{"id":680,"date":"2021-05-18T02:08:00","date_gmt":"2021-05-18T02:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=680"},"modified":"2021-05-19T02:23:25","modified_gmt":"2021-05-19T02:23:25","slug":"por-que-e-provavel-que-tenhamos-contaminado-marte-com-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/por-que-e-provavel-que-tenhamos-contaminado-marte-com-vida\/","title":{"rendered":"Por que \u00e9 prov\u00e1vel que tenhamos &#8216;contaminado&#8217; Marte com vida"},"content":{"rendered":"\n<p>18\/05\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O fato de podermos percorrer a superf\u00edcie de Marte \u00e9 extraordin\u00e1rio.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 Perseverance, que \u00e9 do tamanho de um carro, pousou em seguran\u00e7a na superf\u00edcie marciana no dia 18 de fevereiro. S\u00f3 pode avan\u00e7ar a uma velocidade m\u00e1xima de 152 metros por hora, mas carrega em si uma s\u00e9rie de instrumentos com os quais fez experimentos com resultados revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A bordo do rob\u00f4 de tr\u00eas metros de comprimento est\u00e1 uma m\u00e1quina que converteu o ar marciano (fino e cheio de di\u00f3xido de carbono) em oxig\u00eanio, bem como um helic\u00f3ptero que fez o primeiro voo motorizado em outro planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>O helic\u00f3ptero, chamado Ingenuity, fez tr\u00eas voos bem-sucedidos, cobrindo dist\u00e2ncias cada vez maiores.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 poss\u00edvel que algo mais tenha chegado a Marte com todos esses dispositivos? Ser\u00e1 que um rastro de bact\u00e9ria ou esporo vindo da Terra foi acidentalmente transportado para o espa\u00e7o e sobreviveu \u00e0 jornada para fazer do planeta vermelho seu novo lar?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quase imposs\u00edvel<\/strong><strong>&#8216;<\/strong><strong>&nbsp;de evitar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A NASA e seus engenheiros do Jet Propulsion Laboratory (JPL) t\u00eam protocolos precisos e abrangentes para garantir que suas espa\u00e7onaves estejam livres de quaisquer organismos que possam inadvertidamente entrar em uma miss\u00e3o espacial.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, dois estudos recentes exp\u00f5em como alguns organismos podem ter sobrevivido ao processo de limpeza e tamb\u00e9m \u00e0 viagem a Marte, bem como a rapidez com que as esp\u00e9cies microbianas podem evoluir no espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, vamos abordar como o Perseverance foi constru\u00eddo, bem como a maioria das espa\u00e7onaves fabricadas na Spacecraft Assembly Facility (SAF) do JPL.<\/p>\n\n\n\n<p>As naves s\u00e3o constru\u00eddas meticulosamente, camada por camada, como uma cebola, e cada parte \u00e9 limpa e esterilizada antes da montagem. Essa metodologia garante que quase nenhuma bact\u00e9ria, v\u00edrus, fungo ou esporo contamine o equipamento que ser\u00e1 enviado em uma miss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles s\u00e3o constru\u00eddos em salas com filtros de ar e procedimentos de controle biol\u00f3gico rigorosos, projetados de forma a garantir que apenas algumas centenas de part\u00edculas possam estar presentes e, idealmente, n\u00e3o mais do que algumas dezenas de esporos por metro quadrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 quase imposs\u00edvel ter biomassa zero.<\/p>\n\n\n\n<p>Os micr\u00f3bios est\u00e3o na Terra h\u00e1 bilh\u00f5es de anos e est\u00e3o em toda parte. Eles s\u00e3o encontrados em nossos corpos e ao nosso redor. Alguns podem se infiltrar at\u00e9 nos lugares mais est\u00e9reis.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Como-saber\">Como saber?<\/h2>\n\n\n\n<p>No passado, os testes de contamina\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica baseavam-se na capacidade de aumentar a vida (em colheitas) a partir de amostras retiradas de um objeto, como uma nave espacial.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora usamos m\u00e9todos mais novos. Pegamos uma determinada amostra, extra\u00edmos todo o DNA e ent\u00e3o fazemos uma &#8220;abordagem da escopeta&#8221; ou sequenciamento shotgun.<\/p>\n\n\n\n<p>O termo \u00e9 usado porque \u00e9 como colocar as c\u00e9lulas da amostra em uma espingarda, &#8220;disparando&#8221; em bilh\u00f5es de pequenos peda\u00e7os de DNA e, em seguida, sequenciando cada peda\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada sequ\u00eancia &#8220;lida&#8221; pode ser atribu\u00edda a genomas de esp\u00e9cies conhecidas que j\u00e1 est\u00e3o presentes em bancos de dados de sequenciamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Como agora podemos sequenciar todo o DNA que est\u00e1 presente em ambientes est\u00e9reis, e n\u00e3o apenas aqueles que podem ser cultivados, temos uma imagem mais completa de quais tipos de micr\u00f3bios podem ser encontrados l\u00e1 e se eles poderiam sobreviver ao v\u00e1cuo do espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos ambientes est\u00e9reis do JPL, foram encontradas evid\u00eancias de micr\u00f3bios que podem ser problem\u00e1ticos durante as miss\u00f5es espaciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses organismos possuem um maior n\u00famero de genes de reparo de DNA, o que lhes confere maior resist\u00eancia \u00e0 radia\u00e7\u00e3o, s\u00e3o capazes de formar biofilmes (comunidades biol\u00f3gicas com um elevado grau de organiza\u00e7\u00e3o) em superf\u00edcies e equipamentos, sobrevivem \u00e0 desseca\u00e7\u00e3o (perda de umidade) e prosperam em ambientes frios.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que nesses ambientes est\u00e9reis um processo de sele\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria pode estar ocorrendo para os insetos mais resistentes que mais tarde teriam uma chance maior de sobreviver a uma viagem a Marte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A&nbsp;<\/strong><strong>&#8216;<\/strong><strong>polui\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria<\/strong><strong>&#8216;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essas descobertas t\u00eam implica\u00e7\u00f5es para a chamada &#8220;polui\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria&#8221; proveniente da Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante garantir a seguran\u00e7a e preserva\u00e7\u00e3o de qualquer vida que possa existir em outras partes do universo, uma vez que organismos vindos de outros ecossistemas podem causar estragos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os humanos t\u00eam uma hist\u00f3ria negativa disso em nosso pr\u00f3prio planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>A var\u00edola, por exemplo, se espalhou entre os povos ind\u00edgenas na Am\u00e9rica do Norte no s\u00e9culo 19 por meio de cobertores doados. Mesmo agora, n\u00e3o fomos capazes de conter a r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus que causa a covid-19, o SARS-CoV-2.<\/p>\n\n\n\n<p>A contamina\u00e7\u00e3o direta tamb\u00e9m \u00e9 indesej\u00e1vel do ponto de vista cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cientistas, se descobrirem qualquer tipo de vida em outro planeta, devem garantir que seja genuinamente nativo e n\u00e3o um falso registro de algo com uma apar\u00eancia extraterrestre, mas origin\u00e1rio da Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que seus genomas podem mudar tanto que podem parecer ser de outro mundo, como vimos recentemente com os micr\u00f3bios que evolu\u00edram na Esta\u00e7\u00e3o Espacial Internacional.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Por-que-isso-seria-prejudicial\">Por que isso seria prejudicial?<\/h2>\n\n\n\n<p>Embora a Nasa trabalhe duro para evitar a introdu\u00e7\u00e3o de tais esp\u00e9cies no solo marciano, qualquer sinal de vida em Marte teria que ser cuidadosamente examinado para garantir que n\u00e3o se originou aqui na Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fazer isso pode levar a um mal-entendido sobre as caracter\u00edsticas da vida marciana.<\/p>\n\n\n\n<p>Micr\u00f3bios transportados para o espa\u00e7o tamb\u00e9m podem ser uma preocupa\u00e7\u00e3o mais imediata para os astronautas, colocando em risco sua sa\u00fade. Podem at\u00e9 mesmo fazer com que o equipamento de suporte \u00e0 vida funcione mal, caso fique cheio de col\u00f4nias de microrganismos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a prote\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria \u00e9 bidirecional.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos tamb\u00e9m evitar trazer de volta &#8220;poluentes&#8221; de outro planeta que possam nos colocar em perigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta tem sido a base de muitos filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, onde um malvado invasor &#8220;alien\u00edgena&#8221; amea\u00e7a exterminar toda a vida na Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas pode se tornar em parte realidade com a miss\u00e3o que a Nasa e a Ag\u00eancia Espacial Europeia planejam enviar a Marte em 2028 e que, se planejada, em 2032 trar\u00e1 de volta as primeiras amostras do planeta vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, considerando que as duas primeiras sondas sovi\u00e9ticas pousaram na superf\u00edcie marciana em 1971, seguidas pela sonda US Viking 1 em 1976, \u00e9 prov\u00e1vel que j\u00e1 existam alguns fragmentos de DNA microbiano, e talvez humano, no planeta vermelho.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Detectar-sua-origem\">Detectar sua origem<\/h2>\n\n\n\n<p>Mesmo que o Perseverance, ou as miss\u00f5es que o precederam, tenham acidentalmente levado organismos ou DNA da Terra para Marte, temos maneiras de diferenci\u00e1-la de qualquer vida que seja de origem verdadeiramente marciana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocultas na sequ\u00eancia de DNA estar\u00e3o informa\u00e7\u00f5es sobre de onde os organismos vieram.<\/p>\n\n\n\n<p>Um projeto em andamento chamado Metasub est\u00e1 sequenciando o DNA encontrado em mais de 100 cidades ao redor do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadores de nosso laborat\u00f3rio, as equipes do Metasub e um grupo na Su\u00ed\u00e7a acabaram de publicar esses e outros dados metagen\u00f4micos globais para criar um &#8220;\u00edndice gen\u00e9tico planet\u00e1rio&#8221; de todo o DNA sequenciado j\u00e1 observado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao comparar qualquer DNA encontrado em Marte com sequ\u00eancias vistas nos ambientes est\u00e9reis do JPL, o mundo subterr\u00e2neo, amostras cl\u00ednicas, esgoto ou a superf\u00edcie do rob\u00f4 Perseverance antes de deixar a Terra, deve ser poss\u00edvel ver se eles s\u00e3o realmente desconhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que nossa explora\u00e7\u00e3o do sistema solar tenha inadvertidamente transportado micr\u00f3bios para outros planetas, eles provavelmente n\u00e3o s\u00e3o os mesmos de quando deixaram a Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ensaios de viagens espaciais e os ambientes incomuns em que est\u00e3o os fazem evoluir. Se um organismo na Terra se adaptou ao espa\u00e7o, ou Marte, as ferramentas gen\u00e9ticas \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o podem nos ajudar a descobrir como e por que os micr\u00f3bios mudaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, as novas esp\u00e9cies recentemente descobertas na Esta\u00e7\u00e3o Espacial Internacional por cientistas do JPL e de nosso laborat\u00f3rio eram semelhantes \u00e0s encontradas em salas limpas (capazes de suportar altos n\u00edveis de radia\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Um-aspecto-positivo\">Um aspecto positivo<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que a biologia cada vez mais extrema \u00e9 registrada em um programa chamado Extreme Microbiome Project, tamb\u00e9m existe a possibilidade de usar ferramentas evolutivas para trabalhos futuros aqui na Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos usar suas adapta\u00e7\u00f5es para buscar novos filtros solares, por exemplo, ou novas enzimas de reparo de DNA que podem nos proteger contra muta\u00e7\u00f5es prejudiciais que levam ao c\u00e2ncer, ou ajudar no desenvolvimento de novos medicamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Eventualmente, os humanos colocar\u00e3o os p\u00e9s em Marte, levando conosco o coquetel de micr\u00f3bios que vivem em nossa pele e dentro de nossos corpos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que esses micr\u00f3bios tamb\u00e9m se adaptem, sofram muta\u00e7\u00f5es e evoluam.<\/p>\n\n\n\n<p>E tamb\u00e9m podemos aprender com eles, pois genomas \u00fanicos que s\u00e3o adaptados ao ambiente marciano podem ser sequenciados, transmitidos \u00e0 Terra para posterior esquematiza\u00e7\u00e3o e, ent\u00e3o, usados \u200b\u200bpara terapia e pesquisa em ambos os planetas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dadas todas as miss\u00f5es marcianas planejadas, estamos \u00e0 beira de uma nova era de biologia interplanet\u00e1ria, na qual aprenderemos sobre as adapta\u00e7\u00f5es de um organismo em um planeta e as aplicaremos em outro.<\/p>\n\n\n\n<p>As li\u00e7\u00f5es da evolu\u00e7\u00e3o e das adapta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas est\u00e3o inscritas no DNA de cada organismo, e o ambiente marciano n\u00e3o ser\u00e1 diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Marte deixar\u00e1 sua marca nos organismos que veremos quando os sequenciarmos, abrindo um novo cat\u00e1logo de literatura evolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o apenas alimentar\u00e1 nossa curiosidade, mas \u00e9 um dever de nossa esp\u00e9cie proteger e preservar todas as outras esp\u00e9cies.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas os humanos entendem a extin\u00e7\u00e3o e, portanto, apenas os humanos podem evit\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso \u00e9 verdade hoje, mas ser\u00e1 daqui a bilh\u00f5es de anos, quando os oceanos da Terra come\u00e7arem a ferver e o planeta ficar quente demais para a exist\u00eancia de vida nele.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa inevit\u00e1vel viola\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria ocorrer\u00e1 quando come\u00e7armos a nos dirigir a outras estrelas, mas, nesse caso, n\u00e3o teremos outra escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Eventualmente, a polui\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria cuidadosa e respons\u00e1vel \u00e9 a \u00fanica maneira de preservar a vida, e \u00e9 nesta dire\u00e7\u00e3o que temos de caminhar nos pr\u00f3ximos 500 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Christopher Mason \u00e9 Professor de Gen\u00f4mica, Fisiologia e Biof\u00edsica na Weill Cornell Medicine, Cornell University em Nova York. Ele investiga os efeitos moleculares e gen\u00e9ticos de longo prazo dos voos espaciais humanos, al\u00e9m de tocar um projeto sobre novos tipos de c\u00e9lulas para a terapia do c\u00e2ncer.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>18\/05\/2021 O fato de podermos percorrer a superf\u00edcie de Marte \u00e9 extraordin\u00e1rio. O rob\u00f4 Perseverance, que \u00e9 do tamanho de um carro, pousou em seguran\u00e7a na superf\u00edcie marciana no dia 18 de fevereiro. 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