{"id":758,"date":"2021-06-17T23:41:00","date_gmt":"2021-06-17T23:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=758"},"modified":"2021-06-21T23:48:09","modified_gmt":"2021-06-21T23:48:09","slug":"antiga-tecnica-indigena-para-uso-de-agua-ajuda-peru-a-enfrentar-seca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/antiga-tecnica-indigena-para-uso-de-agua-ajuda-peru-a-enfrentar-seca\/","title":{"rendered":"Antiga t\u00e9cnica ind\u00edgena para uso de \u00e1gua ajuda Peru a enfrentar seca"},"content":{"rendered":"\n<p>17\/06\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antes da pandemia de covid-19, no inverno austral, dirigi ao norte de Lima, subindo o altiplano peruano at\u00e9 o vilarejo de Huamantanga.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estava acompanhado de cientistas que estudam o uso de uma t\u00e9cnica de 1,4 mil anos por agricultores locais para ampliar a disponibilidade de \u00e1gua na longa esta\u00e7\u00e3o de seca.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nosso caminho pelo estreito Vale do Rio Chill\u00f3n, uma pequena faixa de planta\u00e7\u00f5es verdes em meio a muralhas de rochas fulvas, cruzamos o rio e come\u00e7amos a subir uma estrada de terra \u00edngreme de pista \u00fanica \u00e0 beira da encosta de uma montanha.<\/p>\n\n\n\n<p>A cerca de 3.500 m, chegamos a um plat\u00f4 com campos de abacates, l\u00fapulo, batata e feij\u00e3o e, finalmente, ao vilarejo, onde constru\u00e7\u00f5es de dois andares de tijolos de barro e concreto ladeavam ruas estreitas de terra. Burros, cavalos, vacas, c\u00e3es e pessoas zanzavam por ali.<\/p>\n\n\n\n<p>A Cordilheira dos Andes \u00e9 um dos seis lugares do mundo em que surgiram civiliza\u00e7\u00f5es complexas, motivadas pela precipita\u00e7\u00e3o sazonal, que provou ser um catalisador para inova\u00e7\u00f5es h\u00eddricas repetidas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas nutriam conhecimentos profundos sobre a \u00e1gua e o subsolo, implementando estrat\u00e9gias que ainda surpreendem \u2014 e alguns ainda usam.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, os peruanos modernos est\u00e3o implantando novamente esse conhecimento antigo e protegendo ecossistemas naturais, como \u00e1reas \u00famidas em alta altitude, para ajudar o pa\u00eds a se adaptar \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um dos primeiros esfor\u00e7os do mundo para integrar a natureza \u00e0 gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos em escala nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O Peru est\u00e1 entre os pa\u00edses com maior inseguran\u00e7a h\u00eddrica do mundo. A capital Lima, onde vive um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, se estende por uma plan\u00edcie des\u00e9rtica plana e tem apenas 13 mm de precipita\u00e7\u00e3o por ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Para sustentar a popula\u00e7\u00e3o, conta com tr\u00eas rios que nascem nos Andes, que se erguem atr\u00e1s da cidade, atingindo 5.000 m em apenas 150 quil\u00f4metros.<\/p>\n\n\n\n<p>Os moradores de Lima n\u00e3o est\u00e3o sozinhos na depend\u00eancia de \u00e1gua das montanhas. Estima-se que 1,5 bilh\u00e3o de pessoas em todo o mundo podem depender da \u00e1gua que flui das montanhas at\u00e9 2050, em compara\u00e7\u00e3o com 200 milh\u00f5es na d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n\n\n\n<p>A escassez de \u00e1gua no Peru est\u00e1 piorando como resultado da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Como muitos testemunharam, as geleiras das montanhas derreteram e a esta\u00e7\u00e3o das chuvas diminuiu para apenas alguns meses.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a companhia de \u00e1gua de Lima, Sedapal, s\u00f3 consegue abastecer os clientes 21 horas por dia \u2014 e Ivan Lucich, presidente da Superintend\u00eancia Nacional de Servi\u00e7os de Saneamento (Sunass), diz esperar um decl\u00ednio ainda maior nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um relat\u00f3rio de 2019 do Banco Mundial que avaliou os riscos de seca no Peru concluiu que as estrat\u00e9gias atuais da capital para administrar a seca \u2014 barragens, reservat\u00f3rios, armazenamento subterr\u00e2neo \u2014 ser\u00e3o insuficientes j\u00e1 em 2030.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios anos atr\u00e1s, desesperados por seguran\u00e7a h\u00eddrica, os l\u00edderes do pa\u00eds fizeram algo radical: aprovaram uma s\u00e9rie de leis nacionais exigindo que as concession\u00e1rias de \u00e1gua investissem um percentual das contas de seus clientes em &#8220;infraestrutura natural&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes fundos \u2014 chamados Mecanismos de Retribui\u00e7\u00e3o por Servi\u00e7os Ecossist\u00eamicos (MRSE) \u2014 s\u00e3o destinados a interven\u00e7\u00f5es h\u00eddricas baseadas na natureza, como restaurar antigos sistemas humanos que trabalham com a natureza, proteger \u00e1reas \u00famidas e florestas em altas altitudes ou introduzir pastoreio rotativo para proteger as pastagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, era considerado uso indevido de dinheiro p\u00fablico se as concession\u00e1rias investissem na bacia hidrogr\u00e1fica. Agora \u00e9 exigido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica provoca altera\u00e7\u00f5es na \u00e1gua em todo o mundo, as estruturas convencionais de controle h\u00eddrico est\u00e3o deixando cada vez mais a desejar.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas interven\u00e7\u00f5es humanas tendem a confinar a \u00e1gua e acelerar o processo, eliminando as etapas naturais quando a \u00e1gua fica estagnada no solo. As solu\u00e7\u00f5es baseadas na natureza, por outro lado, abrem espa\u00e7o e tempo para essas fases lentas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao pesquisar para meu pr\u00f3ximo livro sobre o assunto, passei a pensar nestas solu\u00e7\u00f5es como &#8220;slow water&#8221; (&#8220;\u00e1guas lentas&#8221;).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como no movimento slow food (&#8220;comida lenta&#8221;), as abordagens &#8220;slow water&#8221; s\u00e3o feitas sob medida: trabalham com paisagens, climas e culturas locais, em vez de tentar control\u00e1-los ou mud\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m fornecem v\u00e1rios outros benef\u00edcios, incluindo armazenamento de carbono e habitat para plantas e animais amea\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essas raz\u00f5es, a conserva\u00e7\u00e3o de \u00e1reas \u00famidas, plan\u00edcies aluviais e florestas montanhosas para a gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos \u00e9 um movimento que cresce em todo o mundo, inclusive entre institui\u00e7\u00f5es como a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) e o Banco Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a maioria dos projetos at\u00e9 agora s\u00e3o pequenos e desconectados, ent\u00e3o as pessoas tendem a consider\u00e1-los como recursos secund\u00e1rios interessantes, em vez de uma ferramenta fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 semelhante \u00e0 vis\u00e3o de longa data em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 energia solar e e\u00f3lica que est\u00e1 rapidamente se tornando ultrapassada: s\u00e3o boas, mas acreditava-se que n\u00e3o eram capazes de desempenhar um papel importante no que se refere a atender nossas demandas energ\u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>O programa nacional do Peru, no entanto, tem o potencial de demonstrar qu\u00e3o eficazes as solu\u00e7\u00f5es &#8220;slow water&#8221; podem ser, quando implementadas na escala das bacias hidrogr\u00e1ficas.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, apesar das pol\u00edticas inovadoras do pa\u00eds, coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica tem sido um processo lento, em parte devido \u00e0 alta rotatividade no governo \u2014 incluindo cinco presidentes em cinco anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro grande obst\u00e1culo, e que a maioria dos pa\u00edses enfrenta, \u00e9 superar as pr\u00e1ticas arraigadas no setor h\u00eddrico para tentar algo novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, a Global Affairs Canada e a Ag\u00eancia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional se comprometeram a investir US$ 27,5 milh\u00f5es (R$ 140 milh\u00f5es) em cinco anos para ajudar o Peru a tirar do papel seu programa inovador.<\/p>\n\n\n\n<p>O dinheiro foi para a Forest Trends, uma ONG que trabalha em solu\u00e7\u00f5es naturais para a \u00e1gua no Peru desde 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu diretor executivo, Fernando Moimy, defende h\u00e1 muito tempo a ideia, primeiro no governo como ex-chefe da Sunass, depois por meio da Forest Trends.<\/p>\n\n\n\n<p>A iniciativa da ONG, chamada Infraestrutura Natural para Seguran\u00e7a H\u00eddrica, visa fornecer conhecimento t\u00e9cnico, afirma Gena Gammie, diretora adjunta do projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora a iniciativa est\u00e1 ganhando for\u00e7a. Quarenta das 50 concession\u00e1rias de \u00e1gua do pa\u00eds est\u00e3o coletando fundos MRSE \u2014 e arrecadaram mais de US$ 30 milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A Sunass espera que sejam angariados pelo menos US$ 43 milh\u00f5es at\u00e9 2024. Esse dinheiro est\u00e1 sendo investido em mais de 60 projetos em todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os apoiados pela Sedapal, servi\u00e7o de abastecimento de \u00e1gua de Lima, est\u00e3o projetos que fortalecem uma antiga t\u00e9cnica de armazenamento de \u00e1gua e protegem os raros&nbsp;<em>bofedales<\/em>, \u00e1reas \u00famidas de alta altitude.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Semear-\u00e1gua\">&#8216;Semear&#8217; \u00e1gua<\/h2>\n\n\n\n<p>Foi isso que me levou \u00e0 viagem pelas montanhas peruanas ao norte de Lima, at\u00e9 o vilarejo de Huamantanga, junto a cientistas que est\u00e3o estudando as antigas t\u00e9cnicas de gerenciamento de \u00e1gua da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas que vivem aqui s\u00e3o camponeses: membros de um coletivo agr\u00edcola. Elas usam canais de \u00e1gua chamados&nbsp;<em>amunas<\/em>&nbsp;\u2014 palavra em quechua que significa &#8220;reter&#8221; \u2014 para desviar o fluxo dos c\u00f3rregos das montanhas na esta\u00e7\u00e3o chuvosa e direcion\u00e1-lo para bacias de infiltra\u00e7\u00e3o naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrat\u00e9gia, inventada por um antigo povo chamado Huari, ainda \u00e9 praticada aqui e em alguns outros vilarejos andinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a \u00e1gua se move mais lentamente no subsolo \u00e0 medida que atravessa o cascalho e o solo, ela emerge encosta abaixo dos mananciais meses depois, quando os camponeses a coletam para regar suas planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Como grande parte da irriga\u00e7\u00e3o penetra no solo e acaba voltando aos rios que abastecem Lima, revitalizar as&nbsp;<em>amunas<\/em>&nbsp;abandonadas espalhadas pelas montanhas poderia prolongar a \u00e1gua na esta\u00e7\u00e3o de seca para os moradores das cidades tamb\u00e9m. Da\u00ed o interesse da Sedapal.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pra\u00e7a principal de Huamantanga, em frente a uma igreja cat\u00f3lica, conheci Katya Perez, pesquisadora social da ONG Condesan, que estuda como as pessoas interagem com os sistemas de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela estabeleceu uma rela\u00e7\u00e3o com os camponeses aqui, reunindo seus conhecimentos e tradi\u00e7\u00f5es para manter as&nbsp;<em>amunas<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, eles realizam cerim\u00f4nias de limpeza e b\u00ean\u00e7\u00e3o dos canais, porque sabem que a remo\u00e7\u00e3o anual de lodo permite que continuem funcionando bem.<\/p>\n\n\n\n<p>As&nbsp;<em>amunas<\/em>&nbsp;ficam acima da vila, a cerca de 4.500 m, ent\u00e3o alugamos cavalos dos moradores e cavalgamos pela puna ensolarada, vegeta\u00e7\u00e3o local repleta de pequenos arbustos e p\u00e9s de tremo\u00e7os com flores roxas.<\/p>\n\n\n\n<p>As montanhas se acumulam uma atr\u00e1s da outra em um aparente infinito, e um p\u00e1ssaro gigante \u2014 possivelmente um condor andino \u2014 paira sobre n\u00f3s. Finalmente, avisto uma&nbsp;<em>amuna<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Constru\u00edda com a disposi\u00e7\u00e3o cuidadosa de rochas, tem cerca de 60 cent\u00edmetros de largura e alguns metros de profundidade, serpenteando pelos contornos sinuosos das colinas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 julho, meados da esta\u00e7\u00e3o de seca, e a&nbsp;<em>amuna<\/em>&nbsp;est\u00e1 quase sem \u00e1gua, tendo levado seu tesouro h\u00eddrico para uma depress\u00e3o rochosa em forma de tigela, onde se infiltrou no solo.<\/p>\n\n\n\n<p>A camponesa Lucila Castillo Flores, uma senhora de saia e chap\u00e9u, compara o que acontece aqui a &#8220;semear&#8221; \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se semearmos a \u00e1gua, podemos colher a \u00e1gua&#8221;, diz Flores.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas se n\u00e3o semearmos a \u00e1gua, teremos problemas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco antes do desvio para a&nbsp;<em>amuna<\/em>, os pesquisadores instalaram uma pequena barragem, uma placa de metal colocada verticalmente no c\u00f3rrego com um entalhe em forma de V.<\/p>\n\n\n\n<p>Ferramenta cl\u00e1ssica para monitorar a vaz\u00e3o da \u00e1gua, esta barragem cria um pequeno lago, elevando o n\u00edvel da \u00e1gua para que passe pelo &#8220;V&#8221; mesmo quando est\u00e1 baixo, explicou um dos cientistas, o engenheiro h\u00eddrico Boris Ochoa-Tocachi, diretor-executivo da empresa de consultoria ambiental ATUK, com sede no Equador, e consultor da Forest Trends.<\/p>\n\n\n\n<p>A altura da \u00e1gua \u00e9 medida com um transdutor de press\u00e3o, um instrumento submerso no lago formado pela barragem. Quanto maior o peso no sensor, significa mais \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados coletados aqui serviram de base para um estudo sobre as<em>&nbsp;amunas<\/em>&nbsp;que fez parte da tese de Ochoa-Tocachi na universidade Imperial College, em Londres, publicada na Nature Sustainability em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Montados de volta nos cavalos, descemos parte da montanha e paramos em um manancial abastecido por amunas. Aqui, a \u00e1gua que estava viajando pela rocha e pelo solo brotou em um c\u00f3rrego borbulhante.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Voc\u00ea est\u00e1 vendo, \u00e9 realmente muita \u00e1gua em compara\u00e7\u00e3o com o fluxo que vimos na barragem&#8221;, diz Ochoa-Tocachi, com \u00f3bvia satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das coisas mais marcantes sobre as amunas \u00e9 que os camponeses sabem qual canal abastece qual manancial, o que significa que eles entendem o caminho que a \u00e1gua segue no subsolo.<\/p>\n\n\n\n<p>As entrevistas de Perez com a popula\u00e7\u00e3o local documentaram esse conhecimento, que foi transmitido de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os urbanistas tendem a n\u00e3o levar em considera\u00e7\u00e3o o conhecimento dos povos rurais e ind\u00edgenas, diz Ochoa-Tocachi, mas os pesquisadores foram capazes de confirmar as informa\u00e7\u00f5es deles, classificadas como &#8220;muito precisas&#8221;, ao adicionar rastreadores aos fluxos das&nbsp;<em>amunas&nbsp;<\/em>e, na sequ\u00eancia, usar detectores sens\u00edveis para monitorar o surgimento dessas mol\u00e9culas nos mananciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta descoberta &#8220;nos surpreendeu&#8221;, afirma Ochoa-Tocachi.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso mostra que podemos usar o conhecimento nativo para complementar a ci\u00eancia moderna e fornecer solu\u00e7\u00f5es para os problemas atuais.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele e os coautores do estudo analisaram modelos de como revitalizar as v\u00e1rias&nbsp;<em>amunas&nbsp;<\/em>abandonadas espalhadas pelo altiplano andino poderia aumentar o abastecimento de \u00e1gua para Lima, que j\u00e1 est\u00e1 cerca de 5% abaixo \u2014 um d\u00e9ficit de aproximadamente 43 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Concentrando-se apenas na maior bacia hidrogr\u00e1fica das tr\u00eas que abastecem Lima, eles calcularam um desvio de cerca de 35% dos fluxos de \u00e1gua para as<em>&nbsp;amunas<\/em>&nbsp;na esta\u00e7\u00e3o chuvosa, deixando o resto no rio para nutrir a vida aqu\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles partiram do pressuposto que metade da \u00e1gua desviada tamb\u00e9m iria para o meio ambiente, nas profundezas do subsolo ou liberadas na atmosfera por meio de plantas.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o que restou foram 99 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos \u2014 mais do que o dobro do que Lima precisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles tamb\u00e9m mostraram que a \u00e1gua desviada passa entre duas semanas a oito meses no subsolo, com um atraso m\u00e9dio de 45 dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Diminuir a velocidade dessa \u00e1gua aumentaria o fluxo dos rios no in\u00edcio da esta\u00e7\u00e3o de seca em 33%, adiando a necessidade de Lima recorrer a seus reservat\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Como os engenheiros que tomam decis\u00f5es sobre projetos h\u00eddricos exigem dados concretos como estes para implementar projetos, esta pesquisa \u00e9 fundamental para mudar a forma como gerenciamos a \u00e1gua. Ela traduz a efic\u00e1cia dos projetos &#8220;slow water&#8221; para a l\u00edngua que os engenheiros falam.<\/p>\n\n\n\n<p>Incentivada pelas descobertas, a Sedapal planeja investir US$ 3 milh\u00f5es no fortalecimento de 12&nbsp;<em>amunas<\/em>&nbsp;acima de Huamantanga, construindo mais duas e revitalizando as pastagens vizinhas, conta Oscar Angulo, coordenador de \u00e1gua e saneamento para investimento em infraestrutura natural da Forest Trends.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"\u00c1reas-encharcadas\">\u00c1reas encharcadas<\/h2>\n\n\n\n<p>A Sedapal e outras concession\u00e1rias de \u00e1gua no Peru tamb\u00e9m est\u00e3o investindo em ecossistemas naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Saindo de Lima novamente, desta vez rumo ao nordeste ao longo do Rio Rimac, acompanhei um grupo de especialistas regionais em \u00e1gua a uma turfeira tropical rara de alta altitude chamada&nbsp;<em>bofedal<\/em>, que s\u00e3o \u00e1reas pantanosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Exclusivos dos Andes, os&nbsp;<em>bofedales<\/em>&nbsp;s\u00e3o dominados por plantas bem adaptadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es tropicais de montanha de &#8220;ver\u00e3o todos os dias e inverno todas as noites&#8221;, prosperando sob o sol intenso, ventos fortes, um per\u00edodo breve de semeadura, congelamento di\u00e1rio e neve sazonal.<\/p>\n\n\n\n<p>As plantas de baixo crescimento, firmes, mas esponjosas, s\u00e3o pontilhadas com pequenas flores em forma de estrela e entremeadas com pequenas po\u00e7as de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>As turfeiras, incluindo os<em>&nbsp;bofedales<\/em>, t\u00eam uma porcentagem maior de mat\u00e9ria org\u00e2nica do que outros solos, o que as torna excepcionalmente boas em reter \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora as turfeiras cubram apenas 3% da \u00e1rea terrestre, elas armazenam 10% de toda a \u00e1gua doce (e 30% do carbono no solo) do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na paisagem \u00edngreme da Cordilheira dos Andes, os&nbsp;<em>bofedales<\/em>&nbsp;reduzem o escoamento da \u00e1gua, evitando inunda\u00e7\u00f5es e deslizamentos de terra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que as geleiras que antes armazenavam \u00e1gua derretem, os&nbsp;<em>bofedales<\/em>&nbsp;desempenham um papel ainda mais importante na reten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para abastecimento na esta\u00e7\u00e3o de seca.<\/p>\n\n\n\n<p>Por permanecerem verdes o ano todo, os&nbsp;<em>bofedales<\/em>&nbsp;tamb\u00e9m s\u00e3o focos de biodiversidade, sendo frequentados por p\u00e1ssaros e mam\u00edferos, incluindo veados, pumas, raposas andinas, gatos-dos-pampas, vicunhas e guanacos, ancestrais selvagens das domesticadas alpacas e lhamas.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de horas dirigindo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s nuvens, chegamos a um ponto a cerca de 4.500 m de altitude, onde o vale se ampliou, exibindo um lago sazonal e um&nbsp;<em>bofedal<\/em>. Mas algo estava terrivelmente errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quadrados de solo de 1,5 m de comprimento e 30 cm de profundidade haviam sido retalhados em um padr\u00e3o quadriculado por ca\u00e7adores de turfa para vender aos viveiros de plantas em Lima.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta turfa, depositada ao longo de mil\u00eanios, foi destru\u00edda em poucos minutos. Os fragmentos restantes, rec\u00e9m-expostos, cheiravam a decomposi\u00e7\u00e3o devido \u00e0 oxida\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria org\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos deparamos com a superf\u00edcie irregular do vale, com nossos passos levantando poeira vermelha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas em mar\u00e7o, as autoridades percorreram a longa estrada at\u00e9 o vilarejo local, Carampoma, para a cerim\u00f4nia de lan\u00e7amento do investimento de US$ 850 mil da Sedapal para restaurar a \u00e1rea devastada e proteger os&nbsp;<em>bofedales<\/em>&nbsp;saud\u00e1veis \u200b\u200bque restaram.<\/p>\n\n\n\n<p>O programa vai trabalhar em parceria com a comunidade para afastar a pastagem das \u00e1reas afetadas e introduzir a vigil\u00e2ncia dos<em>&nbsp;bofedales<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O Peru tem leis para proteger as \u00e1reas \u00famidas, mas a aplica\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 um tanto turva.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esclarecer a situa\u00e7\u00e3o, a Forest Trends est\u00e1 se reunindo com autoridades e desenvolvendo um manual para as comunidades, para que a popula\u00e7\u00e3o local saiba o que fazer (como tirar fotos e obter coordenadas de GPS) e quais autoridades notificar, diz Angulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para restaurar as \u00e1reas \u00famidas danificadas, as pessoas v\u00e3o reintroduzir plantas colhidas cuidadosamente de um local pr\u00f3ximo e garantir o fluxo de \u00e1gua para nutri-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cientistas n\u00e3o sabem quanto tempo vai demorar para restaurar a turfa, mas Angulo espera que a natureza possa come\u00e7ar a se recuperar por conta pr\u00f3pria rapidamente com um pouco de ajuda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todos esses projetos, os benef\u00edcios para a comunidade local s\u00e3o vitais, explica Angulo, ent\u00e3o eles est\u00e3o motivados a manter as pr\u00e1ticas de gest\u00e3o da terra e da \u00e1gua que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, beneficiam a bacia hidrogr\u00e1fica como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem isso, &#8220;dois a tr\u00eas anos depois, n\u00e3o ser\u00e1 sustent\u00e1vel&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora cada pa\u00eds tenha quest\u00f5es h\u00eddricas, paisagens e culturas \u00fanicas, outros lugares podem aprender com a experi\u00eancia do Peru.<\/p>\n\n\n\n<p>Os europeus que dependem dos Alpes e os asi\u00e1ticos que contam com os Himalaias para obter \u00e1gua tamb\u00e9m est\u00e3o perdendo suas geleiras para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e v\u00e3o precisar de novas maneiras de captar \u00e1gua das cheias para proteger casas e neg\u00f3cios e armazenar \u00e1gua para uso posterior.<\/p>\n\n\n\n<p>A atividade humana que degrada a capacidade da terra de reter \u00e1gua pode ser revertida, seja o desmatamento nas montanhas do Qu\u00eania ou o sobrepastoreio no oeste dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Expandir as solu\u00e7\u00f5es &#8220;slow water&#8221; pelas bacias hidrogr\u00e1ficas tem uma curva de aprendizado \u00edngreme, mas a seriedade da crise clim\u00e1tica exige uma a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o temos todas as informa\u00e7\u00f5es que adorar\u00edamos ter hoje para tomar as melhores decis\u00f5es poss\u00edveis. Mas podemos tomar boas decis\u00f5es&#8221;, diz Gammie, acrescentando que o monitoramento cient\u00edfico est\u00e1 permitindo que eles &#8220;aprendam e aprimorem \u00e0 medida que avan\u00e7am&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>17\/06\/2021 Antes da pandemia de covid-19, no inverno austral, dirigi ao norte de Lima, subindo o altiplano peruano at\u00e9 o vilarejo de Huamantanga. Estava acompanhado de cientistas que estudam o uso de uma t\u00e9cnica de 1,4 mil anos por agricultores locais para ampliar a disponibilidade de \u00e1gua na longa esta\u00e7\u00e3o de seca. 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