{"id":514,"date":"2021-03-08T21:51:01","date_gmt":"2021-03-08T21:51:01","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=514"},"modified":"2021-03-08T21:51:07","modified_gmt":"2021-03-08T21:51:07","slug":"cidadao-kane-4-razoes-pelas-quais-o-filme-e-considerado-por-muitos-o-melhor-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/cidadao-kane-4-razoes-pelas-quais-o-filme-e-considerado-por-muitos-o-melhor-da-historia\/","title":{"rendered":"&#8216;Cidad\u00e3o Kane&#8217;: 4 raz\u00f5es pelas quais o filme \u00e9 considerado por muitos o melhor da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>08\/03\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ele foi considerado por muitos ao longo de d\u00e9cadas como o maior filme de todos os tempos: um del\u00edrio de engenhosidade e cria\u00e7\u00e3o, uma aula magistral de t\u00e9cnica cinematogr\u00e1fica, estrutura e narrativa.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>, o primeiro filme de Orson Welles, n\u00e3o foi, no entanto, bem recebido na \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Mal conseguiu recuperar o or\u00e7amento gasto com sua produ\u00e7\u00e3o, e a publicidade negativa na imprensa, em decorr\u00eancia de seu tema, o acompanhou por anos como uma maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E apesar das muitas indica\u00e7\u00f5es que recebeu, ganhou apenas um Oscar na cerim\u00f4nia de 1941: de melhor roteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, 80 anos depois, um novo filme inspirado justamente no processo de escrita do roteiro de\u00a0<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>\u00a0\u00e9 um dos favoritos desta temporada de premia\u00e7\u00f5es de Hollywood.<\/p>\n\n\n\n<p>Dirigido por David Fincher para a Netflix,<em>&nbsp;Mank<\/em>&nbsp;conta a batalha de Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman) contra o alcoolismo, problemas de sa\u00fade e mem\u00f3ria enquanto ele se isola em um rancho para terminar a obra de sua vida, o filme que pouco a pouco, como ele vai descobrir, ser\u00e1 o seu canto do cisne, e tamb\u00e9m, aquele que vai render a ele um lugar na hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Mank<\/em>&nbsp;\u00e9 acima de tudo uma homenagem a Mankiewicz, o homem que muitas vezes foi deixado de lado nos livros de cinema em face da personalidade e engenhosidade avassaladoras de Orson Welles.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que h\u00e1 de especial em&nbsp;<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>? Por que o filme n\u00e3o perdeu seu encanto, apesar dos anos que se passaram? Por que ainda \u00e9 cultuado em universidades, cinematecas e por cin\u00e9filos de todo o mundo?<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"1-O-roteiro-revolucion\u00e1rio-de-Mankiewicz\">1 &#8211; O roteiro revolucion\u00e1rio de Mankiewicz<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das grandes quest\u00f5es da hist\u00f3ria do cinema \u00e9 quanto Mankiewicz teve a ver com a edi\u00e7\u00e3o final de&nbsp;<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>&nbsp;e quanto Welles participou do roteiro original.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer que tenha sido a influ\u00eancia de um sobre o outro, o filme prop\u00f4s uma das mais revolucion\u00e1rias \u2014 e ousadas \u2014 estruturas dram\u00e1ticas que a hist\u00f3ria do cinema havia visto at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>\u00a0se concentra na vida de Charles Foster Kane (interpretado por Welles), um magnata da imprensa que tem uma enorme fortuna e influ\u00eancia, mas que n\u00e3o alcan\u00e7a o cargo pol\u00edtico tampouco o amor que anseia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma vers\u00e3o fict\u00edcia da figura do magnata da imprensa William Randolph Hearst, que, ali\u00e1s, desempenhou um papel essencial na tentativa de fazer&nbsp;<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>&nbsp;cair no esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, em vez de ser um filme biogr\u00e1fico convencional, a obra de Welles e Mankiewicz \u00e9 um quebra-cabe\u00e7as que re\u00fane v\u00e1rios narradores, perspectivas e saltos no tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Conta, tamb\u00e9m, com uma cole\u00e7\u00e3o de frases memor\u00e1veis \u200b\u200bpor sua sagacidade e oferece uma vis\u00e3o contundente do estilo e do mundo interior de seu personagem principal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas este n\u00e3o \u00e9 um manual acad\u00eamico de t\u00e9cnica e estrutura: o roteiro de&nbsp;<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>&nbsp;tem mais a oferecer como entretenimento do que como um manual de estilo.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"2-A-subvers\u00e3o-dos-g\u00eaneros-cinematogr\u00e1ficos\">2 &#8211; A subvers\u00e3o dos g\u00eaneros cinematogr\u00e1ficos<\/h2>\n\n\n\n<p>O filme apresentou um jogo com os g\u00eaneros cinematogr\u00e1ficos at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dito \u2014 e que, ao longo dos anos, o tornou quase inclassific\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, alguns o definiram como um &#8220;drama de mist\u00e9rio&#8221;, mas agrupar todos os g\u00eaneros que ele engloba \u00e9 complicado.<\/p>\n\n\n\n<p>A trama come\u00e7a com os acordes pessimistas de um tema de Bernard Herrmann. Voc\u00ea pode ver a silhueta irregular de um castelo no topo de uma colina com n\u00e9voa. Estamos no territ\u00f3rio do terror g\u00f3tico. O castelo poderia muito bem ser propriedade do Conde Dr\u00e1cula.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, deslizamos para o castelo por meio de uma montagem estranha: uma tempestade de neve, uma bola de neve, at\u00e9 a boca de Kane enquanto ele suspira sua \u00faltima palavra: &#8220;Rosebud&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois minutos depois, a obra n\u00e3o \u00e9 mais um filme de terror, mas uma experi\u00eancia surreal digna de Salvador Dal\u00ed e Luis Bu\u00f1uel. Mas n\u00e3o muito.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos segundos depois,&nbsp;<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>&nbsp;se transforma em um notici\u00e1rio que percorre a biografia de Kane e nos mostra Xanadu, sua monumental propriedade na Fl\u00f3rida (nos moldes do castelo de Hearst em San Simeon, na Calif\u00f3rnia).<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, quando estamos nos adaptando ao falso document\u00e1rio, o filme muda novamente<\/p>\n\n\n\n<p>Tem um flashback dickensiano da inf\u00e2ncia rural de Kane em 1871. E, na sequ\u00eancia, passamos para uma com\u00e9dia de costumes enquanto Kane assume o controle do jornal New York Inquirer. Mais tarde, o filme se transforma em um drama pol\u00edtico, depois em uma farsa de bastidores, e finalmente em um melodrama sombrio&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E, ligando os diversos g\u00eaneros, h\u00e1 uma hist\u00f3ria de detetive sobre um rep\u00f3rter investigativo tentando descobrir o que Rosebud poderia significar.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca antes na hist\u00f3ria do cinema se havia visto tamanha complexidade narrativa.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"3-Uma-revolu\u00e7\u00e3o-na-t\u00e9cnica-do-cinema\">3 &#8211; Uma revolu\u00e7\u00e3o na t\u00e9cnica do cinema<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1946, um historiador do cinema franc\u00eas, Georges Sadoul, classificou<em>&nbsp;Cidad\u00e3o Kane<\/em>&nbsp;como &#8220;uma enciclop\u00e9dia de t\u00e9cnicas antigas&#8221; e, embora tenha tentado minimizar a import\u00e2ncia do filme, ele identificou um dos segredos que permitiram \u00e0 obra transcender no tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que a fa\u00e7anha de contar uma hist\u00f3ria t\u00e3o complexa foi acompanhada de um prop\u00f3sito igualmente desproporcional: brincar com as c\u00e2meras, as luzes, as abordagens, enfim com as regras que haviam ditado as r\u00edgidas leis cinematogr\u00e1ficas de Hollywood at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme \u00e9 uma enciclop\u00e9dia de t\u00e9cnicas: uma escola de cinema de 114 minutos que oferece v\u00e1rias aulas sobre profundidade de campo e retroproje\u00e7\u00e3o, closes extremos e di\u00e1logos sobrepostos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 de se admirar que os estudantes de cinema amem&nbsp;<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>. Assistir ao filme \u00e9 como fazer um semestre inteiro de cinema em uma \u00fanica tarde.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tamb\u00e9m fez com que o filme n\u00e3o fosse recebido da mesma forma pelo p\u00fablico em geral, que \u00e0s vezes pode achar que \u00e9 muito pretensioso.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"4-O-g\u00eanio-criativo-e-a-juventude-de-Orson-Welles\">4 &#8211; O g\u00eanio criativo e a juventude de Orson Welles<\/h2>\n\n\n\n<p>Talvez uma das raz\u00f5es pelas quais o filme seja t\u00e3o vibrante se deva ao fato de que seu pr\u00f3prio diretor tamb\u00e9m estava aprendendo a fazer cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu primeiro filme foi uma tentativa de revolucionar a dire\u00e7\u00e3o, da mesma forma que j\u00e1 havia tentado fazer no r\u00e1dio durante sua estadia em Nova York, sobretudo com a adapta\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>A Guerra dos Mundos<\/em>, em 1938.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se j\u00e1 era uma estrela do teatro e do r\u00e1dio, Welles n\u00e3o tinha muita no\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas cinematogr\u00e1ficas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizem que uma assistente chamada Miriam Geiger teve que fazer um manual das diferentes lentes e tomadas que ele poderia experimentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Welles chegou a Hollywood com a promessa de poder fazer o filme que quisesse, sem interfer\u00eancias, algo que hoje seria impens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, foi logo fisgado pelas possibilidades que o cinema oferecia como meio e usou todas em\u00a0<em>Cidad\u00e3o Kane.\u00a0<\/em>Um est\u00fadio de cinema, ele brincou, era &#8220;o maior trem el\u00e9trico que uma crian\u00e7a j\u00e1 teve&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Welles foi capaz de imprimir no seu primeiro filme um dinamismo e uma vitalidade que n\u00e3o conseguiu repetir depois e que, talvez, n\u00e3o tenha voltado a se repetir na hist\u00f3ria do cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma outra reflex\u00e3o sobre o fracasso, o arrependimento e a crueldade da passagem do tempo jamais teve uma exuber\u00e2ncia t\u00e3o juvenil como a de&nbsp;<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Surpreendentemente, Welles tinha apenas 25 anos quando seu primeiro filme foi lan\u00e7ado nos cinemas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em artigo na revista The New Yorker sobre<em>&nbsp;Cidad\u00e3o Kane<\/em>, Pauline Kael afirma que o sucesso do filme \u00e9 &#8220;o resultado da descoberta e do deleite da divers\u00e3o de fazer filmes de Welles&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua verdadeira magia, no entanto, est\u00e1 na maneira como esse deleite vai e vem entre o cineasta e seu tema.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte de&nbsp;<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>&nbsp;fala de um g\u00eanio que se vangloria de seu poder e confian\u00e7a, e \u00e9 feito por um g\u00eanio que tamb\u00e9m se orgulha de seu poder e confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia, nenhum diretor novato na casa dos vinte anos teria o controle total de um grande projeto. E nenhum diretor novato poderia chegar a Hollywood com a ignor\u00e2ncia ing\u00eanua e a arrog\u00e2ncia de Welles.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1941, Welles era um principiante e especialista, graduado e professor. E, se ele nunca mais teve a liberdade e energia ilimitadas para fazer outro filme como\u00a0<em>Cidad\u00e3o Kane,\u00a0<\/em>ningu\u00e9m tampouco teve.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>08\/03\/2021 Ele foi considerado por muitos ao longo de d\u00e9cadas como o maior filme de todos os tempos: um del\u00edrio de engenhosidade e cria\u00e7\u00e3o, uma aula magistral de t\u00e9cnica cinematogr\u00e1fica, estrutura e narrativa. Cidad\u00e3o Kane, o primeiro filme de Orson Welles, n\u00e3o foi, no entanto, bem recebido na \u00e9poca. 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