{"id":765,"date":"2021-06-21T23:50:25","date_gmt":"2021-06-21T23:50:25","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=765"},"modified":"2021-06-21T23:50:25","modified_gmt":"2021-06-21T23:50:25","slug":"festa-junina-a-origem-da-celebracao-paga-que-virou-religiosa-e-caipira-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/festa-junina-a-origem-da-celebracao-paga-que-virou-religiosa-e-caipira-no-brasil\/","title":{"rendered":"Festa Junina: a origem da celebra\u00e7\u00e3o pag\u00e3 que virou religiosa e &#8216;caipira&#8217; no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>21\/06\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>capazes de influenciar o imagin\u00e1rio e a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas em pa\u00edses de clima temperado ou frio, onde primavera, ver\u00e3o, outono e inverno s\u00e3o mais demarcados, \u00e9 contagiante a alegria com que o ver\u00e3o \u00e9 celebrado, depois de meses de dias curtos, temperaturas frequentemente negativas e poucas possibilidades de intera\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que desde os tempos mais antigos, as primeiras civiliza\u00e7\u00f5es europeias j\u00e1 tinham festas espec\u00edficas para celebrar tanto a chegada da primavera \u2014 a volta da vida desabrochando \u2014 quanto o solst\u00edcio de ver\u00e3o \u2014 o \u00e1pice do sol, o dia mais longo do ano.<\/p>\n\n\n\n<p>E, segundo pesquisadores, s\u00e3o esses dois tipos de celebra\u00e7\u00e3o, depois abra\u00e7ados pelo catolicismo, que explicam a origem das festas juninas, que no Brasil acabariam sendo reinventadas com um sotaque pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As origens s\u00e3o mesmo as antigas festas pag\u00e3s das antigas civiliza\u00e7\u00f5es, ligadas aos ciclos da natureza, \u00e0s esta\u00e7\u00f5es do ano. Sociedades antigas realizavam grandes festividades, com dura\u00e7\u00f5es longas, at\u00e9 de um m\u00eas, sobretudo nos per\u00edodos de plantio e de colheita&#8221;, contextualiza o pesquisador de culturas populares Alberto Tsuyoshi Ikeda, professor da Universidade de S\u00e3o Paulo e consultor da c\u00e1tedra Kaapora: da Diversidade Cultural e \u00c9tnica na Sociedade Brasileira, da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A primavera era bastante comemorada, como o reingresso da vida mais din\u00e2mica, o rebrotar da natureza e das atividades depois do per\u00edodo do inverno, sempre de muita dificuldade, luta pela sobreviv\u00eancia e recolhimento&#8221;, comenta ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Se nessa \u00e9poca do ano o que se via era a explos\u00e3o da natureza, a vida social espelhava isso. &#8220;Os grupos humanos realizavam grandes festividades dedicadas \u00e0 pr\u00f3pria natureza, muitas vezes rendendo homenagens aos antigos deuses relacionados \u00e0 natureza, \u00e0 vida animal, \u00e0 vida vegetal de um modo geral. Eram festas comunit\u00e1rias com muita alegria, muita alimenta\u00e7\u00e3o e reuni\u00e3o de pessoas em grande n\u00famero: foi o que deu origem \u00e0s festas juninas que a gente conhece no Brasil e em outras partes do mundo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Autora do livro&nbsp;<em>Festas Juninas: Origens, Tradi\u00e7\u00f5es e Hist\u00f3ria<\/em>, a soci\u00f3loga Lucia Helena Vitalli Rangel, professora na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP), explica que a origem das festas juninas est\u00e1 nos &#8220;rituais de fertilidade agr\u00edcola&#8221; de diversos povos \u2014 da Europa, do Oriente M\u00e9dio e do norte da \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os [mitol\u00f3gicos] casais f\u00e9rteis Afrodite e Adonis, Tamuz e Izta, Isis e Os\u00edris eram homenageados nesses rituais, pois representavam a reprodu\u00e7\u00e3o humana, numa \u00e9poca de evoca\u00e7\u00e3o da colheita&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eram rituais para que a colheita fosse farta e para aben\u00e7oar o pr\u00f3ximo per\u00edodo agr\u00edcola. Era per\u00edodo de congra\u00e7amento, de partilha e estabelecimento de alian\u00e7as entre as comunidades. Eram rituais de fartura e abund\u00e2ncia em todos os sentidos, no \u00e2mbito alimentar e na rela\u00e7\u00e3o entre as fam\u00edlias: casamentos, batizados e compadrio.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No hemisf\u00e9rio norte o solst\u00edcio de ver\u00e3o era o auge do per\u00edodo ritual e do trabalho agr\u00edcola coroado pela colheita&#8221;, acrescenta a soci\u00f3loga.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale ressaltar o \u00f3bvio, para que n\u00e3o fique um certo estranhamento ao leitor menos atento: no hemisf\u00e9rio norte, origem de tais celebra\u00e7\u00f5es, as esta\u00e7\u00f5es do ano s\u00e3o invertidas em rela\u00e7\u00e3o ao hemisf\u00e9rio sul, onde est\u00e1 o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Apropria\u00e7\u00e3o-crist\u00e3\">Apropria\u00e7\u00e3o crist\u00e3<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas onde ent\u00e3o entram os santos nessa hist\u00f3ria? Na festa junina contempor\u00e2nea, est\u00e3o presentes algumas das figuras mais populares do catolicismo \u2014 e isso acabou impregnado de tal forma na celebra\u00e7\u00e3o que a religiosidade se misturou ao folclore e \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es populares, transcendendo os ritos normatizados pela Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro dos santos juninos \u00e9 Ant\u00f4nio (? &#8211; 1231), frade franciscano de origem portuguesa que ficou conhecido pelo que fez na It\u00e1lia no in\u00edcio do s\u00e9culo 13. Com fama de milagreiro, foi canonizado pela Igreja onze meses depois de sua morte \u2014 trata-se de um recorde at\u00e9 hoje n\u00e3o superado na hist\u00f3ria do catolicismo.<\/p>\n\n\n\n<p>No imagin\u00e1rio popular, Ant\u00f4nio se tornou o bonach\u00e3o santo das coisas perdidas, sobretudo nos pa\u00edses europeus, e o casamenteiro, principalmente em Portugal e no Brasil. Simpatias, promessas e ora\u00e7\u00f5es espec\u00edficas marcam a devo\u00e7\u00e3o a ele. E sua presen\u00e7a nos festejos juninos geralmente est\u00e1 ligada a essas tradi\u00e7\u00f5es \u2014 a Igreja fixou o 13 de junho, data da morte dele, como dia consagrado ao santo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 24 de junho, o catolicismo celebra o nascimento de Jo\u00e3o Batista (2 a.C &#8211; 28 d.C.). \u00c9 o santo m\u00e1ximo das comemora\u00e7\u00f5es juninas \u2014 h\u00e1 vers\u00f5es que apontam que originalmente eram &#8220;festas joaninas&#8221; e n\u00e3o festas juninas; e, sobretudo no nordeste brasileiro, a Festa de S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 um evento de dimens\u00f5es impressionantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Personagem de historicidade controversa, Jo\u00e3o Batista \u00e9 apontado como primo de Jesus Cristo e aquele que o batizou.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu livro &#8216;O Ramo de Ouro&#8217;, o antrop\u00f3logo escoc\u00eas James Frazer (1854-1941) diz que ocorreu um processo hist\u00f3rico &#8220;de acomoda\u00e7\u00e3o&#8221;, deslocando para a figura de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista a comemora\u00e7\u00e3o do solst\u00edcio de ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o m\u00eas de junho ainda tem a data do mart\u00edrio de S\u00e3o Pedro (? &#8211; 67 d.C) e S\u00e3o Paulo (5 d.C. &#8211; 67 d.C.), dois dos pioneiros do cristianismo. Pedro foi um dos 12 ap\u00f3stolos de Jesus e acabou depois considerado o primeiro papa do catolicismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo de Tarso, por sua vez, \u00e9 reputado como um dos mais influentes te\u00f3logos da hist\u00f3ria. Parte significativa dos textos que comp\u00f5em o Novo Testamento da B\u00edblia \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 sua pena. \u00c9 dele, portanto, a autoria de parcela consider\u00e1vel da ressignifica\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo ap\u00f3s sua morte na cruz \u2014 em outras palavras, \u00e9 poss\u00edvel dizer que Paulo \u00e9 respons\u00e1vel pela transforma\u00e7\u00e3o de Jesus em um mito.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma observa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria: apesar de a Igreja celebrar em conjunto a mem\u00f3ria do mart\u00edrio de Pedro e de Paulo, por tradi\u00e7\u00e3o este \u00faltimo nem sempre \u00e9 associado aos festejos juninos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que o catolicismo foi se transformando em religi\u00e3o do status quo, sobretudo a partir da cristianiza\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano, no ano de 380 d.C., diversos rituais tratados como pag\u00e3os acabaram sendo abra\u00e7ados e apropriados pela Igreja. &#8220;A Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o p\u00f4de desmanchar essas pr\u00e1ticas&#8221;, reconhece Rangel.<\/p>\n\n\n\n<p>Com os rituais de primavera e ver\u00e3o, n\u00e3o foi diferente. &#8220;V\u00e1rias dessas festividades foram adaptadas&#8221;, conclui Ikeda. &#8220;Aos poucos passaram a ser tratadas como festas em honra aos santos juninos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas \u00e9 importante notar que mesmo dentro do ciclo crist\u00e3o, esses santos est\u00e3o ligados tematicamente com aquelas mesmas ideias, os mesmos princ\u00edpios das festividades [dessa \u00e9poca do ano] das antigas civiliza\u00e7\u00f5es&#8221;, pontua o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>Santo Ant\u00f4nio, por exemplo, \u00e9 o casamenteiro \u2014 em uma leitura lato sensu, poderia ser encarado como o santo da fam\u00edlia, da unidade familiar, da reprodu\u00e7\u00e3o humana. &#8220;S\u00e3o Jo\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 ligado, sobretudo nos interiores do Brasil, a essa quest\u00e3o dos relacionamentos afetivos. Tradicionalmente, faz-se muito casamento no Dia de S\u00e3o Jo\u00e3o&#8221;, diz Ikeda.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ele tamb\u00e9m traz a caracter\u00edstica da fartura [que remete aos per\u00edodos de plantio e de colheita, em oposi\u00e7\u00e3o aos rigorosos invernos], dos alimentos, das bebidas, aquilo que chamamos na antropologia de repasto ritual ou repasto cerimonial&#8221;, afirma o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>De modo geral, na leitura proposta por ele, todos os santos juninos est\u00e3o ligados aos ciclos da natureza \u2014 fogo, \u00e1gua, fertilidade, abund\u00e2ncia. Est\u00e1 a\u00ed S\u00e3o Pedro e a ideia de que ele \u00e9 quem controla o tempo. &#8220;Vejo uma rela\u00e7\u00e3o entre eles e os antigos rituais, uma rela\u00e7\u00e3o ainda presente. Embora a gente n\u00e3o perceba mais, eles t\u00eam essa liga\u00e7\u00e3o com os elementos fundamentais da exist\u00eancia humana&#8221;, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas festas populares essas for\u00e7as da natureza se fazem representadas, muito al\u00e9m da mesa farta. Os mastros juninos que s\u00e3o erguidos representam a pot\u00eancia dos troncos, das \u00e1rvores que resistem ao inverno. A fogueira \u00e9 a luz: ilumina, aquece, afugenta animais ferozes, assa os alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na releitura contempor\u00e2nea, portanto, as festas juninas &#8220;guardam as reminisc\u00eancias das ancestrais aglomera\u00e7\u00f5es festivas&#8221;, conforme frisa Ikeda.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Tradi\u00e7\u00e3o-brasileira\">Tradi\u00e7\u00e3o brasileira<\/h2>\n\n\n\n<p>Pa\u00e7oca, pamonha, pipoca, bolo de fub\u00e1, canjica, curau, p\u00e9 de moleque, ma\u00e7\u00e3 do amor. Vinho quente e quent\u00e3o. Brincadeiras de pular fogueira e dan\u00e7ar a quadrilha. Chap\u00e9u de palha, camisa xadrez, cal\u00e7a com remendos. Bombinhas e roj\u00f5es, fogos de artif\u00edcio. Bandeirinhas coloridas penduradas em varais de barbante.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, as festas juninas foram reinventadas e se tornaram uma exalta\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes caipiras. E muito al\u00e9m da religiosidade, tornou-se tradi\u00e7\u00e3o, folclore. Como se o ciclo se fechasse: o que nasceu como ritual greg\u00e1rio, de celebra\u00e7\u00e3o social, e depois foi apropriado por uma religi\u00e3o dominante, acabou na cultura popular sendo devolvido ao sentido original \u2014 ou seja, a festa pela alegria de festejar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, a folclorista Laura Della M\u00f4nica registrou em seu livro &#8216;Os Tr\u00eas Santos do M\u00eas de Junho&#8217; que &#8220;respeitar as festas e ora\u00e7\u00f5es dedicadas a cada um dos tr\u00eas santos do m\u00eas de junho, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o e dever de todos n\u00f3s, pelo menos culturalmente&#8221;. O &#8220;todos n\u00f3s&#8221; \u00e9 o brasileiro. Porque mesmo nascida no Velho Mundo, as festas juninas assumiram uma identidade pr\u00f3pria em territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica colocou novamente a quest\u00e3o [da apropria\u00e7\u00e3o cultural] para os jesu\u00edtas e todos os religiosos que se instalaram no continente sul-americano&#8221;, pontua a soci\u00f3loga Rangel. &#8220;No caso do Brasil, houve uma coincid\u00eancia do calend\u00e1rio. No inverno seco, o solst\u00edcio de inverno marca o per\u00edodo dos trabalhos agr\u00edcolas mais importantes. Do mesmo modo que, para os povos do hemisf\u00e9rio norte \u00e9 o per\u00edodo de rituais de fertilidade, [a festa por aqui tamb\u00e9m vem] com as mesmas caracter\u00edsticas, congrega as fam\u00edlias na evoca\u00e7\u00e3o da abund\u00e2ncia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>As tradi\u00e7\u00f5es regionais guardam suas especificidades, como era de se esperar em um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais. &#8220;Sempre foram festas e rituais populares&#8221;, salienta Rangel. &#8220;No Brasil temos express\u00f5es regionais muito fortes: o S\u00e3o Jo\u00e3o nordestino, o Boi Bumb\u00e1 da regi\u00e3o norte, o Boi de Mam\u00e3o no sul, Cavalhadas no centro-oeste e as festas do Divino Esp\u00edrito Santo e muitas regi\u00f5es, particularmente no estado de S\u00e3o Paulo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora comenta que &#8220;conforme os padres v\u00e3o chegando nas par\u00f3quias, come\u00e7am a interferir nas comemora\u00e7\u00f5es&#8221;. \u00c9 quando vem o sincretismo: a festa popular tamb\u00e9m \u00e9 festa cat\u00f3lica, a quermesse organizada pela igreja tamb\u00e9m tem os rituais populares.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;At\u00e9 hoje as par\u00f3quias, as igrejas, realizam festas juninas. S\u00f3 n\u00e3o est\u00e3o realizando neste per\u00edodo em fun\u00e7\u00e3o da pandemia de covid. Mesmo que as maiores festas estejam predominantemente tendo somente o car\u00e1ter festivo, mais comercial, de explora\u00e7\u00e3o pelo ganho financeiro, as igrejas continuam fazendo comemora\u00e7\u00f5es aos santos juninos&#8221;, pontua Ikeda. &#8220;Embora muitas pessoas n\u00e3o cat\u00f3licas tamb\u00e9m participem das festas, embora predomine uma vis\u00e3o gen\u00e9rica que as festas juninas n\u00e3o guardam mais rela\u00e7\u00e3o com a religiosidade, h\u00e1 ainda um relacionamento das igrejas com esses santos juninos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, a evolu\u00e7\u00e3o da festividade consiste no fato de que &#8220;toda aglomera\u00e7\u00e3o possibilita o incentivo ao com\u00e9rcio&#8221;. &#8220;E a alimenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 neste centro, na busca mesmo do repasto cerimonial e festividades, dan\u00e7as e m\u00fasicas que sempre estiveram ligados aos antigos rituais.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ikeda lembra que a as festas populares t\u00eam uma import\u00e2ncia antropol\u00f3gica por serem &#8220;pr\u00e1ticas greg\u00e1rias que ciclicamente comemoram a pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria exist\u00eancia das comunidades enquanto coletividade, a reuni\u00e3o de grupos humanos que preservam uma hist\u00f3ria comum&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No caso da feste junina, esse vestir-se de caipira, simbolicamente, \u00e9 um instrumento de import\u00e2ncia at\u00e9 emocional e psicol\u00f3gico para as pessoas se sentirem com a identidade ligada ao passado, aos pais e av\u00f3s que praticavam aquilo, comemorando de forma parecida&#8221;, analisa o pesquisador. &#8220;Assim, a pr\u00e1tica possibilita a guarda de uma continuidade ao longo do tempo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Suspens\u00e3o-sanit\u00e1ria\">Suspens\u00e3o sanit\u00e1ria<\/h2>\n\n\n\n<p>Nunca \u00e9 demais enfatizar: com a pandemia de covid-19 ainda fora de controle, seria uma p\u00e9ssima ideia realizar qualquer tipo de festa neste per\u00edodo \u2014 se quer comemorar, fa\u00e7a em casa somente com seu n\u00facleo familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, 2021 ser\u00e1 o segundo ano consecutivo em que o Brasil n\u00e3o ter\u00e1, ao menos de modo ostensivo, a tradi\u00e7\u00e3o das festividades com bandeirinhas coloridas. Doutora em Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias da Sa\u00fade e autora do livro&nbsp;<em>A Gripe Espanhola na Bahia<\/em>, a historiadora Christiane Maria Cruz de Souza afirma que esse cancelamento n\u00e3o ocorreu nem na epidemia de 100 anos atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto porque a gripe chegou ao Brasil bem depois dos festejos de 1918. E, no ano seguinte, a epidemia estava controlada. &#8220;A gripe espanhola n\u00e3o teve nenhuma interfer\u00eancia no S\u00e3o Jo\u00e3o. Os primeiros registros da doen\u00e7a apareceram em setembro de 1918 e a doen\u00e7a foi se extinguindo aos poucos. Em Salvador, ele n\u00e3o avan\u00e7ou para o ano de 1919. Houve alguns surtos, em lugares mais remotos, at\u00e9 1920, mas sem car\u00e1ter epid\u00eamico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 de se supor, inclusive, que as festividades de 1919 tenham sido ainda mais animadas. &#8220;Passada a epidemia de gripe espanhola, tudo o que as pessoas queriam eram esquec\u00ea-la&#8221;, afirma Souza.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 20 de junho de 1919, entretanto, surgiram os primeiros registros indicando uma epidemia de var\u00edola na capital da Bahia. &#8220;Come\u00e7aram a aparecer um caso aqui, outro ali, mas ainda sem a for\u00e7a suficiente para poucos dias depois interditar os festejos de S\u00e3o Jo\u00e3o&#8221;, nota a pesquisadora. &#8220;As autoridades sanit\u00e1rias demoraram muito para reconhecer que ocorria uma epidemia terr\u00edvel de var\u00edola. Autoridades p\u00fablicas s\u00f3 costumam reconhecer a exist\u00eancia de uma epidemia quando se torna inevit\u00e1vel devido ao ac\u00famulo de adoecimentos e mortes, quando o n\u00famero de doentes e mortos ultrapassa a normalidade esperada para os casos da doen\u00e7a. Isso demora um tempo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Rangel ressalta, inclusive, que at\u00e9 a primeira metade do s\u00e9culo 20, as festas juninas eram muito menores, restritas a familiares e pequenos grupos comunit\u00e1rios. Muito menos do que os eventos de hoje em dia. &#8220;Eram festas de arraial, de quintais, de quermesses&#8221;, diz. &#8220;Elas s\u00f3 se transformaram em grandes espet\u00e1culos na segunda metade do s\u00e9culo 20, na esteira da espetaculariza\u00e7\u00e3o do carnaval.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>21\/06\/2021 capazes de influenciar o imagin\u00e1rio e a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o da sociedade. 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