{"id":573,"date":"2021-03-31T21:36:00","date_gmt":"2021-03-31T21:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=573"},"modified":"2021-04-01T21:38:59","modified_gmt":"2021-04-01T21:38:59","slug":"teto-de-gastos-na-berlinda-por-que-economistas-chamam-orcamento-para-2021-de-peca-de-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/teto-de-gastos-na-berlinda-por-que-economistas-chamam-orcamento-para-2021-de-peca-de-ficcao\/","title":{"rendered":"Teto de gastos na berlinda: por que economistas chamam or\u00e7amento para 2021 de &#8216;pe\u00e7a de fic\u00e7\u00e3o&#8217;"},"content":{"rendered":"\n<p>31\/03\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Pe\u00e7a de fic\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;retorno das pedaladas fiscais&#8221;, &#8220;vergonhoso&#8221;, &#8220;inexequ\u00edvel&#8221;, &#8220;acinte \u00e0 transpar\u00eancia no trato da coisa p\u00fablica&#8221;.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essas foram algumas das express\u00f5es usadas nos \u00faltimos dias por parlamentares, economistas e at\u00e9 mesmo t\u00e9cnicos do governo para classificar o Or\u00e7amento federal para 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>A previs\u00e3o de gastos do governo foi aprovada pelo Congresso Nacional na semana passada, com tr\u00eas meses de atraso, e \u00e0s v\u00e9speras do in\u00edcio da discuss\u00e3o sobre o Or\u00e7amento de 2022 &#8211; o Executivo costuma encaminhar o projeto de LDO (Lei de Diretrizes Or\u00e7ament\u00e1rias) do ano seguinte at\u00e9 15 de abril de cada ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Quais s\u00e3o os problemas do Or\u00e7amento aprovado? H\u00e1 risco de o governo parar por falta de dinheiro? Por que se fala novamente em &#8220;pedaladas fiscais&#8221; e &#8220;contabilidade criativa&#8221;? Tem como consertar?<\/p>\n\n\n\n<p>A BBC News Brasil ouviu Felipe Salto, diretor-executivo da IFI (Institui\u00e7\u00e3o Fiscal Independente) do Senado, e Carlos Kawall, diretor da gestora ASA Investments e ex-secret\u00e1rio do Tesouro, para tirar essas e outras d\u00favidas sobre o Or\u00e7amento de 2021.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"1-Quais-os-principais-problemas-do-Or\u00e7amento-de-2021-\">1. Quais os principais problemas do Or\u00e7amento de 2021?<\/h2>\n\n\n\n<p>Kawall e Salto explicam que o principal desafio na elabora\u00e7\u00e3o do Or\u00e7amento para 2021 \u00e9 o cumprimento da regra do teto de gastos, que limita o crescimento da despesa de cada ano \u00e0 varia\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o no ano anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No final do ano passado, tivemos uma surpresa inflacion\u00e1ria, com a infla\u00e7\u00e3o muito acima do esperado, particularmente no INPC (\u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor), que corrige despesas obrigat\u00f3rias como Previd\u00eancia, abono salarial e BPC (Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada, pago a idosos e pessoas com defici\u00eancia de baixa renda). Todas as despesas que est\u00e3o ligada ao sal\u00e1rio m\u00ednimo&#8221;, afirma Kawall.<\/p>\n\n\n\n<p>INPC \u00e9 o indicador que mede a varia\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os para fam\u00edlias com renda entre um e cinco sal\u00e1rios m\u00ednimos. Ele \u00e9 usado como refer\u00eancia nas negocia\u00e7\u00f5es salariais no setor privado e tamb\u00e9m no reajuste anual do sal\u00e1rio m\u00ednimo pelo governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a disparada do pre\u00e7o dos alimentos no ano passado, o INPC fechou 2020 em alta de 5,45%, acima da expectativa do governo, que era de um avan\u00e7o de 2,09%. Com isso, o sal\u00e1rio m\u00ednimo para este ano foi fixado em R$ 1.100, ante previs\u00e3o do governo em agosto de um sal\u00e1rio-base de R$ 1.067 para 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso criou uma defasagem entre o valor que estava no Or\u00e7amento para essas despesas e o que efetivamente se vai gastar agora&#8221;, diz o economista.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"2-H\u00e1-risco-de-o-governo-parar-por-falta-de-dinheiro-\">2. H\u00e1 risco de o governo parar por falta de dinheiro?<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo os economistas, este risco de fato existe.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 22 de mar\u00e7o, o Minist\u00e9rio da Economia estimou que as despesas obrigat\u00f3rias (que s\u00e3o cerca de 92% do total) estavam subestimadas em cerca de R$ 17 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Para resolver o problema seria necess\u00e1rio contingenciar o gasto discricion\u00e1rio, como \u00e9 chamada aquela fatia do or\u00e7amento sobre a qual o governo tem algum poder de decis\u00e3o sobre o uso. \u00c9 diferente do que acontece com o gasto obrigat\u00f3rio, que n\u00e3o pode ser redirecionado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ocorre que, na hora da aprova\u00e7\u00e3o do Or\u00e7amento &#8211; at\u00e9 onde sabemos, de comum acordo com a c\u00fapula do governo -, o relator [senador M\u00e1rcio Bittar, do MDB do Acre] tirou das despesas obrigat\u00f3rias um valor adicional de R$ 26 bilh\u00f5es, pra destinar mais recursos a emendas parlamentares&#8221;, aponta Kawall.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, voc\u00ea imagina: eu j\u00e1 estou devendo R$ 17 bilh\u00f5es, o relator vai l\u00e1 e aumenta essa d\u00edvida em R$ 26 bilh\u00f5es, gerando uma defici\u00eancia no Or\u00e7amento de mais de R$ 43 bilh\u00f5es. O que era ruim, ficou invi\u00e1vel.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Kawall, R$ 7 bilh\u00f5es podem ser abatidos desse &#8220;rombo&#8221;, porque houve uma decis\u00e3o do Codefat (Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador) de postergar o pagamento de parte do abono salarial de 2021 para 2022. O abono \u00e9 uma esp\u00e9cie de &#8220;14\u00ba sal\u00e1rio&#8221; pago a trabalhadores com carteira assinada que recebem baixos rendimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a de calend\u00e1rio do abono ainda depende da edi\u00e7\u00e3o de medida provis\u00f3ria. Se aprovada, ainda assim, o buraco nas contas seria de cerca de R$ 36 bilh\u00f5es, estima Kawall.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;R$ 36 bilh\u00f5es \u00e9 mais de 0,5% do PIB. Sob qualquer m\u00e9trica, \u00e9 muita grana&#8221;, diz o economista.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compensar esse montante com redu\u00e7\u00e3o de despesas n\u00e3o obrigat\u00f3rias, isso significaria reduzir esse tipo de gasto para cerca de R$ 54 bilh\u00f5es. O patamar \u00e9 considerado invi\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00edvel &#8220;confort\u00e1vel&#8221; para a despesa n\u00e3o obrigat\u00f3ria \u00e9 estimado entre R$ 100 bilh\u00f5es e R$ 110 bilh\u00f5es. Entre R$ 80 bilh\u00f5es e R$ 90 bilh\u00f5es \u00e9 considerado um limite extremo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;R$ 54 bilh\u00f5es n\u00e3o \u00e9 fact\u00edvel. Voc\u00ea n\u00e3o tem como garantir o custeio da m\u00e1quina, a\u00ed come\u00e7am problemas como falta de dinheiro para emitir passaporte, para pagar contas de luz e \u00e1gua de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, e tudo mais que \u00e9 necess\u00e1rio para o custeio do governo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"3-Por-que-se-fala-novamente-em-pedaladas-fiscais-e-contabilidade-criativa-\">3. Por que se fala novamente em &#8220;pedaladas fiscais&#8221; e &#8220;contabilidade criativa&#8221;?<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo Kawall, h\u00e1 um ponto em comum entre as manobras fiscais que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff (PT) e os problemas do Or\u00e7amento aprovado pelo Congresso na semana passada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que une as duas experi\u00eancias hist\u00f3ricas \u00e9 a ideia de gastar mais. De encontrar uma maneira de contornar a regra fiscal &#8211; l\u00e1 a Lei de Responsabilidade Fiscal, aqui o teto de gastos &#8211; no intuito de fazer mais gasto&#8221;, diz o economista da ASA Investments.<\/p>\n\n\n\n<p>Salto, da IFI, diz que os dois casos t\u00eam em comum or\u00e7amentos distantes da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A chamada &#8216;contabilidade criativa&#8217;, como ficou conhecida no per\u00edodo de 2008 a 2014, foi um conjunto de pr\u00e1ticas que permitiu aumentar o gasto p\u00fablico, respeitando a meta de gasto prim\u00e1rio, mas alterando essa meta&#8221;, diz o economista, lembrando que, por exemplo, investimentos do PAC (Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento) foram abatidos, depois desonera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Kawall lembra ainda do uso de bancos p\u00fablicos para financiar o Tesouro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Or\u00e7amento de 2021 pode abrir a porta para problemas similares, porque a pe\u00e7a or\u00e7ament\u00e1ria est\u00e1 muito distante da realidade&#8221;, avalia Salto. &#8220;Ent\u00e3o esse \u00e9 um risco que precisa ser mapeado, pois pode ensejar pr\u00e1ticas de contabilidade criativa que j\u00e1 prejudicaram muito no passado as contas p\u00fablicas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"4-Tem-como-consertar-\">4. Tem como consertar?<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo os economistas tem conserto, mas n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o simples.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando a realidade se impuser, o Executivo vai ter que suplementar as despesas obrigat\u00f3rias. Porque ele vai ter que pagar os aposentados, n\u00e3o vai deixar sem pagar&#8221;, diz Salto.<\/p>\n\n\n\n<p>Somente na Previd\u00eancia, a estimativa de despesa do Or\u00e7amento aprovado \u00e9 de R$ 690,9 bilh\u00f5es, contra previs\u00e3o da IFI de um gasto necess\u00e1rio de R$ 704,5 bilh\u00f5es e estimativa do governo de desembolso de R$ 712,9 bilh\u00f5es. Ou seja, somente no INSS, estariam faltando entre R$ 13 bilh\u00f5es e R$ 22 bilh\u00f5es, a depender da proje\u00e7\u00e3o mais ou menos conservadora.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Para fazer essa suplementa\u00e7\u00e3o, o governo teria duas op\u00e7\u00f5es: ou fazer contingenciamentos ou reestimar a receita. Mas reestimar a receita n\u00e3o resolve, devido ao teto de gastos&#8221;, diz Salto.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso porque, pela regra do teto, o crescimento do gasto \u00e9 limitado \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior, independentemente de haver mais ou menos arrecada\u00e7\u00e3o de impostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a \u00fanica op\u00e7\u00e3o \u00e9 contingenciar. Para cortar despesas do pr\u00f3prio Executivo, se esbarra no fato de que elas est\u00e3o num limite muito baixo e h\u00e1 risco de &#8220;shutdown&#8221;, como explicou Kawall.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 cortar emendas parlamentares, mas elas n\u00e3o podem simplesmente ser cortadas para complementar despesas obrigat\u00f3rias. A lei n\u00e3o permite. Ent\u00e3o muito provavelmente ser\u00e1 preciso enviar projeto de lei para fazer isso&#8221;, conclui Salto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ent\u00e3o o Executivo est\u00e1 diante de um problema muito grave: ele vai ter que suplementar as despesas obrigat\u00f3rias, criar as condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e jur\u00eddicas para conter as despesas discricion\u00e1rias, e assim cumprir o teto de gastos&#8221;, diz Salto, destacando que, pelas contas da IFI, o corte de despesas necess\u00e1rio seria de R$ 31,9 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"5-Por-que-o-Or\u00e7amento-de-2021-gerou-tantas-cr\u00edticas-\">5. Por que o Or\u00e7amento de 2021 gerou tantas cr\u00edticas?<\/h2>\n\n\n\n<p>&#8220;Foi uma grande lamban\u00e7a. Um epis\u00f3dio muito ruim do ponto de vista da sinaliza\u00e7\u00e3o do compromisso do Congresso com o arcabou\u00e7o fiscal do pr\u00f3prio governo&#8221;, diz Kawall.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o economista, a aprova\u00e7\u00e3o do Or\u00e7amento tamb\u00e9m explicitou a falta de compromisso dos dois presidentes rec\u00e9m-eleitos da C\u00e2mara e do Senado com as reformas necess\u00e1rias para reestabelecer o equil\u00edbrio da trajet\u00f3ria da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Outro ponto que deixou a todos at\u00f4nitos \u00e9 que o aumento de gastos n\u00e3o foi feito em resposta \u00e0 pandemia&#8221;, diz Kawall.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Muita gente acreditava que o governo fosse usar o novo decreto de calamidade [inclu\u00eddo na PEC Emergencial aprovada em fevereiro] para tentar fazer mais gastos com aux\u00edlios via cr\u00e9ditos extraordin\u00e1rios, como no ano passado&#8221;, afirma o economista.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que deixa a mensagem dessa &#8216;pedalada&#8217; mais amarga \u00e9 ver que n\u00e3o. Eles n\u00e3o fizeram isso para ter mais dinheiro para combater a pandemia, para apoiar os necessitados. Fizeram isso para poder ter mais emenda parlamentar, mais gasto com uma \u00f3tica puramente eleitoral.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 uma postura pol\u00edtica abomin\u00e1vel das lideran\u00e7as pol\u00edticas do Congresso, com o benepl\u00e1cito do Poder Executivo. Num momento t\u00e3o dram\u00e1tico como o que estamos vivendo, de falta de vacina, falta de oxig\u00eanio, falta de recursos para apoiar os mais pobres, o Congresso simplesmente olhar para sua pr\u00f3pria barriga e aprovar uma flagrante ilegalidade com fins meramente eleitorais. Ent\u00e3o tem esse lado chocante tamb\u00e9m do ponto de vista humano&#8221;, conclui o analista.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>31\/03\/2021 &#8220;Pe\u00e7a de fic\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;retorno das pedaladas fiscais&#8221;, &#8220;vergonhoso&#8221;, &#8220;inexequ\u00edvel&#8221;, &#8220;acinte \u00e0 transpar\u00eancia no trato da coisa p\u00fablica&#8221;. Essas foram algumas das express\u00f5es usadas nos \u00faltimos dias por parlamentares, economistas e at\u00e9 mesmo t\u00e9cnicos do governo para classificar o Or\u00e7amento federal para 2021. 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