{"id":692,"date":"2021-05-13T02:37:00","date_gmt":"2021-05-13T02:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=692"},"modified":"2021-05-19T02:39:46","modified_gmt":"2021-05-19T02:39:46","slug":"como-mbe-luan-correia-apresenta-ao-brasil-os-sons-de-um-pais-visto-do-morro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/como-mbe-luan-correia-apresenta-ao-brasil-os-sons-de-um-pais-visto-do-morro\/","title":{"rendered":"Como Mb\u00e9, Luan Correia apresenta ao Brasil os sons de um pa\u00eds visto do morro"},"content":{"rendered":"\n<p>13\/05\/2021<\/p>\n\n\n\n<p>Negro, nascido e criado na favela, o produtor marca lugar de originalidade na m\u00fasica experimental carioca com o \u00e1lbum \u2018Rocinha\u2019, feito a partir de colagens que incluem cantos ind\u00edgenas, falas de ativistas como L\u00e9lia Gonzalez e versos de Jean-Paul Sartre<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7a como milh\u00f5es de outras do Brasil: negro, nascido e criado na&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/rocinha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rocinha&nbsp;<\/a>(maior favela do Brasil, com sua popula\u00e7\u00e3o estimada em 120.000 habitantes),&nbsp;<strong>Luan Correia<\/strong>&nbsp;mirava ser&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/futbolistas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">jogador de futebol<\/a>. Por\u00e9m, num desvio das expectativas impostas pelas estat\u00edsticas e pelo racismo, ele se entranhou na reduzid\u00edssima cena de&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/musica-brasilena\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">m\u00fasica experimental carioca<\/a>&nbsp;e acabou se tornando Mb\u00e9, nome com o qual assina o rec\u00e9m-lan\u00e7ado disco&nbsp;<em>Rocinha<\/em>&nbsp;(Selo QTV). Um trabalho que, em pouco mais de 23 minutos (e sete faixas), tra\u00e7a um ensaio hist\u00f3rico-pol\u00edtico-est\u00e9tico sobre o negro brasileiro, a partir de colagens sonoras. Os&nbsp;<em>samples&nbsp;<\/em>(fragmentos de grava\u00e7\u00f5es) que utiliza no \u00e1lbum incluem cantos de ind\u00edgenas do Xingu e de pigmeus da \u00c1frica Central; falas de ativistas do&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-10-25\/lelia-gonzalez-onipresente.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">feminismo negro como L\u00e9lia Gonzalez<\/a>&nbsp;e Maria Beatriz Nascimento; o free jazz do baterista holand\u00eas Han Bennink ; a voz de Clementina de Jesus; acordeons do interior de Pernambuco gravados por M\u00e1rio de Andrade; a arte sonora vanguardista do japon\u00eas Rie Nakajima; os tambores do candombl\u00e9 mineiro. Tudo amarrado numa arquitetura t\u00e3o org\u00e2nica e inventiva quanto a da favela que o batiza.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Rocinha \u00e9 muito densa, tem muita informa\u00e7\u00e3o. O disco tamb\u00e9m \u00e9 assim. Na Rocinha tudo corre muito r\u00e1pido, o disco tamb\u00e9m tem essa coisa de ser curto, r\u00e1pido. Voc\u00ea tem na Rocinha a cultura urbana do Rio mas tamb\u00e9m tem a cultura nordestina, tudo muito misturado. Cresci ouvindo forr\u00f3 eletr\u00f4nico em meio ao&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/pagode\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pagode<\/a>&nbsp;e ao&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/funk\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">funk<\/a>\u201d, explica o artista de 25 anos, notando que o nome do disco surgiu quando ele j\u00e1 estava quase pronto: \u201cVi que tudo que coloquei ali foi pensado a partir da minha viv\u00eancia na Rocinha\u201d (ele morou na favela at\u00e9 os 22 anos).<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho que levou o projeto de jogador a se tornar artista, pesquisador, produtor e engenheiro de som, ainda mais dentro de um nicho musical t\u00e3o branco, foi determinado tanto por sua aptid\u00e3o pessoal como pela geopol\u00edtica morro-asfalto do Rio \u2014que ao mesmo tempo que permite pontos de contato entre diferentes realidades sociais, reafirma a diferen\u00e7a ao evidenciar o car\u00e1ter de exce\u00e7\u00e3o. Numa realidade diversa de seus colegas da Rocinha, Luan teve sua primeira forma\u00e7\u00e3o musical (para al\u00e9m do funk, do pagode e do forr\u00f3) num&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/clases-sociales\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ambiente de classe m\u00e9dia<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMinha m\u00e3e n\u00e3o ouvia r\u00e1dio, tinha poucos CDs em casa. Mas eu ouvia muita m\u00fasica na casa dos meus padrinhos, em S\u00e3o Conrado [a m\u00e3e de Luan os conhecera ao trabalhar como bab\u00e1 de um dos filhos do casal]. Convivi muito com eles, desde que nasci. Passava muitos fins de semana e f\u00e9rias l\u00e1. Meu padrinho me apresentou&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/the-beatles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Beatles<\/a>, Van Halen, Pink Floyd, Queen, Tears for Fears\u2026&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-10-02\/o-rock-morreu-18-discos-recentes-provam-que-nao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rock cl\u00e1ssico<\/a>&nbsp;em geral, incluindo coisas nacionais, como Bar\u00e3o Vermelho\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta dos 15 anos, Luan adquiriu seu primeiro MP3 player e come\u00e7ou a baixar a discografia de bandas como<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/arctic-monkeys\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;Arctic Monkeys<\/a>&nbsp;e Stereophonics. Na mesma \u00e9poca, come\u00e7ou a fazer amizades com m\u00fasicos de bandas do circuito indie carioca. \u201cConheci Tom\u00e9&nbsp;<em>(Lavigne)<\/em>, do Os Azuis, Gabriel Guerra, do Dorgas, Guilherme L\u00edrio, do Ex\u00e9rcito de Beb\u00eas&#8230; Eles estudavam na Escola Parque, com os filhos dos meus padrinhos\u201d, diz o artista, expondo outro desdobramento em sua hist\u00f3ria dessa rela\u00e7\u00e3o da Zona Sul carioca entre morro e asfalto. N\u00e3o que aquele ambiente n\u00e3o fosse dele, porque era \u2014assim como a Rocinha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO filho do meu padrinho \u00e9 um dos meus melhores amigos, e sempre convivi com aquela galera. Mas a hora da volta pra casa \u00e9 sempre uma marca. A galera ia pro condom\u00ednio, e eu ia subir o morro\u201d, lembra. Da mesma forma, quando j\u00e1 pensava em fazer m\u00fasica, tinha dificuldade de se projetar naquele lugar do artista: \u201cTodas as bandas de rock que eu ouvia eram de pessoas brancas. Por mais que eu curtisse, realmente n\u00e3o me via fazendo parte daquilo. Eu sempre estava meio deslocado. Recentemente, me toquei que tinha um sentimento que me confortava l\u00e1 no fundo e batia como uma esperan\u00e7a:\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/jimi-hendrix\/\" target=\"_blank\">Jimi Hendrix<\/a>, o melhor de todos os tempos na guitarra, esse instrumento t\u00e3o simb\u00f3lico do rock, era um cara preto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Palco aberto para uma fervente nova cena carioca ligada sobretudo ao experimental (e recebendo artistas de fora do Rio com o mesmo compromisso com o novo), a&nbsp;<a href=\"https:\/\/audiorebel.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Audio Rebel&nbsp;<\/a>(misto de est\u00fadio e casa de shows) se firmava como refer\u00eancia na cidade. Era natural, portanto, que o caminho de Luan o levasse at\u00e9 l\u00e1. \u201cQuando vi meu primeiro show l\u00e1, aos 17 anos, decidi que queria trabalhar com m\u00fasica. Mandei um e-mail para eles dizendo que gostava de m\u00fasica, n\u00e3o sabia nada tecnicamente, mas gostaria de aprender e trabalhar l\u00e1\u201d. Pedro Azevedo, dono do espa\u00e7o, respondeu que n\u00e3o estavam precisando de funcion\u00e1rios, mas que ele podia ir l\u00e1 conhecer a casa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo dia marcado fui, mas foi na semana que rolou o&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Inc%C3%AAndio_na_boate_Kiss\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">inc\u00eandio na boate Kiss<\/a>&nbsp;[a trag\u00e9dia, em 2013, provocou a mudan\u00e7a de legisla\u00e7\u00e3o e a necessidade de adapta\u00e7\u00e3o das casas noturnas em todo o Brasil]. Ou seja, dei com a cara na porta. Mas voltei alguns dias depois e encontrei Pedro construindo um espa\u00e7o para a t\u00e9cnica, nos fundos. Acabou que meu primeiro trabalho na Rebel foi quebrar uma parede.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ava ali a forma\u00e7\u00e3o que duraria at\u00e9 2020 e desembocaria em Mb\u00e9 (palavra em iorub\u00e1 que significa \u201cser\u201d e \u201cexistir\u201d). Na Audio Rebel, Luan p\u00f4de assistir a shows de artistas dos mais diversos (alguns presentes em&nbsp;<em>Rocinha<\/em>, como Ju\u00e7ara Mar\u00e7al, Orlando Costa e Luizinho do J\u00eaje), aprendeu sobre som e equipamentos, al\u00e9m de estabelecer uma rede de trocas fundamental para o caminho que iria tra\u00e7ar \u2014artistas como Jos\u00e9 Mekler, com quem montou o duo \u00d3 S\u00f3 (de&nbsp;<em>free noise<\/em>, g\u00eanero marcado pela incorpora\u00e7\u00e3o radical do ru\u00eddo), e wellNinja, com quem colabora no coletivo de rap Justa Causa, da Baixada Fluminense.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi l\u00e1 tamb\u00e9m que conheceu Bernardo Oliveira, que assina com ele a produ\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>Rocinha<\/em>. \u201cBernardo me ajudou demais com minha pesquisa sobre o movimento negro brasileiro. Atrav\u00e9s dele, conheci Abdias Nascimento [o ator, dramaturgo e ativista],&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-10-25\/lelia-gonzalez-onipresente.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">L\u00e9lia Gonzalez<\/a>, o MNU [Movimento Negro Unificado], a&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/02\/cultura\/1554208356_198750.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">hist\u00f3ria de Zumbi<\/a>&nbsp;de maneira mais profunda&#8230; Tudo isso se ligava com as pesquisas musicais que eu vinha fazendo\u201d, conta Luan. \u201cNas v\u00e1rias vezes em que tentei formar bandas de rock, eu quase nunca estava inteiro. N\u00e3o era meu lugar. J\u00e1 com essas pesquisas, era tudo muito natural. Eu estava fazendo uma m\u00fasica minha. M\u00fasica preta de favela.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Luan, apesar de tocar bateria, desenvolveu sua linguagem a partir dos\u00a0<em>samples<\/em>. A pesquisa, portanto, \u00e9 parte central de seu processo criativo. Suas primeiras experi\u00eancias foram na tentativa de criar ritmo a partir de trechos de fala.\u00a0<em>Aos meus<\/em>, faixa que abre\u00a0<em>Rocinha<\/em>, \u00e9 fruto desse procedimento. Ali, os cacos de fala \u201coportunidade pra cor escura\u201d e \u201celes n\u00e3o d\u00e3o\u201d se repetem, entremeados por sons que simulam tiros. Um verso de\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/jean-paul-sartre\/\" target=\"_blank\">Jean-Paul Sartre<\/a>, na voz de Ant\u00f4nio Abujamra, atravessa seco: \u201cO que voc\u00eas esperavam que acontecesse quando tiraram a morda\u00e7a que tapava essas bocas negras?.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: El Pa\u00eds <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>13\/05\/2021 Negro, nascido e criado na favela, o produtor marca lugar de originalidade na m\u00fasica experimental carioca com o \u00e1lbum \u2018Rocinha\u2019, feito a partir de colagens que incluem cantos ind\u00edgenas, falas de ativistas como L\u00e9lia Gonzalez e versos de Jean-Paul Sartre A hist\u00f3ria come\u00e7a como milh\u00f5es de outras do Brasil: negro, nascido e criado na&nbsp;Rocinha&nbsp;(maior [&#8230;]\n","protected":false},"author":1,"featured_media":693,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[24,22,23],"tags":[69,52,194],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/692"}],"collection":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=692"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/692\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":694,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/692\/revisions\/694"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/693"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=692"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=692"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=692"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}