresas privadas concorrem e pagam impostos ou royalties sobre as receitas vindas dessa atividade. N\u00e3o tem estatal participando, nem taxa\u00e7\u00e3o muito alta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 o sistema vigente nos Estados Unidos, Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia. A empresa obt\u00e9m a licen\u00e7a para explora\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea, exerce a sua atividade e paga royalties ao Estado, e esses royalties s\u00e3o relativamente baixos&#8221;, explica Tina Hunter.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caso, os riscos pela explora\u00e7\u00e3o s\u00e3o todos da empresa \u2014 mas os lucros tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Hunter, a vantagem desse modelo \u00e9 que ele costuma estimular a competitividade e, com isso, o desenvolvimento de novas tecnologias.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No modelo americano, o capitalismo reina. A ideia \u00e9 que o Estado saia do caminho e deixe que empresas especializadas se dediquem ao que elas sabem fazer melhor&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O ponto positivo \u00e9 que esse modelo normalmente estimula a inova\u00e7\u00e3o. Conforme o pre\u00e7o do petr\u00f3leo sobe e desce, as empresas tentam desenvolver novos modelos que sejam de boa rela\u00e7\u00e3o custo-benef\u00edcio e tragam efici\u00eancia. \u00c9 assim que se desenvolve a inova\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto negativo \u00e9 que a maior parte das receitas vai para as pr\u00f3prias empresas, n\u00e3o para a sociedade em geral. O pa\u00eds se beneficia com a gera\u00e7\u00e3o de empregos, se as empresas contratarem profissionais no territ\u00f3rio onde operam. Mas, se o petr\u00f3leo acaba, \u00e9 o fim tamb\u00e9m desse setor e dessas receitas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E, como voc\u00ea n\u00e3o tem o governo exercendo forte controle, os operadores podem eventualmente burlar regras ou se aproveitar de brechas na lei para se beneficiar em detrimento dos trabalhadores ou da na\u00e7\u00e3o. Podem, por exemplo, cortar grande n\u00famero de empregos para garantir alta nos lucros em tempos mais dif\u00edceis&#8221;, alerta a professora da Universidade de Aberdeen.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso dos Estados Unidos, o modelo capitalista de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo acabou se refletindo em empregos para cidad\u00e3os americanos e em novas tecnologias para empresas nacionais. Mas isso porque as condi\u00e7\u00f5es l\u00e1 foram favor\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras descobertas de petr\u00f3leo nos EUA se deram na d\u00e9cada de 1860. Empresas americanas privadas conseguiram se desenvolver num ambiente internacional ainda pouco competitivo no setor, se tornando companhias fortes e capazes de dominar grande parte do mercado internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, apesar da pouca interfer\u00eancia do Estado, esse modelo ainda assim garantiu que grande parte da tecnologia, da pesquisa e dos empregos relacionados \u00e0 ind\u00fastria do petr\u00f3leo fossem gerados nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco de um pa\u00eds em desenvolvimento optar pelo modelo americano \u00e9 abrir as portas para que empresas estrangeiras reinem na explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, usando m\u00e3o-de-obra especializada estrangeira e remetendo boa parte das receitas ao exterior, ressalta o consultor em economia do petr\u00f3leo Erik Jarlsby, da Eureka Energy Partners.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Modelo-do-Mar-do-Norte-ou-Noruegu\u00eas\">Modelo do Mar do Norte ou Noruegu\u00eas<\/h2>\n\n\n\n<p>Embora a Noruega n\u00e3o seja a maior exportadora de petr\u00f3leo \u2014 \u00e9 a d\u00e9cima-segunda \u2014 por n\u00e3o possuir as maiores reservas, especialistas dizem que \u00e9 o pa\u00eds que melhor soube reverter os lucros da explora\u00e7\u00e3o para um projeto de desenvolvimento que beneficiasse a sociedade em geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de gastar de imediato os recursos gerados pela explora\u00e7\u00e3o, o governo noruegu\u00eas decidiu criar um fundo para que o dinheiro rendesse e pudesse ser usado em benef\u00edcio das futuras gera\u00e7\u00f5es. Atualmente, \u00e9 o fundo de petr\u00f3leo mais rico do mundo, com mais de US$ 1 trilh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s na Noruega come\u00e7ou em 1965, quando o governo concedeu 78 licen\u00e7as a empresas privadas para explorar potenciais reservas, mas ap\u00f3s tr\u00eas anos de buscas, os resultados eram desanimadores.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que, no final de 1969, a Philips Petroleum informou ter achado petr\u00f3leo no campo de Ekofisk. Em vez de copiar o modelo americano, a Noruega decidiu que o Estado deveria ter maior controle na explora\u00e7\u00e3o, para garantir que os recursos n\u00e3o &#8220;evaporassem&#8221; nas m\u00e3os de empresas estrangeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que o governo pudesse ter peso nas decis\u00f5es comerciais referentes ao petr\u00f3leo, foi criada a estatal Statoil e uma ag\u00eancia reguladora.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, diferentemente do que ocorreu no Brasil com a Petrobras, a Statoil n\u00e3o recebeu direitos monopol\u00edsticos sobre extra\u00e7\u00e3o e refino, embora tenha obtido privil\u00e9gios no in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o para que pudesse competir com as empresas j\u00e1 estabelecidas. No Brasil, por 44 anos, a Petrobras deteve monop\u00f3lio total sobre o setor de petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo da Noruega decidiu que a participa\u00e7\u00e3o nacional nas opera\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo n\u00e3o deveria ser menor que 50%. Mas essa participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisava ser direta do Estado \u2014 a soma considerava tamb\u00e9m as atividades das empresas privadas norueguesas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00f3s n\u00e3o quer\u00edamos que a Statoil se tornasse todo-poderosa ou um Estado dentro do Estado. N\u00e3o quer\u00edamos que ela tivesse poder de decis\u00e3o sobre a concess\u00e3o de licen\u00e7as para outras empresas&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil o ge\u00f3logo Farouk Al-Kasim, um dos criadores do modelo de extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo da Noruega.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele pa\u00eds europeu, os campos de petr\u00f3leo s\u00e3o concedidos a partir de licita\u00e7\u00f5es com participa\u00e7\u00e3o de empresas nacionais, estrangeiras e da Statoil. Parte dos recursos obtidos pelo governo com a atua\u00e7\u00e3o da Statoil e com royalties pagos por empresas privadas vai para um fundo soberano criado em 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Os recursos do fundo s\u00e3o aplicados em a\u00e7\u00f5es de empresas estrangeiras, justamente para impedir a circula\u00e7\u00e3o excessiva de dinheiro na Noruega. E o governo s\u00f3 pode usar, atualmente, at\u00e9 3% do total por ano. Antes o percentual era de 4%, mas foi reduzido pelo Parlamento em 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo \u00e9 impedir que o dinheiro seja gasto de uma s\u00f3 vez em tempos dif\u00edceis, como \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o de governos no af\u00e3 de recuperar a popularidade em \u00e9pocas de crise.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, explica Al-Kasim, o fundo tem uma fun\u00e7\u00e3o &#8220;intergeracional&#8221;, ou seja, deve beneficiar as futuras gera\u00e7\u00f5es norueguesas quando as reservas de petr\u00f3leo acabarem. A expectativa \u00e9 de que as reservas no pa\u00eds se esgotem em at\u00e9 50 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Conforme as atividades de petr\u00f3leo se tornam menos prof\u00edcuas e menores em volume, a economia precisa estar pronta para esse desafio&#8221;, justifica Al-Kasim.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Modelo-da-Ar\u00e1bia-Saudita\">Modelo da Ar\u00e1bia Saudita<\/h2>\n\n\n\n<p>O modelo da Ar\u00e1bia Saudita \u00e9 o que concentra maiores poderes nas m\u00e3os do Estado. O governo saudita det\u00e9m o monop\u00f3lio da explora\u00e7\u00e3o e s\u00f3 permite a participa\u00e7\u00e3o de empresas estrangeiras como prestadoras de servi\u00e7os contratados por sua estatal, a Aramco. Tudo o que \u00e9 extra\u00eddo e produzido pertence ao pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esse modelo prev\u00ea o controle estatal absoluto. Nesse caso, o Estado \u00e9 dono da explora\u00e7\u00e3o. Ele asssume todos os riscos e custos, mas tamb\u00e9m fica com todos os rendimentos e lucros&#8221;, diz Tina Hunter, da Universidade de Aberdeen.<\/p>\n\n\n\n<p>A Ar\u00e1bia Saudita tem a segunda maior reserva de petr\u00f3leo do mundo, atr\u00e1s apenas da Venezuela, segundo dados da CIA, a ag\u00eancia de intelig\u00eancia dos Estados Unidos. E a explora\u00e7\u00e3o de boa parte das reservas \u00e9 considerada de baixo risco, dizem os especialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses fatores ajudam a explicar a propens\u00e3o do Estado em arcar com todos os custos e riscos.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema desse modelo \u00e9 que a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza nas m\u00e3os de integrantes do governo e de uma \u00fanica gigante estatal tende a produzir corrup\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que todas as demais empresas prestadoras de servi\u00e7o acabam dependendo integralmente da estatal para operar.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os pa\u00edses que em grande medida se inspiraram no modelo saudita est\u00e3o a Venezuela e o M\u00e9xico, que possuem estatais monopol\u00edsticas. Tamb\u00e9m foi caso do Brasil por 44 anos \u2014 per\u00edodo em que a Petrobras deteve o monop\u00f3lio da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A natureza humana \u00e9 muito simples. Quando voc\u00ea tem poder, os outros temem te desafiar&#8221;, avalia Farouk Al-Kasim. &#8220;A hist\u00f3ria mostra que \u00e9 muito dif\u00edcil evitar a corrup\u00e7\u00e3o quando h\u00e1 a possibilidade de uma empresa privada ou estatal dominar todas as outras.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"E-qual-o-modelo-brasileiro-\">E qual o &#8216;modelo&#8217; brasileiro?<\/h2>\n\n\n\n<p>No Brasil, a Petrobras ainda domina grande parte do processo de explora\u00e7\u00e3o e refino de petr\u00f3leo. De 1953, quando foi criada, a 1997, quando a Lei do Petr\u00f3leo permitiu a entrada de empresas estrangeiras no setor, a estatal deteve o monop\u00f3lio das opera\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 1997, ela p\u00f4de decidir com quais campos ficar e quais liberar para explora\u00e7\u00e3o de companhias privadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Acabou ficando com todas as reservas lucrativas e abdicou de 62 campos pequenos, diz \u00e0 BBC News Brasil a consultora de energia da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas Magda Chambriard, ex-diretora-geral da Ag\u00eancia Nacional de Petr\u00f3leo (ANP).<\/p>\n\n\n\n<p>Nos campos ainda n\u00e3o explorados, a estatal p\u00f4de manter o controle se comprovasse ter tecnologia para explorar. Se n\u00e3o tivesse, poderia tanto liberar para concess\u00f5es a empresas privadas quanto formar parcerias para explora\u00e7\u00e3o conjunta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O contrato passou a ser muito aberto, mas os contratistas, as empresas competidoras, eram todas contratistas da Petrobras, toda a estrutura log\u00edstica era da Petrobras, ent\u00e3o se tornou muito dif\u00edcil para um novo entrante competir num ambiente que a Petrobras dominava completamente&#8221;, explica Chambriard.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, os mais de 40 anos de monop\u00f3lio garantido por lei deram \u00e0 Petrobras uma vantagem competitiva que n\u00e3o foi superada pelas empresas privadas que tentaram entrar no mercado brasileiro desde ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E, a partir da descoberta do pr\u00e9-sal, o governo mudou o modelo de concess\u00e3o para o de partilha, dando ainda mais privil\u00e9gios para a Petrobras.<\/p>\n\n\n\n<p>A lei de partilha prev\u00ea que o Minist\u00e9rio de Minas e Energia (por meio do Conselho Nacional de Pol\u00edtica Energ\u00e9tica) pode decidir se realiza licita\u00e7\u00f5es para explora\u00e7\u00e3o ou se entrega determinadas \u00e1reas diretamente \u00e0 Petrobras, se considerar que \u00e9 de interesse nacional manter o controle total dessas reservas.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de optar pela licita\u00e7\u00e3o, o conselho oferece primeiramente \u00e0 Petrobras a op\u00e7\u00e3o de ser operadora dos blocos a serem contratados. Se a estatal tiver interesse, ela deve informar em quais \u00e1reas quer atuar e ter\u00e1 garantida participa\u00e7\u00e3o m\u00ednima de 30% no cons\u00f3rcio que vencer a licita\u00e7\u00e3o para explorar as reservas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros 70% s\u00e3o leiloados e a Petrobras ainda pode integrar o cons\u00f3rcio de empresas que vai explorar esse excedente. O vencedor do leil\u00e3o \u00e9 aquele que oferecer \u00e0 Uni\u00e3o maior percentual de excedente em \u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no regime de concess\u00e3o, vigente para os demais campos de petr\u00f3leo no Brasil, o risco de investir e encontrar ou n\u00e3o combust\u00edvel \u00e9 da empresa concession\u00e1ria, que tem a propriedade de todo o \u00f3leo e g\u00e1s que venha a ser descoberto e produzido na \u00e1rea concedida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ganha a licita\u00e7\u00e3o a concession\u00e1ria que oferecer o maior valor em participa\u00e7\u00f5es governamentais, ou seja, em b\u00f4nus de assinatura, pagamento pela ocupa\u00e7\u00e3o ou reten\u00e7\u00e3o de \u00e1rea, royalties e participa\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Magda Chambriard, a mudan\u00e7a do regime de concess\u00e3o para partilha, que visa a garantir maior participa\u00e7\u00e3o da Petrobras na explora\u00e7\u00e3o, se justifica pelo fato de as \u00e1reas do pr\u00e9-sal serem lucrativas e de baixo risco.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, essa altera\u00e7\u00e3o significa, portanto, maior controle das opera\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo nas m\u00e3os do Estado e da Petrobras. &#8220;O pa\u00eds entendeu que esses campos eram muito produtivos e que era preciso, por isso, ampliar a participa\u00e7\u00e3o da sociedade nessa produ\u00e7\u00e3o&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Poderes-demais-nas-m\u00e3os-de-uma-empresa-s\u00f3\">Poderes demais nas m\u00e3os de uma empresa s\u00f3?<\/h2>\n\n\n\n<p>A especialista em gest\u00e3o de petr\u00f3leo Tina Hunter argumenta que o modelo de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo do Brasil, desde o regime de monop\u00f3lio total at\u00e9 o atual modelo de partilha, concentra poderes demais nas m\u00e3os da Petrobras.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, o Estado deve intervir na gest\u00e3o do petr\u00f3leo como regulador e, em alguns casos, por meio de uma estatal, mas sem exercer o monop\u00f3lio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No momento em que voc\u00ea come\u00e7a a dar poderes demais para uma empresa, tudo desmorona. \u00c9 quando temos corrup\u00e7\u00e3o e esc\u00e2ndalo. Quando h\u00e1 poder demais, h\u00e1 corrup\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Hunter.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A estatal n\u00e3o deve ter poder de decis\u00e3o sobre o modelo de concess\u00e3o. Precisa ser tratada como as empresas privadas, sem poderes especiais&#8221;, defende a professora brit\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o argumento de que \u00e9 preciso acelerar a explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal e estimular a competitividade, o governo Bolsonaro decidiu apoiar um projeto de lei do senador Jos\u00e9 Serra (PSDB-SP) que permite que o regime de concess\u00e3o seja aplicado para as licita\u00e7\u00f5es dos blocos do pr\u00e9-sal.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa proposta, caberia ao governo decidir, a cada concorr\u00eancia, se optar\u00e1 por um modelo ou outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a Petrobras n\u00e3o teria mais o direito de prefer\u00eancia pela explora\u00e7\u00e3o, Atualmente, a estatal pode indicar, antes de iniciada cada licita\u00e7\u00e3o, se tem o interesse de explorar os campos com participa\u00e7\u00e3o m\u00ednima garantida de 30%.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Privatiza\u00e7\u00e3o\">Privatiza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Em outra frente, o governo tem promovido a venda de &#8220;bra\u00e7os&#8221; da Petrobras, com o objetivo de concentrar as atividades da estatal na explora\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. O plano \u00e9 vender para a iniciativa privada ativos em \u00e1reas como o refino, o transporte e distribui\u00e7\u00e3o de g\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O petr\u00f3leo est\u00e1 no fundo do mar, pode ser que daqui a 20 ou 30 anos o carro seja el\u00e9trico e o petr\u00f3leo fique sem valor. Ent\u00e3o, estamos trabalhando a mil por hora para focar a Petrobras na extra\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo&#8221;, afirmou em julho o ministro da Economia, Paulo Guedes.<\/p>\n\n\n\n<p>A Petrobras j\u00e1 divulgou que pretende privatizar oito refinarias: Refinaria Abreu e Lima (RNEST); Refinaria Presidente Get\u00falio Vargas (REPAR); Refinaria Alberto Pasqualini (REFAP); Refinaria Landulpho Alves (RLAM); Refinaria Gabriel Passos (REGAP); Refinaria Isaac Sabb\u00e1 (REMAN); Lubrificantes e Derivados de Petr\u00f3leo do Nordeste (LUBNOR); e Unidade de Industrializa\u00e7\u00e3o do Xisto.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros ativos que est\u00e3o no plano de vendas da companhia s\u00e3o a Liquig\u00e1s (distribuidora de g\u00e1s liquefeito de petr\u00f3leo), a participa\u00e7\u00e3o da Petrobras na processadora de g\u00e1s argentina Mega e alguns campos que a Petrobras diz que s\u00e3o &#8220;campos maduros, com baixa produtividade e alto custo de extra\u00e7\u00e3o e onde n\u00e3o somos donos naturais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a decis\u00e3o de abrir o mercado de petr\u00f3leo para empresas privadas e reduzir o tamanho da Petrobras divide opini\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto os defensores argumentam que as privatiza\u00e7\u00f5es v\u00e3o trazer al\u00edvio aos cofres p\u00fablicos e acelerar a produ\u00e7\u00e3o e escoamento de petr\u00f3leo, os cr\u00edticos argumentam que \u00e9 preciso cautela e regras para que, a longo prazo, os recursos n\u00e3o passem a beneficiar mais empresas estrangeiras que o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente quer que as multinacionais venham para c\u00e1. Isso \u00e9 essencial nesse momento, j\u00e1 que temos diversos munic\u00edpios afundando com falta de investimentos e com ativos que poderiam ser aproveitados&#8221;, afirma Magda Chambriard.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas, se essas companhias estrangeiras vierem para c\u00e1 para comprar tudo no exterior, produzir o petr\u00f3leo, pagar imposto e ir embora, n\u00e3o obteremos o resultado que um pa\u00eds tem de querer, que \u00e9 gerar emprego para os seus filhos&#8221;, acrescenta, defendendo a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que favore\u00e7am a compra de componentes nacionais e o uso de m\u00e3o-de-obra brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>22\/02\/2021 Petr\u00f3leo \u00e9 certamente fonte de dinheiro, mas nem sempre gera desenvolvimento e, para alguns pa\u00edses, chega a ser uma &#8220;maldi\u00e7\u00e3o&#8221;. Pelo menos \u00e9 o que revela a hist\u00f3ria de v\u00e1rias das na\u00e7\u00f5es que possuem esse cobi\u00e7ado recurso natural. Dos 15 pa\u00edses com as maiores reservas, apenas tr\u00eas s\u00e3o hoje na\u00e7\u00f5es desenvolvidas: Canad\u00e1, Estados Unidos [&#8230;]\n","protected":false},"author":1,"featured_media":480,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/479"}],"collection":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=479"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/479\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":481,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/479\/revisions\/481"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/480"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=479"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=479"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=479"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}