{"id":891,"date":"2021-08-19T02:20:00","date_gmt":"2021-08-19T02:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=891"},"modified":"2021-08-31T02:23:13","modified_gmt":"2021-08-31T02:23:13","slug":"cientistas-estudam-estimulos-eletricos-para-tratar-covid-grave","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/cientistas-estudam-estimulos-eletricos-para-tratar-covid-grave\/","title":{"rendered":"Cientistas estudam est\u00edmulos el\u00e9tricos para tratar covid grave"},"content":{"rendered":"\n<p>19\/08\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Imagine a cena: um pequeno eletrodo \u00e9 grudado no seu corpo e emite, durante 90 minutos, est\u00edmulos el\u00e9tricos indolores e quase impercept\u00edveis, numa rotina que se repete duas vezes ao dia ao longo de uma semana.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00e1tica, relativamente comum em sess\u00f5es convencionais de fisioterapia, come\u00e7a a ser avaliada tamb\u00e9m num cen\u00e1rio bem mais complexo: a covid-19 grave.<\/p>\n\n\n\n<p>Cientistas brasileiros da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e da Universidade Nove de Julho (Uninove), em S\u00e3o Paulo, decidiram iniciar um estudo piloto para entender se a estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica n\u00e3o invasiva do nervo vago, uma estrutura do sistema nervoso, pode trazer benef\u00edcios aos pacientes com os quadros mais severos da infec\u00e7\u00e3o pelo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sabemos que o sistema nervoso central tem um papel importante no controle da inflama\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um dos fatores por tr\u00e1s dos casos mais graves da covid-19. Queremos ent\u00e3o buscar uma resposta anti-inflamat\u00f3ria&#8221;, diz o neurocientista Felipe Fregni, professor de reabilita\u00e7\u00e3o da Faculdade de Medicina de Harvard.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E a estimula\u00e7\u00e3o do nervo vago tem sido estudada como um poss\u00edvel tratamento seguro e com poucos efeitos colaterais para v\u00e1rias enfermidades&#8221;, completa a fisioterapeuta especializada em neurologia Fernanda Ishida Corr\u00eaa, professora da Uninove.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Fora que o equipamento \u00e9 relativamente barato e f\u00e1cil de transportar pelo hospital&#8221;, completa a especialista.<\/p>\n\n\n\n<p>O experimento, que est\u00e1 em vias de ser finalizado, incluir\u00e1 20 volunt\u00e1rios no total e, caso os resultados sejam promissores, pretende servir de base para estudos maiores.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que focar no nervo vago? E o que a covid-19 tem a ver com a inflama\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Uma-cascata-de-eventos\">Uma cascata de eventos<\/h2>\n\n\n\n<p>Como voc\u00ea muito provavelmente j\u00e1 sabe, a covid-19 \u00e9 uma doen\u00e7a provocada pelo Sars-CoV-2, um tipo de coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema come\u00e7a quando o agente infeccioso invade as c\u00e9lulas da superf\u00edcie dos olhos, do nariz ou da boca.<\/p>\n\n\n\n<p>Na maioria das vezes, o quadro evolui bem e o indiv\u00edduo apresenta poucos sintomas e logo se recupera.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, numa parcela de 10 a 20% de acometidos, as coisas n\u00e3o se solucionam t\u00e3o tranquilamente assim. Neles, o v\u00edrus avan\u00e7a corpo adentro e afeta v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os, especialmente os pulm\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se n\u00e3o bastasse a covid-19 em si, esses pacientes ainda sofrem com uma s\u00e9rie de desdobramentos: a infec\u00e7\u00e3o pode desencadear uma rea\u00e7\u00e3o desmedida do sistema imunol\u00f3gico que, na tentativa de defender o corpo, acaba provocando alguns dados colaterais pelo caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado dessa bagun\u00e7a \u00e9 um estado de intensa inflama\u00e7\u00e3o, que lesa os \u00f3rg\u00e3os e piora de vez a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso, inclusive, que alguns rem\u00e9dios anti-inflamat\u00f3rios s\u00e3o prescritos para os indiv\u00edduos internados com covid-19 grave. Esses medicamentos ajudam a modular a resposta das c\u00e9lulas de defesa, diminuindo poss\u00edveis estragos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas e se existissem outras maneiras de controlar esse caos inflamat\u00f3rio sem precisar necessariamente dos f\u00e1rmacos (ou diminuir o uso deles)?<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Choques-na-orelha\">Choques na orelha<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 justamente aqui que entra o nervo vago, um ramo do sistema nervoso que sai do c\u00e9rebro e percorre o pesco\u00e7o, o t\u00f3rax e chega at\u00e9 o final do abd\u00f4men \u2014 o nome vem do latim&nbsp;<em>vagus&nbsp;<\/em>e faz men\u00e7\u00e3o ao fato de ele vagar por regi\u00f5es t\u00e3o importantes do nosso corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esse nervo faz a conex\u00e3o com diversos \u00f3rg\u00e3os e v\u00edsceras e \u00e9 respons\u00e1vel por levar informa\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro para essas estruturas e vice-versa, ou seja, trazer informa\u00e7\u00f5es do corpo para a cabe\u00e7a&#8221;, ensina Fregni, que fez uma palestra sobre o assunto na segunda-feira (16\/8) na Digital Journey by Hospitalar, um evento online que reuniu especialistas do setor de sa\u00fade do Brasil e da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma das estruturas em que o nervo vago se conecta \u00e9 o ba\u00e7o, um \u00f3rg\u00e3o que tem papel importante no sistema imunol\u00f3gico e ajuda a regular a libera\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias inflamat\u00f3rias&#8221;, exemplifica o neurocientista.<\/p>\n\n\n\n<p>O especialista tamb\u00e9m lembra que o sistema nervoso tem influ\u00eancia direta na imunidade, ao influenciar na produ\u00e7\u00e3o de horm\u00f4nios e outras subst\u00e2ncias que afetam o comportamento e a a\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas de defesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que estimular essa ramifica\u00e7\u00e3o nervosa poderia, ent\u00e3o, contribuir de alguma maneira para controlar a inflama\u00e7\u00e3o que agrava ainda mais a covid-19? Essa \u00e9 justamente a aposta dos pesquisadores brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 uma barreira importante no meio do caminho: em boa parte de sua extens\u00e3o, o nervo vago \u00e9 bem profundo e dif\u00edcil de atingir com ondas el\u00e9tricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas existe uma regi\u00e3o do corpo chamada tragus, que fica pr\u00f3xima da entrada da orelha, em que ele se torna superficial e de f\u00e1cil acesso.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E n\u00f3s j\u00e1 temos estudos apontando que a estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica do tragus pode trazer excelentes resultados para outras doen\u00e7as&#8221;, aponta Corr\u00eaa.<\/p>\n\n\n\n<p>A manipula\u00e7\u00e3o do nervo vago \u00e9 avaliada como uma futura possibilidade de tratamento, por exemplo, para depress\u00e3o, epilepsia, dor cr\u00f4nica e enxaqueca.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"A-pesquisa-na-pr\u00e1tica\">A pesquisa na pr\u00e1tica<\/h2>\n\n\n\n<p>Corr\u00eaa conta que a Uninove inaugurou, em abril de 2021, um hospital para tratamento exclusivo da covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vimos ali uma oportunidade de avaliar a estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica do nervo vago em pacientes graves que seriam internados na unidade&#8221;, contextualiza.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o dos comit\u00eas de \u00e9tica, a pesquisa foi iniciada e j\u00e1 recrutou 18 volunt\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles recebem a estimula\u00e7\u00e3o duas vezes ao dia, durante uma semana. Em paralelo \u00e0 terapia, s\u00e3o feitos exames de sangue, em que medimos a presen\u00e7a de subst\u00e2ncias inflamat\u00f3rias, como a interleucina 6, a interleucina 10 e a prote\u00edna C-reativa&#8221;, descreve a especialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os indiv\u00edduos respondem question\u00e1rios e t\u00eam os batimentos card\u00edacos e a frequ\u00eancia respirat\u00f3ria monitorados. Eles tamb\u00e9m passam por novas consultas e avalia\u00e7\u00f5es em sete e 14 dias ap\u00f3s terminarem as sess\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A fisioterapeuta garante que as ondas el\u00e9tricas s\u00e3o leves e n\u00e3o queimam ou causam dor. O participante sente, no m\u00e1ximo, uma sensa\u00e7\u00e3o de formigamento no local onde o eletrodo \u00e9 instalado.<\/p>\n\n\n\n<p>Detalhe importante: apenas metade dos pacientes recrutados recebe a estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica de verdade. Na outra parcela, o protocolo \u00e9 exatamente igual (inclusive com a coloca\u00e7\u00e3o do eletrodo no tragus), mas n\u00e3o h\u00e1 emiss\u00e3o de uma corrente el\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso \u00e9 necess\u00e1rio para realizarmos a compara\u00e7\u00e3o entre os grupos e obtermos os resultados&#8221;, diz Corr\u00eaa.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale ressaltar ainda que todos os volunt\u00e1rios recebem o tratamento padr\u00e3o para os casos graves de covid-19, inclusive com a suplementa\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio e o uso de rem\u00e9dios anti-inflamat\u00f3rios quando necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Os-pr\u00f3ximos-passos\">Os pr\u00f3ximos passos<\/h2>\n\n\n\n<p>Corr\u00eaa diz que falta incluir apenas dois volunt\u00e1rios para concluir o estudo piloto, mas a equipe enfrenta dificuldades para encontrar novos participantes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ultimamente, os pacientes est\u00e3o chegando ao hospital com quadros muito leves, em que ficam tr\u00eas dias e recebem alta, ou muito graves, em que j\u00e1 v\u00e3o direto para intuba\u00e7\u00e3o&#8221;, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>Para integrar o estudo, a pessoa precisa estar num est\u00e1gio intermedi\u00e1rio entre esses dois extremos: ela necessita estar internada, ter menos de 10 dias de sintomas e usar no m\u00e1ximo oxigena\u00e7\u00e3o suplementar, mas sem intuba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A expectativa dos especialistas \u00e9 finalizar a parte pr\u00e1tica do experimento nas pr\u00f3ximas semanas, para reunir os resultados e escrever os relat\u00f3rios durante o m\u00eas de setembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Se os resultados forem bons, o pr\u00f3ximo passo para avaliar a estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica do nervo vago em pacientes com covid-19 grave envolve uma pesquisa bem maior, possivelmente com centenas (ou at\u00e9 milhares) de participantes.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o custa refor\u00e7ar, portanto, que atualmente essa terapia \u00e9 experimental e n\u00e3o tem efic\u00e1cia ou seguran\u00e7a comprovadas.<\/p>\n\n\n\n<p>E, mesmo que todo o trabalho n\u00e3o seja finalizado a tempo de contribuir para a atual pandemia, ele pode deixar frutos para lidar com outros problemas de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A ci\u00eancia se move devagar e exige tempo e investimento para trazer resultados. As pesquisas maiores costumam demorar dois anos ou mais para serem finalizadas&#8221;, estima Fregni.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se conseguirmos entender um pouco melhor o papel do nervo vago no controle da inflama\u00e7\u00e3o, j\u00e1 teremos contribu\u00eddo&#8221;, finaliza.<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>19\/08\/2021 Imagine a cena: um pequeno eletrodo \u00e9 grudado no seu corpo e emite, durante 90 minutos, est\u00edmulos el\u00e9tricos indolores e quase impercept\u00edveis, numa rotina que se repete duas vezes ao dia ao longo de uma semana. 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