{"id":878,"date":"2021-08-23T01:15:00","date_gmt":"2021-08-23T01:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=878"},"modified":"2021-08-31T01:19:35","modified_gmt":"2021-08-31T01:19:35","slug":"fotografo-registra-ha-50-anos-a-natureza-que-o-brasil-esta-destruindo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/fotografo-registra-ha-50-anos-a-natureza-que-o-brasil-esta-destruindo\/","title":{"rendered":"Fot\u00f3grafo registra h\u00e1 50 anos a natureza que o Brasil est\u00e1 destruindo"},"content":{"rendered":"\n<p>23\/08\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;A fotografia tem um papel importante porque ela \u00e9 uma cr\u00f4nica. Quando feita com arte e com informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 a cr\u00f4nica da beleza e do exterm\u00ednio. Eu venho acompanhando o processo de desertifica\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds. \u00c9 impressionante.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2021, o fot\u00f3grafo Araqu\u00e9m Alc\u00e2ntara completou 70 anos, 50 deles dedicados a preservar em imagens a natureza que o Brasil est\u00e1 destruindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o que considera um olhar amadurecido para o exerc\u00edcio de paci\u00eancia e contempla\u00e7\u00e3o que \u00e9 a fotografia de natureza, Araqu\u00e9m volta \u00e0 Amaz\u00f4nia neste fim de agosto para registrar o que \u00e9 esperada para a ser a pior temporada de queimadas dos \u00faltimos anos, em meio \u00e0 forte seca que assola o Brasil e ao enfraquecimento da fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental promovido pela gest\u00e3o Jair Bolsonaro (sem partido).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, planeja para novembro o lan\u00e7amento do livro comemorativo dos seus 50 anos de profiss\u00e3o; para o primeiro semestre de 2022, um livro sobre a Amaz\u00f4nia voltado ao p\u00fablico europeu; e ainda sem data, um terceiro livro, sobre a fauna brasileira para escolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m prepara uma mostra do seu trabalho para influenciar os l\u00edderes mundiais na tomada de decis\u00f5es na COP26, a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas de 2021, prevista para acontecer de 31 de outubro a 12 de novembro em Glasgow, na Esc\u00f3cia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Meu trabalho \u00e9 resist\u00eancia da mem\u00f3ria. Mais de 50% do Cerrado j\u00e1 foi; restam s\u00f3 migalhas, nem 1% das matas de arauc\u00e1rias; e a Amaz\u00f4nia come\u00e7a a entrar no seu ponto de decl\u00ednio, no seu ponto de savaniza\u00e7\u00e3o e daqui a pouco n\u00e3o produz mais chuva&#8221;, diz Araqu\u00e9m \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O [historiador americano] Warren Dean em determinado momento se pergunta: &#8216;N\u00e3o deveria esse holocausto produzido pelo homem ser relatado de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o? N\u00e3o deveria o manual de hist\u00f3ria aprovado pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o come\u00e7ar assim: Crian\u00e7as, voc\u00eas vivem em um deserto, vamos lhes contar agora como foi que voc\u00eas foram deserdadas'&#8221;, afirma o fot\u00f3grafo, citando o autor de&nbsp;<em>A Ferro e Fogo<\/em>, cl\u00e1ssico da hist\u00f3ria ambiental sobre a devasta\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 preciso documentar, \u00e9 preciso mostrar isso, \u00e9 preciso gritar por mudan\u00e7a j\u00e1. Ainda bem que, para isso, eu tenho o texto e a foto.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Comecei-cantando-minha-aldeia-\">&#8216;Comecei cantando minha aldeia&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Nascido em Florian\u00f3polis, em 1951, Araqu\u00e9m estudou em col\u00e9gio interno, num semin\u00e1rio carmelita de Itu, no interior de S\u00e3o Paulo. A princ\u00edpio um amante da escrita, se apaixonou pela imagem numa sess\u00e3o de cinema promovida em Santos pelo agitador cultural franc\u00eas Maurice L\u00e8geard.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu era meio &#8216;hipp\u00e3o&#8217; \u2014 ou totalmente &#8216;hipp\u00e3o&#8217; \u2014, cabelud\u00e3o \u00e0 la Jimi Hendrix. Era um janeiro de 1970, eu tinha 17 anos, nem sabia direito que filme era, e de repente me aconteceu&#8221;, lembra o fot\u00f3grafo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O filme se chamava\u00a0<em>A Ilha Nua<\/em>, de Kaneto Shind\u00f4, e eu vendo aquilo ali fui ficando transido no escuro diante de tanta beleza. Quando acabou o filme, teria uma festa, eu falei \u00e0 namorada que n\u00e3o iria. &#8216;Eu vou para a praia, preciso pensar&#8217;. Na praia do Gonzaga em Santos, tirei o t\u00eanis, fui andando pela beirada da \u00e1gua e me veio um\u00a0<em>insight<\/em>. No dia seguinte, virei fot\u00f3grafo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele conta que come\u00e7ou a fotografar com uma c\u00e2mera emprestada. &#8220;Fui fotografar as putas do cais e os urubus de Santos, tema do meu primeiro ensaio.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi o apocalipse da Cubat\u00e3o dos anos 1980 \u2014 cidade que ficou conhecida como &#8220;Vale da Morte&#8221;, devido \u00e0 elevada concentra\u00e7\u00e3o de poluentes industriais, impossibilitados de se dispersar pelo pared\u00e3o da Serra do Mar \u2014 que despertou Araqu\u00e9m para a quest\u00e3o ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Comecei a cantar minha aldeia. E a minha aldeia, a baixada santista, tinha Cubat\u00e3o, o rico &#8216;Vale da Morte&#8217;. Eu comecei ali a entender o que significava sustentabilidade \u2014 ou insustentabilidade. Crian\u00e7as sem c\u00e9rebro, a destrui\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da gan\u00e2ncia&#8221;, relata, lembrando das mais de 30 crian\u00e7as nascidas mortas devido a anencefalia causada pela exposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3es \u00e0 polui\u00e7\u00e3o excessiva.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ao tomar uma chuva \u00e1cida nas costas, ali eu comecei a ser um precursor da fotografia de natureza e comecei a minha andan\u00e7a, minha Odisseia, que dura at\u00e9 hoje.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, Araqu\u00e9m passou por ve\u00edculos diversos da imprensa nacional (os jornais Cidade de Santos, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, O Globo, Tribuna de Santos, a revista Isto\u00c9), fundou sua pr\u00f3pria editora \u2014 a Terra Brasil, batizada a partir do livro de mesmo nome, lan\u00e7ado em 1998 e que desde ent\u00e3o j\u00e1 vendeu mais de 130 mil c\u00f3pias, num pa\u00eds onde a tiragem m\u00e9dia das obras \u00e9 de 2,5 mil \u2014 publicou 58 livros e ganhou mais de 100 pr\u00eamios em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"A-velhice-e-as-redes-sociais-\">A velhice e as redes sociais<\/h2>\n\n\n\n<p>Araqu\u00e9m vive agora a experi\u00eancia de envelhecer como um fot\u00f3grafo ainda na ativa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Agora, o olhar mais amadurecido j\u00e1 hospeda melhor o sil\u00eancio, a percep\u00e7\u00e3o, eu j\u00e1 simplifico as coisas. A fotografia \u00e9 um grande exerc\u00edcio de paci\u00eancia e de contempla\u00e7\u00e3o, sobretudo a de natureza. O verdadeiro fot\u00f3grafo de natureza perde 99% de suas fotos, mas aquele 1% corrige tudo sob o c\u00e9u&#8221;, afirma, de forma grandiloquente.<\/p>\n\n\n\n<p>Bastante ativo nas redes sociais, o fot\u00f3grafo teve no in\u00edcio de agosto uma de suas imagens apagadas pelo Instagram. A fotografia mostrava uma jovem ind\u00edgena do povo Zo&#8217;\u00e9 dando de mamar ao seu filho, ao lado de uma outra jovem ind\u00edgena com os seios \u00e0 mostra.<\/p>\n\n\n\n<p>A rede social alegou que a imagem ia &#8220;contra as diretrizes da comunidade sobre nudez&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Acho muito importante para o meu trabalho e o de outros fot\u00f3grafos e artistas a divulga\u00e7\u00e3o nas redes sociais. Mas n\u00e3o d\u00e1 para entender a falta de crit\u00e9rio, a burrice dos algoritmos&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Instagram precisa mudar seus filtros e os artistas precisam se movimentar nesse sentido. O meu grito de rep\u00fadio teve esse objetivo&#8221;, completa.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Um-andarilho-na-pandemia-\">Um andarilho na pandemia<\/h2>\n\n\n\n<p>Autodefinido como um &#8220;fot\u00f3grafo andarilho&#8221;, Araqu\u00e9m decidiu abandonar o isolamento imposto pela pandemia quando, em meados de 2020, o Pantanal come\u00e7ou a queimar de forma sem precedentes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando o Pantanal come\u00e7ou a ser incinerado eu pensei: &#8216;Eu n\u00e3o posso ficar aqui&#8217;. E a\u00ed me expus&#8221;, lembra o artista. &#8220;Nessa ida para o Pantanal, no per\u00edodo em que fiquei l\u00e1, eu vi a face do horror. Vi que \u00e9 poss\u00edvel tudo virar cinza e deserto.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse ano, Araqu\u00e9m volta a campo para uma nova temporada na Amaz\u00f4nia, que deve se estender do fim de agosto a outubro, auge do per\u00edodo de queimadas na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estou indo para a Amaz\u00f4nia novamente porque as perspectivas s\u00e3o catastr\u00f3ficas&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A seca est\u00e1 muito severa e o enfraquecimento todo da fiscaliza\u00e7\u00e3o sugerem mais um ano de recordes&#8221;, alerta, lembrando que o maior n\u00famero de focos de queimadas dos \u00faltimos 14 anos foi registrado em junho, m\u00eas que ainda n\u00e3o \u00e9 de temporada de fogo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 fundamental uma morat\u00f3ria. \u00c9 fundamental parar o desmatamento j\u00e1 e a fotografia tem um papel importante nisso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>As fotografias da viagem de agora devem ser aproveitadas no livro sobre a Amaz\u00f4nia voltado para o mercado europeu, que dever\u00e1 ser dividido em tr\u00eas partes: A Terra, O Homem e O Desequil\u00edbrio \u2014 uma refer\u00eancia aos&nbsp;<em>Sert\u00f5es<\/em>&nbsp;de Euclides da Cunha, cuja obra seminal sobre o conflito de Canudos \u00e9 dividida entre A Terra, O Homem e A Luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro fot\u00f3grafo a documentar todos os parques nacionais do Brasil, Araqu\u00e9m avalia que a mudan\u00e7a da pol\u00edtica ambiental nacional no per\u00edodo recente \u00e9 &#8220;criminosa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 uma coisa catastr\u00f3fica, um crime de lesa humanidade&#8221;, afirma. &#8220;A quest\u00e3o fundi\u00e1ria na Amaz\u00f4nia precisa ser resolvida e \u00e9 preciso manter a floresta em p\u00e9 imediatamente. Os governos ignoram a gan\u00e2ncia das quadrilhas de grileiros, em nome de um falso progresso que s\u00f3 enriquece uma minoria.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu sou uma testemunha ocular dessa barb\u00e1rie, porque fotografo a natureza desse pa\u00eds h\u00e1 meio s\u00e9culo. E me parece que o [antrop\u00f3logo, historiador, soci\u00f3logo e escritor] Darcy Ribeiro tinha raz\u00e3o quando ele disse h\u00e1 vinte anos atr\u00e1s: &#8216;S\u00f3 o engajamento total da opini\u00e3o p\u00fablica mundial pode salvar a Amaz\u00f4nia&#8217;. Ent\u00e3o meu grito \u00e9 um grito por atitude, minha fotografia est\u00e1 a servi\u00e7o da vida.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>23\/08\/2021 &#8220;A fotografia tem um papel importante porque ela \u00e9 uma cr\u00f4nica. Quando feita com arte e com informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 a cr\u00f4nica da beleza e do exterm\u00ednio. 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