{"id":913,"date":"2021-08-02T11:40:00","date_gmt":"2021-08-02T11:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=913"},"modified":"2021-08-31T11:46:41","modified_gmt":"2021-08-31T11:46:41","slug":"o-choque-do-estudante-de-medicina-que-encontrou-o-corpo-do-amigo-na-aula-de-anatomia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/o-choque-do-estudante-de-medicina-que-encontrou-o-corpo-do-amigo-na-aula-de-anatomia\/","title":{"rendered":"O choque do estudante de Medicina que encontrou o corpo do amigo na aula de anatomia"},"content":{"rendered":"\n<p>02\/08\/2<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O estudante de medicina Enya Egbe, de 26 anos. saiu da aula de anatomia chorando depois de ficar perturbado pelo cad\u00e1ver que teve de analisar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi a rea\u00e7\u00e3o de um jovem inexperiente. Ele se lembra vividamente daquela tarde, sete anos atr\u00e1s, na Universidade de Calabar, na Nig\u00e9ria, quando estava com outros alunos em torno de tr\u00eas mesas com um corpo em cada uma delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Minutos depois de se aproximar, ele gritou e correu. O cad\u00e1ver que ele estava prestes a dissecar era de Divine, seu amigo. &#8220;Costum\u00e1vamos ir a clubes juntos&#8221;, ele me contou. &#8220;Tinha dois buracos de bala no lado direito do peito dele.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Oyifo Ana foi um dos muitos alunos que correram atr\u00e1s de Egbe e o encontraram chorando do lado de fora. &#8220;A maioria dos cad\u00e1veres que usamos na escola tinham marcas de balas. Eu me senti muito mal quando percebi que algumas daquelas pessoas poderiam n\u00e3o ser criminosos de verdade&#8221;, disse Ana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela lembrou que, numa manh\u00e3, viu uma van da pol\u00edcia carregada com corpos ensanguentados chegando \u00e0 escola de Medicina, que tinha um necrot\u00e9rio anexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Egbe enviou uma mensagem para a fam\u00edlia de Divine que, ao que parece, tinha ido a diferentes delegacias depois que ele e tr\u00eas amigos foram presos por agentes de seguran\u00e7a no caminho de volta de uma noitada. A fam\u00edlia finalmente conseguiu recuperar o corpo dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Em depoimento por escrito apresentado ao painel judicial no Estado de Enugu, o comerciante Cheta Nnamani, de 36 anos, disse que ajudou agentes de seguran\u00e7a a se livrarem dos corpos de pessoas que eles torturaram ou executaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele disse que, certa noite, ele foi convidado a carregar tr\u00eas cad\u00e1veres em uma van \u2014 tarefa conhecida na linguagem da cadeia como &#8220;servi\u00e7o de ambul\u00e2ncia&#8221;. A pol\u00edcia, ent\u00e3o, o algemou dentro do ve\u00edculo e dirigiu at\u00e9 o Hospital Universit\u00e1rio da Universidade da Nig\u00e9ria (UNTH), onde Nnamani descarregou os corpos. Eles foram levados por um atendente do necrot\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nnamani me disse que mais tarde foi amea\u00e7ado a ter o mesmo destino.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cidade de Owerri, no sudeste do pa\u00eds, o necrot\u00e9rio do hospital particular Aladinma diz que parou de aceitar corpos de supostos criminosos, porque a pol\u00edcia raramente fornecia identifica\u00e7\u00e3o ou notificava parentes do falecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso costumava deixar o necrot\u00e9rio cheio, com os custos de manuten\u00e7\u00e3o dos corpos n\u00e3o procurados at\u00e9 que, a cada alguns anos, o governo concedia uma permiss\u00e3o para enterros em massa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c0s vezes, a pol\u00edcia tenta nos for\u00e7ar a aceitar os corpos, mas insistimos para que os levassem a um hospital do governo&#8221;, disse Ugonna Amamasi, administrador do necrot\u00e9rio. &#8220;Necrot\u00e9rios privados n\u00e3o est\u00e3o autorizados a doar corpos para escolas de medicina, mas os do governo podem&#8221;, acrescentou.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Parentes-deixados-no-escuro\">Parentes deixados no escuro<\/h2>\n\n\n\n<p>Um advogado experiente, Fred Onuobia diz que parentes tinham o direito de recolher os corpos de criminosos executados legalmente. &#8220;Se ningu\u00e9m aparece depois de um certo tempo, os corpos s\u00e3o enviados para hospitais universit\u00e1rios&#8221;, disse o advogado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 pior com as execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais, j\u00e1 que os parentes nunca ficam sabendo das mortes ou n\u00e3o conseguem localizar os corpos, disse ele. Afinal, foi apenas por acaso que a fam\u00edlia do amigo de Egbe conseguiu fazer um enterro adequado.<\/p>\n\n\n\n<p>A associa\u00e7\u00e3o de anatomistas da Nig\u00e9ria est\u00e1 agora fazendo um lobby por uma mudan\u00e7a na lei que garanta que os necrot\u00e9rios obtenham registros hist\u00f3ricos completos dos corpos doados \u00e0s escolas, al\u00e9m do consentimento da fam\u00edlia. Tamb\u00e9m estabelecer\u00e1 incentivos as pessoas a doarem seus corpos para a Medicina.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a Egbe, ele ficou t\u00e3o traumatizado ao ver o corpo do amigo que abandonou os estudos por semanas, imaginando Divine em p\u00e9 ao lado da porta, sempre que tentava entrar na sala de anatomia. Ele se formou um ano depois de seus colegas de classe e agora trabalha em um laborat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia de Divine conseguiu fazer com que alguns dos oficiais envolvidos no assassinato fossem demitidos \u2014 justi\u00e7a que muitos consideram ser insuficiente, mas melhor do que a vivida por muitos outros nigerianos cujos entes queridos foram v\u00edtimas de viol\u00eancia policial e tamb\u00e9m podem ter acabado em escolas de Medicina em todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>02\/08\/2 O estudante de medicina Enya Egbe, de 26 anos. saiu da aula de anatomia chorando depois de ficar perturbado pelo cad\u00e1ver que teve de analisar. N\u00e3o foi a rea\u00e7\u00e3o de um jovem inexperiente. 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