{"id":803,"date":"2021-07-07T00:36:00","date_gmt":"2021-07-07T00:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=803"},"modified":"2021-07-08T00:39:12","modified_gmt":"2021-07-08T00:39:12","slug":"por-que-somos-a-unica-especie-humana-do-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/por-que-somos-a-unica-especie-humana-do-planeta\/","title":{"rendered":"Por que somos a \u00fanica esp\u00e9cie humana do planeta"},"content":{"rendered":"\n<p>07\/07\/2021<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas grandes descobertas feitas nos \u00faltimos dias nos obrigam a repensar as origens da humanidade<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas descobertas nos \u00faltimos dias acabam de mudar o que sab\u00edamos sobre a origem da ra\u00e7a humana e da nossa pr\u00f3pria esp\u00e9cie,\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>. Talvez \u2212 dizem alguns especialistas \u2212 precisemos abandonar esse conceito para nos referir a n\u00f3s mesmos, pois as novas descobertas sugerem que somos uma criatura de Frankenstein com partes de outras esp\u00e9cies humanas com as quais, n\u00e3o muito tempo atr\u00e1s, compartilhamos planeta, sexo e filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>As descobertas da \u00faltima semana indicam que cerca de 200.000 anos atr\u00e1s havia at\u00e9 oito esp\u00e9cies ou grupos humanos diferentes. Todos faziam parte do g\u00eanero\u00a0<em>Homo<\/em>, que nos engloba. Os rec\u00e9m-chegados apresentam uma interessante mistura de tra\u00e7os primitivos \u2212 arcos enormes acima das sobrancelhas, cabe\u00e7a achatada \u2212 e modernos.\u00a0O \u201chomem drag\u00e3o\u201d da China\u00a0tinha uma capacidade craniana t\u00e3o grande quanto a dos humanos atuais, ou at\u00e9 superior. O\u00a0<em>Homo<\/em>\u00a0de Nesher Ramla, encontrado em Israel, pode ter sido o que deu origem aos neandertais e aos denisovanos que ocuparam, respectivamente, a Europa e a \u00c1sia e com quem nossa esp\u00e9cie teve repetidos encontros sexuais, dos quais nasceram filhos mesti\u00e7os que foram aceitos em suas respectivas tribos como mais um.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora sabemos que devido \u00e0queles cruzamentos todas as pessoas de fora da \u00c1frica t\u00eam 3% de\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-04-10\/e-se-nos-formos-os-neandertais.html\" target=\"_blank\">DNA neand<\/a>ertal, ou que os habitantes do Tibete t\u00eam genes transmitidos pelos denisovanos para poder viver em grandes altitudes. Algo muito mais inquietante foi revelado pela an\u00e1lise gen\u00e9tica das popula\u00e7\u00f5es atuais da Nova Guin\u00e9: \u00e9 poss\u00edvel que os denisovanos \u2212 um ramo irm\u00e3o dos neandertais \u2212 tenham vivido at\u00e9 apenas 15.000 anos atr\u00e1s, uma dist\u00e2ncia muito pequena em termos evolutivos.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira grande descoberta dos \u00faltimos dias \u00e9 quase detetivesca. Na an\u00e1lise de DNA conservado no solo da caverna de Denisova, na Sib\u00e9ria, foi encontrado material gen\u00e9tico dos humanos aut\u00f3ctones, os denisovanos, de neandertais e de\u00a0<em>sapiens<\/em>\u00a0em per\u00edodos t\u00e3o pr\u00f3ximos que poderiam at\u00e9 se sobrepor. L\u00e1 foram encontrados h\u00e1 tr\u00eas anos os restos do primeiro h\u00edbrido entre esp\u00e9cies humanas que se conhece:\u00a0uma menina filha de uma neandertal e de um denisovano.<\/p>\n\n\n\n<p>O paleoantrop\u00f3logo Florent Detroit descobriu para a ci\u00eancia outra dessas novas esp\u00e9cies humanas: o\u00a0<em>Homo luzonensis<\/em>, que viveu em uma ilha das Filipinas h\u00e1 67.000 anos e que apresenta uma estranha mistura de tra\u00e7os que poderiam ser o resultado de sua longa evolu\u00e7\u00e3o em isolamento durante mais de um milh\u00e3o de anos. \u00c9 um pouco parecido com o que experimentou seu contempor\u00e2neo\u00a0<em>Homo floresiensis<\/em>, ou \u201chomem de Flores\u201d, um humano de um metro e meio que viveu em uma ilha indon\u00e9sia. Tinha um c\u00e9rebro do tamanho do de um chimpanz\u00e9, mas se for aplicado a ele o teste de intelig\u00eancia mais usado pelos paleoantrop\u00f3logos, podemos dizer que era t\u00e3o avan\u00e7ado quanto o\u00a0<em>sapiens<\/em>, pois suas ferramentas de pedra eram igualmente evolu\u00eddas.<\/p>\n\n\n\n<p>A esses dois habitantes insulares se soma o&nbsp;<em>Homo erectus<\/em>, o primeiro&nbsp;<em>Homo<\/em>&nbsp;viajante que saiu da \u00c1frica h\u00e1 cerca de dois milh\u00f5es de anos. Ele conquistou a \u00c1sia e l\u00e1 viveu at\u00e9 pelo menos 100.000 anos atr\u00e1s. O oitavo passageiro desta hist\u00f3ria seria o&nbsp;<em>Homo daliensis<\/em>, um f\u00f3ssil encontrado na China com uma mistura de&nbsp;<em>erectus<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>sapiens<\/em>, embora seja poss\u00edvel que acabe sendo inclu\u00eddo na nova linhagem do&nbsp;<em>Homo longi<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o me surpreende que houvesse v\u00e1rias esp\u00e9cies humanas vivas ao mesmo tempo\u201d, afirma Detroit. \u201cSe considerarmos o \u00faltimo per\u00edodo geol\u00f3gico que come\u00e7ou h\u00e1 2,5 milh\u00f5es de anos, sempre houve diferentes g\u00eaneros e esp\u00e9cies de homin\u00eddeos compartilhando o planeta. A grande exce\u00e7\u00e3o \u00e9 a atualidade, nunca havia existido apenas uma esp\u00e9cie humana na Terra\u201d, reconhece. Por que n\u00f3s, os&nbsp;<em>sapiens<\/em>, somos os \u00fanicos sobreviventes?<\/p>\n\n\n\n<p>Para Juan Luis Arsuaga, paleoantrop\u00f3logo do s\u00edtio arqueol\u00f3gico de Atapuerca, no norte da Espanha, a resposta \u00e9 que \u201csomos uma esp\u00e9cie hipersocial, os \u00fanicos capazes de construir la\u00e7os al\u00e9m do parentesco, ao contr\u00e1rio dos demais mam\u00edferos\u201d. \u201cCompartilhamos fic\u00e7\u00f5es consensuais como p\u00e1tria, religi\u00e3o, l\u00edngua, times de futebol; e chegamos a sacrificar muitas coisas por elas\u201d, assinala. Nem mesmo a esp\u00e9cie humana mais pr\u00f3xima de n\u00f3s, os neandertais, que criavam adornos, s\u00edmbolos e arte, tinham esse comportamento. Arsuaga resume assim:\u00a0\u201cOs neandertais n\u00e3o tinham bandeira\u201d. Por raz\u00f5es ainda desconhecidas, essa esp\u00e9cie se extinguiu h\u00e1 cerca de 40.000 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os&nbsp;<em>sapiens<\/em>&nbsp;n\u00e3o eram \u201cestritamente superiores\u201d a seus cong\u00eaneres, opina Antonio Rosas, paleoantrop\u00f3logo do Conselho Superior de Pesquisas Cient\u00edficas da Espanha. \u201cAgora sabemos que somos o resultado de hibrida\u00e7\u00f5es com outras esp\u00e9cies, e o conjunto de caracter\u00edsticas que temos foi o perfeito para aquele momento\u201d, explica. Uma poss\u00edvel vantagem adicional \u00e9 que os grupos&nbsp;<em>sapiens<\/em>&nbsp;eram mais numerosos que os neandertais, o que significa menos endogamia e melhor sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Detroit acredita que parte da explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 na pr\u00f3pria ess\u00eancia da nossa esp\u00e9cie&nbsp;<em>sapiens<\/em>, \u201cs\u00e1bio\u201d em latim. \u201cTemos um c\u00e9rebro enorme que devemos alimentar, por isso precisamos de muitos recursos e, portanto, de muito territ\u00f3rio\u201d, assinala. \u201cO&nbsp;<em>Homo sapiens<\/em>&nbsp;teve uma expans\u00e3o demogr\u00e1fica enorme e \u00e9 bem poss\u00edvel que a disputa pelo territ\u00f3rio fosse muito dura para as demais esp\u00e9cies\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mar\u00eda Martin\u00f3n-Torres, diretora do Centro Nacional de Pesquisa sobre Evolu\u00e7\u00e3o Humana, com sede em Burgos, acredita que o segredo seja a \u201chiperadaptabilidade\u201d. \u201cA nossa \u00e9 uma esp\u00e9cie invasiva, n\u00e3o necessariamente mal-intencionada, mas somos como o cavalo de \u00c1tila da evolu\u00e7\u00e3o\u201d, compara. \u201cPor onde passamos, e com nosso estilo de vida, diminui a diversidade biol\u00f3gica, incluindo a humana. Somos uma das for\u00e7as ecol\u00f3gicas de maior impacto do planeta e essa hist\u00f3ria, a nossa, come\u00e7ou a se delinear no Pleistoceno [o per\u00edodo que come\u00e7ou h\u00e1 2,5 milh\u00f5es de anos e terminou h\u00e1 cerca de 10.000, quando o&nbsp;<em>sapiens<\/em>&nbsp;j\u00e1 era a \u00fanica esp\u00e9cie humana que restava no planeta]\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>As descobertas dos \u00faltimos dias voltam a expor um problema crescente: os cientistas est\u00e3o denominando cada vez mais esp\u00e9cies humanas. Tem sentido fazer isso? Para o paleoantrop\u00f3logo israelense Israel Hershkovitz, autor da descoberta do&nbsp;<em>Homo<\/em>&nbsp;de Nesher Ramla, n\u00e3o. \u201cH\u00e1 muitas esp\u00e9cies\u201d, afirma. \u201cA defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica diz que duas esp\u00e9cies diferentes n\u00e3o podem ter filhos f\u00e9rteis. O DNA nos diz que&nbsp;<em>sapiens<\/em>, neandertais e denisovanos tiveram, por isso deveriam ser considerados a mesma esp\u00e9cie\u201d, aponta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe somos&nbsp;<em>sapiens<\/em>, ent\u00e3o essas esp\u00e9cies que s\u00e3o nossos ancestrais por meio da miscigena\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o\u201d, refor\u00e7a Jo\u00e3o Zilh\u00e3o, professor da Institui\u00e7\u00e3o Catal\u00e3 de Pesquisa e Estudos Avan\u00e7ados na Universidade de Barcelona.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa quest\u00e3o \u00e9 objeto de disc\u00f3rdia entre especialistas. \u201cA hibrida\u00e7\u00e3o \u00e9 muito comum em esp\u00e9cies atuais, especialmente no mundo vegetal\u201d, lembra Jos\u00e9 Mar\u00eda Berm\u00fadez de Castro, codiretor das pesquisas em Atapuerca. \u201cPode-se matizar o conceito de esp\u00e9cie, mas acho que n\u00e3o podemos abandon\u00e1-lo, porque \u00e9 muito \u00fatil para podermos nos entender\u201d, ressalta.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas nuances entram em jogo nessa quest\u00e3o. A evidente diferen\u00e7a entre&nbsp;<em>sapiens<\/em>&nbsp;e neandertais n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que a identidade como esp\u00e9cie do&nbsp;<em>Homo luzonensis<\/em>, do qual s\u00f3 conhecemos alguns poucos ossos e dentes, ou dos denisovanos, dos quais a maioria das informa\u00e7\u00f5es vem do DNA extra\u00eddo de f\u00f3sseis min\u00fasculos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCuriosamente, apesar dos cruzamentos frequentes, tanto os\u00a0<em>sapiens<\/em>\u00a0como os neandertais foram esp\u00e9cies perfeitamente reconhec\u00edveis e distingu\u00edveis at\u00e9 o fim\u201d, destaca Martin\u00f3n-Torres. \u201cOs tra\u00e7os do neandertal tardio s\u00e3o mais marcados que os dos anteriores, em vez de terem se apagado como consequ\u00eancia do cruzamento. Houve trocas biol\u00f3gicas, e talvez culturais tamb\u00e9m, mas nenhuma das esp\u00e9cies deixou de ser ela, distintiva, reconhec\u00edvel em sua biologia, seu aspecto, suas adapta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, seu nicho ecol\u00f3gico ao longo de sua hist\u00f3ria evolutiva. Acredito que esse \u00e9 o melhor exemplo de que a hibrida\u00e7\u00e3o n\u00e3o colide necessariamente com o conceito de esp\u00e9cie\u201d, conclui. Seu colega Hershkovitz alerta que o debate continuar\u00e1: \u201cEstamos fazendo escava\u00e7\u00f5es em outras tr\u00eas cavernas em Israel onde encontramos f\u00f3sseis humanos que nos dar\u00e3o uma nova perspectiva sobre a evolu\u00e7\u00e3o humana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: El Pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>07\/07\/2021 Tr\u00eas grandes descobertas feitas nos \u00faltimos dias nos obrigam a repensar as origens da humanidade Tr\u00eas descobertas nos \u00faltimos dias acabam de mudar o que sab\u00edamos sobre a origem da ra\u00e7a humana e da nossa pr\u00f3pria esp\u00e9cie,\u00a0Homo sapiens. 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