{"id":709,"date":"2021-05-25T15:23:00","date_gmt":"2021-05-25T15:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=709"},"modified":"2021-05-26T15:25:25","modified_gmt":"2021-05-26T15:25:25","slug":"agrotoxico-mais-usado-do-brasil-esta-associado-a-503-mortes-infantis-por-ano-revela-estudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/agrotoxico-mais-usado-do-brasil-esta-associado-a-503-mortes-infantis-por-ano-revela-estudo\/","title":{"rendered":"Agrot\u00f3xico mais usado do Brasil est\u00e1 associado a 503 mortes infantis por ano, revela estudo"},"content":{"rendered":"\n<p>25\/05\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O glifosato \u00e9 o agrot\u00f3xico mais popular do Brasil. Ele representa 62% do total de herbicidas usados no pa\u00eds e, em 2016, as vendas desse produto qu\u00edmico em milhares de toneladas foi superior \u00e0 soma dos sete outros pesticidas mais comercializados em territ\u00f3rio nacional.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Associado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de soja transg\u00eanica, o herbicida contribuiu para que o Brasil se tornasse o maior produtor do gr\u00e3o no mundo, superando os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, o PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados produtores cresceu muito acima da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/cvjp2jr0k9rt\">economia<\/a>&nbsp;do pa\u00eds como um todo nas \u00faltimas d\u00e9cadas. E a renda gerada pela atividade agr\u00edcola movimentou outros setores econ\u00f4micos nas regi\u00f5es produtoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas um estudo realizado por pesquisadores das universidades de Princeton, FGV (Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas) e Insper revela que essa gera\u00e7\u00e3o de riqueza tem um alto custo: segundo o levantamento, a dissemina\u00e7\u00e3o do glifosato nas lavouras de soja levou a uma alta de 5% na mortalidade infantil em munic\u00edpios do Sul e Centro-Oeste que recebem \u00e1gua de regi\u00f5es sojicultoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso representa um total de 503 mortes infantis a mais por ano associadas ao uso do glifosato na agricultura de soja.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande quanto aos efeitos dos herbicidas sobre popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o diretamente envolvidas com a agricultura, que n\u00e3o est\u00e3o diretamente expostas aos agrot\u00f3xicos&#8221;, observa Rodrigo Soares, professor titular da C\u00e1tedra Funda\u00e7\u00e3o Lemann do Insper e um dos autores do estudo, ao lado de Mateus Dias (Princeton) e Rudi Rocha (FGV).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Apesar dessas subst\u00e2ncias estarem presentes no corpo de mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o ocidental, n\u00e3o sabemos se isso \u00e9 danoso ou n\u00e3o&#8221;, acrescenta o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nosso artigo \u00e9 um dos primeiros a mostrar de forma cr\u00edvel que isso deve ser de fato uma preocupa\u00e7\u00e3o, ao demonstrar a contamina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos cursos de \u00e1gua em \u00e1reas distantes das \u00e1reas de uso, de uma maneira que nunca havida sido feita anteriormente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A Bayer, dona desde 2018 da Monsanto &#8211; empresa que lan\u00e7ou o glifosato no mercado em 1974, sob o nome comercial Roundup &#8211; avalia os resultados do estudo como &#8220;n\u00e3o confi\u00e1veis e mal conduzidos&#8221; e diz que a seguran\u00e7a de seus produtos \u00e9 a maior prioridade da companhia.<\/p>\n\n\n\n<p>A Aprosoja (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Produtores de Soja), por sua vez, afirma que &#8220;as conclus\u00f5es apontadas no estudo n\u00e3o parecem serem sustentadas com os fatos cient\u00edficos e realidade constatada na pr\u00e1tica da agricultura brasileira&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a CropLife Brasil, uma das entidades que representam o setor de defensivos agr\u00edcolas no pa\u00eds, destacou em nota que &#8220;h\u00e1 mais de 40 anos, o glifosato tem passado por extensos testes de seguran\u00e7a, incluindo 15 estudos para avaliar a toxicidade potencial para o desenvolvimento humano e 10 estudos para avaliar a toxicidade reprodutiva potencial&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As autoridades regulat\u00f3rias no Brasil, na Europa, nos EUA e em todo o mundo revisaram esses estudos e conclu\u00edram que o glifosato n\u00e3o representa risco para o desenvolvimento humano ou reprodu\u00e7\u00e3o humana&#8221;, afirma a organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"O-uso-do-glifosato-no-Brasil-\">O uso do glifosato no Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p>Herbicida mais utilizado no mundo atualmente, o glifosato foi descoberto pela Monsanto em 1970. O defensivo \u00e9 usado para elimina\u00e7\u00e3o de ervas daninhas na agricultura, agindo atrav\u00e9s do bloqueio de uma enzima que faz parte da s\u00edntese de amino\u00e1cidos essenciais para o desenvolvimento das plantas.<\/p>\n\n\n\n<p>O glifosato \u00e9 um herbicida n\u00e3o-seletivo, ou seja, mata a maioria dos vegetais. Por conta disso, seu uso na agricultura se popularizou associado a culturas geneticamente modificadas para resistir ao princ\u00edpio ativo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso da soja transg\u00eanica, comercializada pela Monsanto sob o nome de Roundup Ready, justamente por ser resistente ao glifosato, vendido pela empresa com o nome de Roundup. Desde 2000, no entanto, a patente do glifosato expirou, e atualmente o produto \u00e9 oferecido por diversos fabricantes, sob diferentes nomes comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p>A soja geneticamente modificada foi primeiro comercializada pela Monsanto nos Estados Unidos em 1996.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, uma primeira autoriza\u00e7\u00e3o de uso foi concedida em 1998, mas foi quase imediatamente suspensa pela Justi\u00e7a. Em 2003, o governo concedeu uma autoriza\u00e7\u00e3o de comercializa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria, definindo, por\u00e9m, a incinera\u00e7\u00e3o das sementes remanescentes para evitar sua reutiliza\u00e7\u00e3o no ano seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro daquele ano, uma medida provis\u00f3ria permitiu aos produtores reutilizar as sementes e, em outubro de 2004, a concess\u00e3o tempor\u00e1ria de venda foi renovada. Por fim, em mar\u00e7o de 2005, a Lei de Biosseguran\u00e7a autorizou permanentemente a produ\u00e7\u00e3o e venda das sementes de soja transg\u00eanicas.<\/p>\n\n\n\n<p>O uso da soja geneticamente modificada se propagou rapidamente pelo Brasil a partir de 2004, representando 93% da \u00e1rea plantada do gr\u00e3o em meados da d\u00e9cada de 2010, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em ingl\u00eas), citados pelo estudo dos pesquisadores de Princeton, FGV e Insper.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto ao ganho de produtividade da cultura de soja, o uso de glifosato cresceu fortemente no pa\u00eds, mais do que triplicando em volume entre 2000 e 2010, de 39,5 mil toneladas para 127,6 mil toneladas.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Diferen\u00e7as-entre-o-Brasil-e-outros-pa\u00edses-\">Diferen\u00e7as entre o Brasil e outros pa\u00edses<\/h2>\n\n\n\n<p>Na Uni\u00e3o Europeia, desde 2015, h\u00e1 um amplo debate sobre a possibilidade de proibi\u00e7\u00e3o do uso do glifosato, ap\u00f3s um relat\u00f3rio da Ag\u00eancia Internacional de Pesquisa em C\u00e2ncer (Iarc, na sigla em ingl\u00eas) daquele ano ter classificado a subst\u00e2ncia como &#8220;prov\u00e1vel carcin\u00f3geno humano&#8221;, ou seja, como poss\u00edvel agente causador de c\u00e2ncer.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, a Bayer j\u00e1 desembolsou bilh\u00f5es de d\u00f3lares em acordos para encerrar processos judiciais quanto a acusa\u00e7\u00f5es de que o glifosato provoca c\u00e2ncer.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Na Uni\u00e3o Europeia, ao contr\u00e1rio do Brasil, o registro dos agrot\u00f3xicos sempre tem um tempo determinado. Aqui, quando um agrot\u00f3xico \u00e9 registrado, esse registro \u00e9 eterno, at\u00e9 que ele eventualmente venha a ser questionado&#8221;, explica Alan Tygel, membro da coordena\u00e7\u00e3o nacional da Campanha Permanente Contra os Agrot\u00f3xicos e Pela Vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Europa, atualmente, a autoriza\u00e7\u00e3o do uso do glifosato vale at\u00e9 dezembro de 2022. A \u00c1ustria se tornou o primeiro pa\u00eds da regi\u00e3o a banir o produto, em 2019, enquanto a Alemanha planeja prescindir do herbicida a partir de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra diferen\u00e7a importante, segundo o ativista, diz respeito ao valor m\u00e1ximo permitido de concentra\u00e7\u00e3o do agrot\u00f3xico na \u00e1gua, para que ela seja considerada adequada para consumo humano.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A \u00e1gua brasileira pode ser considerada pot\u00e1vel contendo at\u00e9 500 microgramas de glifosato por litro, enquanto a \u00e1gua da Uni\u00e3o Europeia pode ter no m\u00e1ximo 0,1 micrograma de glifosato&#8221;, destaca Tygel. &#8220;Ent\u00e3o, o limite brasileiro \u00e9 5.000 vezes maior do que o limite da Uni\u00e3o Europeia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o bastassem essas diferen\u00e7as regulat\u00f3rias j\u00e1 existentes, o agroneg\u00f3cio brasileiro tem pressionado nos \u00faltimos anos pela aprova\u00e7\u00e3o no Congresso do Projeto de Lei 6.299\/2002, que flexibiliza as regras para fiscaliza\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o dos agrot\u00f3xicos. O projeto foi apelidado por ambientalistas de &#8220;PL do Veneno&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, houve dentro do governo federal uma mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as contr\u00e1rias e favor\u00e1veis ao uso dos agrot\u00f3xicos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;At\u00e9 2016, havia dentro do governo um certo balan\u00e7o de for\u00e7as entre o agroneg\u00f3cio, a agricultura familiar e as pol\u00edticas p\u00fablicas de incentivo \u00e0 agroecologia&#8221;, avalia o membro da campanha contra os agrot\u00f3xicos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A partir daquele ano, uma das primeiras a\u00e7\u00f5es do governo Michel Temer [MDB] foi acabar com o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio, que desenvolvia essas pol\u00edticas de agricultura org\u00e2nica. Desde ent\u00e3o, observamos um aumento exponencial no n\u00famero de registros de agrot\u00f3xicos&#8221;, diz o ativista.<\/p>\n\n\n\n<p>Somente em 2020, o Brasil aprovou o registro de 493 agrot\u00f3xicos, maior n\u00famero j\u00e1 documentado pelo Minist\u00e9rio da Agricultura, que compila esses dados desde 2000.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Glifosato-e-mortalidade-infantil-\">Glifosato e mortalidade infantil<\/h2>\n\n\n\n<p>Os autores do estudo &#8220;Down the River: Glyphosate Use in Agriculture and Birth Outcomes of Surrounding Populations&#8221; (&#8220;Rio Abaixo: Uso de Glifosato na Agricultura e Desfechos de Nascimento nas Popula\u00e7\u00f5es do Entorno&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre) contam que decidiram estudar a rela\u00e7\u00e3o entre o pesticida e a mortalidade infantil devido ao acalorado debate quanto ao uso de sementes geneticamente modificadas e sua combina\u00e7\u00e3o com herbicidas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ach\u00e1vamos que o debate era muito apaixonado e muito desinformado&#8221;, diz Rodrigo Soares, do Insper. &#8220;Ent\u00e3o nos demos conta de que a expans\u00e3o da soja transg\u00eanica no Brasil, principalmente no Centro-Oeste e no Sul, como foi muito r\u00e1pida e muito marcada depois da introdu\u00e7\u00e3o das sementes modificadas, poderia ser um contexto interessante para an\u00e1lise.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a regulat\u00f3ria que permitiu o uso das sementes de soja transg\u00eanicas no Brasil gerou o que se chama em economia de um &#8220;experimento natural&#8221; &#8211; um evento provocado por causas externas, que muda o ambiente no qual indiv\u00edduos, fam\u00edlias, empresas ou cidades operam, e que possibilita a compara\u00e7\u00e3o entre grupos afetados e n\u00e3o afetados por esse acontecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma preocupa\u00e7\u00e3o que existia \u00e9 que pudesse haver contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, pois estudos toxicol\u00f3gicos nos Estados Unidos, Argentina e Brasil detectavam a presen\u00e7a de glifosato em rios, mas de forma pontual, n\u00e3o sistem\u00e1tica&#8221;, conta Soares.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Para avaliar isso, usamos informa\u00e7\u00f5es sobre as bacias hidrogr\u00e1ficas no pa\u00eds e a posi\u00e7\u00e3o relativa dos munic\u00edpios &#8211; acima ou abaixo de \u00e1reas de uso intensivo de glifosato&#8221;, explica o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Foi uma forma de entender como a expans\u00e3o do uso de soja transg\u00eanica e do glifosato num determinado munic\u00edpio poderia afetar os munic\u00edpios que recebem \u00e1gua que passa por essa regi\u00e3o onde se faz uso do agrot\u00f3xico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O que os pesquisadores fizeram ent\u00e3o foi analisar, para o per\u00edodo entre 2004 e 2010, quando ocorreu a maior expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de soja transg\u00eanica no Brasil e o uso do glifosato triplicou, as estat\u00edsticas de nascimento desses munic\u00edpios &#8220;rio abaixo&#8221; de \u00e1reas de uso intensivo do herbicida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que demonstramos \u00e9 que h\u00e1 uma deteriora\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade ao nascer nesses munic\u00edpios rio abaixo dos munic\u00edpios que expandiram a produ\u00e7\u00e3o de soja&#8221;, diz o professor do Insper.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dessa deteriora\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade ao nascer est\u00e3o: maior probabilidade de baixo peso ao nascer, maior probabilidade de nascimentos prematuros e &#8211; o mais grave &#8211; aumento da mortalidade infantil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Produzimos tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de outras an\u00e1lises emp\u00edricas para mostrar que isso estava de fato associado \u00e0 \u00e1gua e que isso de fato parece estar associado \u00e0 expans\u00e3o da soja.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Isolando-o-efeito-do-glifosato-\">Isolando o efeito do glifosato<\/h2>\n\n\n\n<p>Por exemplo, comparando os dados dos munic\u00edpios &#8220;rio abaixo&#8221;, com munic\u00edpios &#8220;rio acima&#8221; &#8211; que portanto n\u00e3o recebem a \u00e1gua que passou por \u00e1reas de uso do glifosato &#8211; os pesquisadores constatam que os munic\u00edpios &#8220;rio acima&#8221; n\u00e3o s\u00e3o afetados por essa piora das estat\u00edsticas de nascimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pesquisadores tamb\u00e9m demonstram que os efeitos negativos sobre os resultados de sa\u00fade ao nascer s\u00e3o particularmente fortes para gesta\u00e7\u00f5es mais expostas ao per\u00edodo de aplica\u00e7\u00e3o do glifosato, que no Brasil tipicamente ocorre entre outubro e mar\u00e7o, posto que a soja \u00e9 plantada no pa\u00eds entre outubro e janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A piora nos dados de nascimento tamb\u00e9m \u00e9 maior quando chove mais na temporada de aplica\u00e7\u00e3o do glifosato, mostram os pesquisadores ao cruzar as estat\u00edsticas de sa\u00fade com dados pluviom\u00e9tricos, o que est\u00e1 de acordo com a ideia de que uma quantidade maior do produto chega aos rios quando a eros\u00e3o do solo pela chuva \u00e9 mais significativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mateus Dias, doutorando da universidade de Princeton e coautor de Soares no estudo, explica ainda a op\u00e7\u00e3o por analisar munic\u00edpios rio abaixo e rio acima, em vez dos munic\u00edpios que aplicam o glifosato em si.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O glifosato quando utilizado tem um impacto na produtividade da soja, isso pode acabar afetando a mortalidade infantil naquele munic\u00edpio por outros caminhos, por exemplo, a maior produtividade pode gerar uma maior renda e isso diminuir a mortalidade infantil&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pesquisadores tamb\u00e9m avaliaram se a expans\u00e3o da soja afetou a erodibilidade do solo devido ao avan\u00e7o da agricultura sobre \u00e1reas de floresta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mostramos que isso n\u00e3o aconteceu, pois essas \u00e1reas que come\u00e7aram a plantar soja parecem ter sido antes pastagens, ent\u00e3o n\u00e3o houve mudan\u00e7a radical na vegeta\u00e7\u00e3o e, por consequ\u00eancia, n\u00e3o houve mudan\u00e7a significativa na erodibilidade do solo&#8221;, relata Dias.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Setor-agro-contesta-resultados-\">Setor agro contesta resultados<\/h2>\n\n\n\n<p>A BBC News Brasil encaminhou o estudo realizado por Dias, Rocha e Soares para a Bayer, a Aprosoja e a CropLife Brasil para que a fabricante do herbicida, a associa\u00e7\u00e3o do setor sojicultor e a entidade representativa da ind\u00fastria de defensivos agr\u00edcolas comentassem os resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>A Bayer afirmou, atrav\u00e9s de sua assessoria de imprensa, que &#8220;as descobertas equivocadas da publica\u00e7\u00e3o derivam de uma combina\u00e7\u00e3o de suposi\u00e7\u00f5es imprecisas e uma cole\u00e7\u00e3o de resultados de estudos n\u00e3o confi\u00e1veis e mal conduzidos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As conclus\u00f5es dos autores s\u00e3o inconsistentes com o consenso expressivo entre as principais autoridades de sa\u00fade em todo o mundo, incluindo a Anvisa, autoridade sanit\u00e1ria no Brasil, de que o glifosato n\u00e3o causa danos ao desenvolvimento ou \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o humana&#8221;, afirmou a atual dona da Monsanto.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a Aprosoja afirmou em nota que diversos estudos mostram que o glifosato \u00e9 facilmente degradado quando em contato com solos de carga vari\u00e1vel, \u00f3xidos de alum\u00ednio, ferro e da degrada\u00e7\u00e3o microbiana.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ou seja, as refer\u00eancias que estabelecem o nexo de casualidade apontada pelos pesquisadores n\u00e3o foram obtidas no Brasil, pois os solos tropicais brasileiros apresentam elevada carga vari\u00e1vel, possuem elevados teores de alum\u00ednio e ferro e, com as t\u00e9cnicas de plantio como o plantio direto, de microbioliza\u00e7\u00e3o de sementes, entre outras, os solos brasileiros s\u00e3o ricos em uma biomassa ativa, ou seja, uma elevada atividade microbiana&#8221;, argumenta a associa\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n\n\n\n<p>A Aprosoja tamb\u00e9m critica a correla\u00e7\u00e3o feita pelos pesquisadores entre o que chama de &#8220;poss\u00edveis danos&#8221; com a soja resistente ao glifosato.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Novamente, os autores se esqueceram ou apenas n\u00e3o sabem ao certo o que querem responder pois, al\u00e9m da soja, diversas culturas utilizam o glifosato no controle de ervas daninhas&#8221;, argumenta a entidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A CropLife Brasil destaca que os agrot\u00f3xicos utilizados no pa\u00eds passam por aprova\u00e7\u00e3o de tr\u00eas inst\u00e2ncias diferentes &#8211; Anvisa, Ibama e Minist\u00e9rio da Agricultura; que os tr\u00eas \u00f3rg\u00e3os analisam estudos de destino ambiental, toxicol\u00f3gicos e de res\u00edduos que seguem metodologias internacionais de qualidade; e que em cada um desses registros \u00e9 preciso apresentar testes e estudos realizados em laborat\u00f3rios certificados em boas pr\u00e1ticas, que devem ser conduzidos de acordo com os protocolos da OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico).<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Resultados-do-estudo-podem-contribuir-para-melhora-da-regula\u00e7\u00e3o-\">Resultados do estudo podem contribuir para melhora da regula\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo os pesquisadores, o objetivo do estudo n\u00e3o \u00e9 &#8220;demonizar&#8221; o glifosato, mas contribuir para uma melhora das pol\u00edticas p\u00fablicas de regula\u00e7\u00e3o do uso dos agrot\u00f3xicos no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sabemos o que significou, ao longo da hist\u00f3ria humana, o uso de subst\u00e2ncias agr\u00edcolas em geral &#8211; os fertilizantes, os herbicidas, os pesticidas. Eles de fato possibilitaram uma revolu\u00e7\u00e3o em termos de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e, no resultado l\u00edquido, eu acredito que o efeito foi muito positivo&#8221;, afirma Soares, do Insper.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;S\u00f3 temos a produ\u00e7\u00e3o que temos hoje, com seu impacto sobre o pre\u00e7o dos alimentos e sobre as popula\u00e7\u00f5es envolvidas com a agricultura que se beneficiam dos ganhos de produtividade, por causa dessas subst\u00e2ncias&#8221;, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o devamos estar atentos aos potenciais efeitos negativos&#8221;, afirma, defendendo mudan\u00e7as nas regula\u00e7\u00f5es de uso e manejo dos agrot\u00f3xicos e de prote\u00e7\u00e3o dos cursos de \u00e1gua e len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrot\u00f3xicos e Pela Vida &#8211; criada em 2011 e composta por mais de uma centena de movimentos sociais, entidades sindicais e de classe, ONGs, cooperativas, universidades e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa -, tem uma opini\u00e3o mais radical sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Consideramos que o objetivo central \u00e9 de fato acabar com o uso dessas subst\u00e2ncias, especialmente porque hoje n\u00e3o resta d\u00favida quanto \u00e0 capacidade t\u00e9cnica de produ\u00e7\u00e3o de alimentos sem o uso de agrot\u00f3xicos qu\u00edmicos e sint\u00e9ticos&#8221;, argumenta o ativista.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, as propostas da campanha est\u00e3o contidas num projeto de lei (PL 6670\/2016), que institui uma Pol\u00edtica Nacional de Redu\u00e7\u00e3o de Agrot\u00f3xicos, com medidas que incluem desde a proibi\u00e7\u00e3o da pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea, passando pelo apoio estatal \u00e0 agroecologia, at\u00e9 a proibi\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos proibidos em seus pa\u00edses de origem e o fim das isen\u00e7\u00f5es fiscais para agrot\u00f3xicos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vamos lutar por cada pequeno ganho que a gente possa ter, pois sabemos que cada percentual a menos de agrot\u00f3xico que seja usado s\u00e3o vidas que est\u00e3o sendo salvas&#8221;, afirma Tygel.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas sabemos que n\u00e3o existe coexist\u00eancia poss\u00edvel entre produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e o uso massivo de agrot\u00f3xicos. O caminho que vislumbramos \u00e9 de um modelo de produ\u00e7\u00e3o que possa ser adotado nacionalmente totalmente livre de agrot\u00f3xicos e transg\u00eanicos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>25\/05\/2021 O glifosato \u00e9 o agrot\u00f3xico mais popular do Brasil. Ele representa 62% do total de herbicidas usados no pa\u00eds e, em 2016, as vendas desse produto qu\u00edmico em milhares de toneladas foi superior \u00e0 soma dos sete outros pesticidas mais comercializados em territ\u00f3rio nacional. Associado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de soja transg\u00eanica, o herbicida contribuiu para [&#8230;]\n","protected":false},"author":1,"featured_media":710,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[22,23],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/709"}],"collection":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=709"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/709\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":711,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/709\/revisions\/711"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/710"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=709"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=709"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=709"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}