{"id":967,"date":"2021-09-15T02:02:00","date_gmt":"2021-09-15T02:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=967"},"modified":"2021-09-17T02:05:17","modified_gmt":"2021-09-17T02:05:17","slug":"violino-serviu-de-escudo-e-me-salvou-de-bala-perdida-no-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/violino-serviu-de-escudo-e-me-salvou-de-bala-perdida-no-rio\/","title":{"rendered":"\u2018Violino serviu de escudo e me salvou de bala perdida no Rio\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p>15\/09\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na manh\u00e3 de 20 de agosto, Carlos Samuel Galv\u00e3o, de 20 anos, estava a caminho da aula de m\u00fasica. Enquanto seguia em dire\u00e7\u00e3o ao ponto de \u00f4nibus, uma bala perdida quase o acertou. Ele foi protegido do tiro por algo que considera que j\u00e1 havia salvado a vida dele anteriormente: a m\u00fasica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Samuel, como \u00e9 conhecido, carregava um violino nas costas quando ficou em meio a um tiroteio na regi\u00e3o da comunidade em que mora, no Rio de Janeiro. Um dos disparos foi na dire\u00e7\u00e3o do jovem e atingiu o instrumento musical. &#8220;O violino serviu como um escudo e salvou minha vida&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se n\u00e3o estivesse com o violino, eu seria s\u00f3 mais um nas estat\u00edsticas. Ia passar na reportagem que houve um ataque de criminosos fortemente armados, a mesma hist\u00f3ria de sempre, por um ou dois dias falariam sobre o assunto e depois iriam abafar o caso. N\u00e3o ia acontecer nada, como sempre&#8221;, diz o jovem \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sabe da tr\u00e1gica estat\u00edstica de mortes de pessoas negras no pa\u00eds e conhece algumas das hist\u00f3rias de v\u00edtimas da viol\u00eancia. &#8220;Eu conhecia v\u00e1rias pessoas negras que foram v\u00edtimas de balas perdidas ou &#8216;achadas'&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele conhecia, por exemplo, a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-57416270\">jovem Kathlen Romeu<\/a>, de 24 anos, que morreu em junho deste ano, ap\u00f3s ser baleada durante uma a\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar na comunidade do Lins de Vasconcelos, na Zona Norte do Rio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente chegou a frequentar a mesma igreja. Mas depois a gente frequentou igrejas em locais diferentes. Nunca mais a vi, at\u00e9 que um tempo depois vi na televis\u00e3o que ela tinha morrido&#8221;, comenta Samuel. &#8220;Acredito que poderia ter acontecido algo semelhante comigo naquele dia (20 de agosto), mas Deus n\u00e3o deixou&#8221;, acrescenta o jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Os negros representaram 77% das v\u00edtimas de homic\u00eddios no pa\u00eds em 2019, segundo o Atlas da Viol\u00eancia 2020, divulgado no fim de agosto deste ano pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP) e pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada).<\/p>\n\n\n\n<p>O dado, o mais recente sobre o tema, aponta que a taxa de homic\u00eddios entre os negros corresponde a 29,2 por 100 mil habitantes. O mesmo dado entre os n\u00e3o negros \u00e9 de 11,2 para cada 100 mil. Isso indica que o risco de um negro ser assassinado no Brasil \u00e9 2,6 vezes maior que uma pessoa n\u00e3o negra.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Antes-da-m\u00fasica-eu-n\u00e3o-sabia-o-que-fazer-da-vida\">&#8216;Antes da m\u00fasica, eu n\u00e3o sabia o que fazer da vida&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0 crescente viol\u00eancia contra pessoas negras no pa\u00eds, Samuel avalia que a m\u00fasica se tornou fundamental para ele e para outros jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Costumo dizer que foi fundamental para a minha trajet\u00f3ria. Antes da m\u00fasica, eu n\u00e3o sabia o que fazer. Sabia que ia crescer, arrumar emprego e ser mais um trabalhando em uma \u00e1rea que n\u00e3o gosta. Mas quando me encantei pelo violino, descobri que ia ser nele que eu ia trabalhar com o que gosto&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele mora no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e viu a oportunidade de estudar um instrumento quando a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental A\u00e7\u00e3o Social pela M\u00fasica do Brasil chegou \u00e0 comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o tem o objetivo de oferecer educa\u00e7\u00e3o musical para crian\u00e7as e adolescentes que vivem em \u00e1reas vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma tia me avisou do projeto e eu fui com minha m\u00e3e. Chegando l\u00e1, escolhi aprender violino, porque sempre achei um instrumento muito bonito, por causa do filme Titanic. Falei: &#8216;p\u00f4, vou aprender a tocar esse aqui'&#8221;, diz o jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas primeiras aulas, ele, que na \u00e9poca tinha 14 anos, ficou desanimado porque pensou que n\u00e3o era o que realmente queria. &#8220;Mas quando parei, senti uma falta muito grande e voltei no m\u00eas seguinte cheio de g\u00e1s&#8221;, diz. &#8220;Fui me destacando e assim, dentro de, mais ou menos, um ano eu j\u00e1 estava na orquestra tocando&#8221;, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, ele foi selecionado para a Orquestra Sinf\u00f4nica Jovem do Rio de Janeiro, fundada pela A\u00e7\u00e3o Social Pela M\u00fasica para os alunos que se destacam.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como Samuel, outros jovens que ele conhece tamb\u00e9m viram novas chances de um futuro melhor ao participar do projeto. &#8220;Espero que tenha muito mais projetos assim, porque ajuda muitas pessoas a n\u00e3o entrarem na vida errada. O projeto salva a vida legal. Eu j\u00e1 tive conhecidos que perderam a vida ao entrar pro crime, porque n\u00e3o tiveram oportunidades&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando o projeto chegou, muita gente quis participar e est\u00e1 nele at\u00e9 hoje. Se n\u00e3o fosse pelo projeto, muita gente estaria nessa vida errada&#8221;, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Diretora e fundadora da A\u00e7\u00e3o Social pela M\u00fasica do Brasil, Fiorella Solares diz que o projeto ajudou milhares de jovens. &#8220;Tem sido muito frut\u00edfero. O projeto avan\u00e7ou muito e proporcionou a inclus\u00e3o social atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o musical&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do Rio de Janeiro, a iniciativa tamb\u00e9m est\u00e1 presente nas periferias de Jo\u00e3o Pessoa (PB) e em Ji-Paran\u00e1 (RO). Atualmente, segundo Fiorella, o projeto atende 4,7 mil alunos no pa\u00eds, entre crian\u00e7as e adolescentes. Ela avalia que a iniciativa ajuda na redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais no Brasil, ao levar cultura a locais que dificilmente t\u00eam acesso ao ensino da m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela considera que Samuel \u00e9 um exemplo positivo do projeto. &#8220;Creio que ele vai poder se profissionalizar na \u00e1rea, porque tem dedicado mais tempo \u00e0 m\u00fasica e tem sido muito elogiado pelo professor. Estudar m\u00fasica exige disciplina, \u00e9 preciso dedicar muitas horas, como nos casos dos esportistas&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar dos anos, Samuel ganhou cada vez mais destaque na m\u00fasica. Junto com o projeto, j\u00e1 viajou para diversas regi\u00f5es do Brasil, al\u00e9m de ter conhecido Nova York, nos Estados Unidos, para participar de uma apresenta\u00e7\u00e3o com o grupo.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"A-bala-perdida\">A bala perdida<\/h2>\n\n\n\n<p>A dedica\u00e7\u00e3o de Samuel faz com que ele queira aprender cada vez mais. Na manh\u00e3 de 20 de agosto, ele tinha aula de violino. Quando acordou, ouviu barulhos de tiros na comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro, naquela manh\u00e3 houve um ataque a tiros contra a UPP (Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora) Macacos. Conforme nota encaminhada \u00e0 BBC News Brasil, os policiais revidaram e come\u00e7ou um tiroteio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os suspeitos fugiram e, ap\u00f3s estabilizado o terreno, foram encontrados um estojo calibre 9mm, muni\u00e7\u00f5es 5.56, um r\u00e1dio comunicador. O material apreendido foi encaminhado \u00e0 20\u00baDP, onde a ocorr\u00eancia foi registrada&#8221;, informa nota da Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta das 7h, Samuel informou ao professor de violino sobre a situa\u00e7\u00e3o na comunidade. A aula dele estava marcada para 9h e ele costuma levar cerca de 40 minutos no trajeto. O jovem temia que os tiros n\u00e3o parassem nas horas seguintes. &#8220;O professor falou que eu poderia chegar a qualquer hora, quando eu conseguisse sair de casa&#8221;, conta Samuel.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 normal deixar de sair de casa por causa de tiroteio. Querendo ou n\u00e3o, a gente meio que se acostumou com a viol\u00eancia. A verdade \u00e9 essa. Acostumados ou n\u00e3o, isso \u00e9 parte da nossa realidade&#8221;, diz o jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Os barulhos de tiros cessaram por volta das 9h20. &#8220;Liguei pro professor e falei que chegaria rapidinho. Ele me disse para ir com calma e tranquilo&#8221;, diz Samuel.<\/p>\n\n\n\n<p>O jovem desceu em dire\u00e7\u00e3o a um ponto de \u00f4nibus. Nas costas, levava o violino em um estojo, que tinha uma al\u00e7a para ser carregado. &#8220;Sempre carreguei nas costas para ficar com as m\u00e3os livres&#8221;, diz o jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegou perto do ponto de \u00f4nibus, em uma \u00e1rea nas proximidades da comunidade, Samuel ouviu o tiroteio recome\u00e7ar. &#8220;Estava muito forte, parecia que estavam usando v\u00e1rios tipos de armas e granadas. Todo mundo se abaixou&#8221;, relata. Ele estava na cal\u00e7ada e sequer teve tempo para abaixar tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Foi tudo muito r\u00e1pido. Eu parei e virei pro lado, dei um passo pra frente e ouvi um tiro muito estrondoso atr\u00e1s de mim. N\u00e3o deu tempo de me abaixar ou correr. Na hora, pensei: bateu um tiro no pr\u00e9dio &#8220;, diz Samuel.<\/p>\n\n\n\n<p>O jovem olhou para tr\u00e1s e viu que nenhum tiro parecia ter atingido o pr\u00e9dio pr\u00f3ximo a ele. &#8220;O pessoal come\u00e7ou a correr em minha dire\u00e7\u00e3o para me socorrer. Eu comecei a ficar desesperado, achei que eu fui baleado e n\u00e3o senti porque estava com o sangue quente. Tirei a camisa e vi que n\u00e3o tinha acontecido nada comigo&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou o estojo do violino e encontrou o buraco do tiro. &#8220;Eu abri (o estojo) e vi o violino todo quebrado, a bala estava l\u00e1 dentro. Foi um desespero absurdo&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o tivesse dado um passo para frente no momento do tiroteio ou se n\u00e3o estivesse com o violino nas costas, Samuel acredita que teria sido atingido pela bala.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O tiro poderia ter acertado minha costela. Eu poderia ter morrido. Foi desesperador. Num segundo voc\u00ea t\u00e1 vivo e no outro pode estar morto. Passa um filme na cabe\u00e7a. Voc\u00ea fica &#8216;pirad\u00e3o&#8217; com isso&#8221;, desabafa o jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros dos \u00faltimos anos s\u00e3o totalmente desfavor\u00e1veis a jovens negros como Samuel. O Atlas da Viol\u00eancia 2020 aponta que entre os anos de 2009 a 2019, o n\u00famero de negros que foram v\u00edtimas de homic\u00eddio cresceu 1,6% (subiu de 33.929 v\u00edtimas em 2009 para 34.466 em 2019). J\u00e1 os registros entre pessoas n\u00e3o negras tiveram redu\u00e7\u00e3o de 33% no mesmo per\u00edodo (de 15.249 em 2009 para 10.217 em 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>O risco aumenta quando \u00e9 jovem. De 2009 a 2019, foram 623.439 v\u00edtimas de homic\u00eddio no Brasil, sendo que 53% desse total eram pessoas com idades entre 15 e 29 anos.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Quero-me-tornar-m\u00fasico-profissional\">&#8216;Quero me tornar m\u00fasico profissional&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o susto por quase ter se tornado uma tr\u00e1gica estat\u00edstica de v\u00edtimas de homic\u00eddio, Samuel teve uma outra preocupa\u00e7\u00e3o: como consertar o violino atingido pela bala.<\/p>\n\n\n\n<p>O instrumento que Samuel carregava naquele dia era emprestado, porque o violino que ele usava nas aulas, que pertence ao projeto social, estava em manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu fiquei desesperado porque o violino n\u00e3o era meu, muito menos do projeto. Na semana anterior, eu tinha uma prova na orquestra para avaliar se o aluno estava evoluindo e, como o violino que eu usava tinha soltado uma pe\u00e7a, precisei pegar um outro emprestado&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esse violino que eu estava no dia do tiroteio era de um luthier (especialista em instrumentos de corda), que me emprestou por causa da prova que eu tinha. Eu fiz a prova na orquestra e passei. Naquele dia (20 de agosto), eu iria para a aula e depois devolveria o violino&#8221;, conta o jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Samuel n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de arcar com os custos de um novo violino para entregar ao luthier. A \u00fanica fonte de renda dele \u00e9 a bolsa que recebe na orquestra, que o auxilia nos gastos com transporte e alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a ajuda dos respons\u00e1veis pela A\u00e7\u00e3o Social pela M\u00fasica do Brasil, ele criou uma vaquinha online com o objetivo de arrecadar R$ 8 mil, para ajud\u00e1-lo a pagar o violino atingido pela bala perdida (cerca de R$ 4 mil). O restante do valor ser\u00e1 para auxili\u00e1-lo com a manuten\u00e7\u00e3o do instrumento e tamb\u00e9m para apoiar despesas futuras do jovem com a m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a tarde desta ter\u00e7a-feira (14\/09), o jovem j\u00e1 havia arrecadado R$ 5,9 mil, doados por 54 pessoas. &#8220;Fiquei muito feliz com o apoio que recebi&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da vaquinha, Samuel tamb\u00e9m foi ajudado pelo violinista Alessandro Borgomanero, que soube do caso da bala perdida e doou um violino para Samuel. Mas o instrumento deve permanecer com o jovem somente se ele continuar na m\u00fasica. Caso deixe a \u00e1rea, dever\u00e1 devolver o item ao projeto social, para que outros alunos possam utiliz\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Samuel deve continuar com o violino que recebeu, pois n\u00e3o pensa em desistir da m\u00fasica. O jovem deve concluir o ensino m\u00e9dio em breve, &#8220;por n\u00e3o ter dado aten\u00e7\u00e3o ao col\u00e9gio no passado&#8221;, e j\u00e1 tem planos para ingressar na universidade. &#8220;Quero me tornar m\u00fasico profissional e viver disso&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>15\/09\/2021 Na manh\u00e3 de 20 de agosto, Carlos Samuel Galv\u00e3o, de 20 anos, estava a caminho da aula de m\u00fasica. Enquanto seguia em dire\u00e7\u00e3o ao ponto de \u00f4nibus, uma bala perdida quase o acertou. 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