{"id":976,"date":"2021-09-20T18:19:00","date_gmt":"2021-09-20T18:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=976"},"modified":"2021-09-22T18:23:55","modified_gmt":"2021-09-22T18:23:55","slug":"o-raro-tsunami-que-atingiu-o-brasil-em-1755","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/o-raro-tsunami-que-atingiu-o-brasil-em-1755\/","title":{"rendered":"O raro tsunami que atingiu o Brasil em 1755"},"content":{"rendered":"\n<p>20\/09\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A erup\u00e7\u00e3o do vulc\u00e3o Cumbre Vieja, de La Palma, nas Ilhas Can\u00e1rias (Espanha), no final de semana levou muitas pessoas a se perguntarem se o evento no outro lado do Oceano Atl\u00e2ntico poderia causar um tsunami no Brasil. Especialistas dizem que a possibilidade de um tsunami \u00e9 remota, mas o Brasil j\u00e1 registrou um tsunami no passado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos estudos mais recentes, realizado em 2020 pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), afirma que o Brasil j\u00e1 foi atingido por um tsunami em 1755. Ao contr\u00e1rio dos tsunamis mais conhecidos, esse tsunami teria sido causado pelo forte terremoto que sacudiu Lisboa, em Portugal, naquele ano, no outro lado do Oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n\n\n\n<p>O assunto foi abordado no Twitter da Rede Sismogr\u00e1fica Brasileira, com um v\u00eddeo do professor aposentado do Instituto de Geoci\u00eancias e ex-chefe do Observat\u00f3rio Sismol\u00f3gico da UnB, Jos\u00e9 Alberto Vivas Veloso.<\/p>\n\n\n\n<p>O terremoto de 1755 foi o maior j\u00e1 registrado na Europa, com magnitude de 8,7. Ele destruiu Lisboa, grande parte do sul da Espanha e do Marrocos, e causou um enorme tsunami que atingiu a Irlanda e o Caribe. As estimativas de v\u00edtimas variam pela car\u00eancia de registros, mas as menores est\u00e3o entre 20 mil e 30 mil \u00f3bitos, enquanto as maiores falam em 100 mil. O terremoto tamb\u00e9m deu in\u00edcio a uma era moderna nos estudos sismol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>A onda gigante que se formou com o terremoto em Lisboa atravessou o Atl\u00e2ntico e causou estragos na costa brasileira, afirmam o trabalho liderado pelo professor Francisco Dourado do Centro de Pesquisas e Estudos sobre Desastres (Cepedes).<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa foi feita com base em um levantamento hist\u00f3rico do professor Alberto Veloso, autor do livro\u00a0<em>Tremeu a Europa e o Brasil tamb\u00e9m<\/em>. Os pesquisadores da equipe de Dourado realizaram trabalho de campo ao longo de 270 quil\u00f4metros e 22 praias entre Rio Grande do Norte e o sul de Pernambuco.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No in\u00edcio da tarde de 1\u00ba de novembro de 1755, um tsunami atingiu o litoral do Nordeste. Ele penetrou terra adentro, destruiu habita\u00e7\u00f5es modestas e desapareceu com duas pessoas. Isso \u00e9 desconhecido da maioria dos brasileiros&#8221;, diz Veloso.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 relatos quatro cartas da \u00e9poca falando sobre o maremoto no Brasil. Essas cartas foram escritas pelo arcebispo da Bahia, pelos governadores de Pernambuco e da Parayba e por um militar e est\u00e3o no Arquivo Hist\u00f3rico Ultramarino de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As \u00e1guas transcenderam os seus limites e fizeram fugir os habitantes das praias&#8221;, diz uma carta de 10 de maio de 1756, relatando o epis\u00f3dio acontecido em 1 de novembro do ano anterior em praias da Para\u00edba.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra carta relatada por Veloso, de 4 de mar\u00e7o de 1756, diz: &#8220;Em Lucena e Tamandar\u00e9, a enchente do terremoto entrou pela terra adentro coisa de uma l\u00e9gua (4 a 5 km) terra adentro e levou algumas casas de palho\u00e7a e falta um rapaz e uma mulher.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 relatos de mares revoltos tamb\u00e9m no Rio de Janeiro no dia do terremoto de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadores brasileiros e portugueses disseram ter coletado vest\u00edgios de microanimais e de elementos qu\u00edmicos que s\u00f3 poderiam ter sido trazidos a determinadas praias brasileiras por grandes ondas. O primeiro passo foi fazer uma simula\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica de como teria sido o tsunami. Baseado nessa simula\u00e7\u00e3o, os pesquisadores foram a campo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na praia de Pontinhas, na Para\u00edba, eles identificaram uma camada de areia grossa que teria vest\u00edgios do fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o estudo da Uerj, na regi\u00e3o da praia de Lucena, na Para\u00edba, as ondas variaram entre 1,8 e 1,7 metros de altura. Na regi\u00e3o pernambucana de Tamandar\u00e9, as ondas atingiram de 1,9 a 1,8 metros, com grande volume de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>As ondas inundaram at\u00e9 4 quil\u00f4metros terra adentro, principalmente em locais banhados por rios e nas proximidades da Ilha de Itamarac\u00e1 (PE). Em Tamandar\u00e9 a inunda\u00e7\u00e3o foi de at\u00e9 800 metros, e em Lucena, 300 metros.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Minitsunami\">&#8216;Minitsunami?&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Em um artigo para a Revista da USP de 2018, o professor Veloso questiona se ondas gigantes registradas no passado no Brasil poderiam ser consideradas &#8220;tsunamis&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tsunamis s\u00e3o fen\u00f4menos raros, mas podem acontecer em qualquer dos oceanos, em diversos mares e em por\u00e7\u00f5es menores de massas de \u00e1gua. eles podem ter diferentes origens, ser grandes ou pequenos, desastrosos ou inofensivos. Tais caracter\u00edsticas abrem um amplo leque de oportunidades, inclusive para formular a pergunta: j\u00e1 ocorreu, ou poder\u00e1 acontecer, um tsunami no Brasil? Talvez n\u00e3o seja poss\u00edvel responder tais indaga\u00e7\u00f5es de forma precisa&#8221;, escreve Veloso.<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo afirma que a explica\u00e7\u00e3o mais comum para a aus\u00eancia de tsunamis no Brasil seria a falta de terremotos de grande magnitude no mar. Mas ele afirma que a falta de registros no passado n\u00e3o \u00e9 garantia de que o Brasil n\u00e3o possa vir a ter um tsunami, apesar de uma possibilidade remota de esse fen\u00f4meno ser intenso.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O desconhecimento de abalos significativos no passado e o n\u00e3o registro de sismos fortes na atualidade n\u00e3o asseguram situa\u00e7\u00e3o similar para o futuro.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Seu artigo se debru\u00e7a sobre cinco epis\u00f3dios de &#8220;manifesta\u00e7\u00f5es marinhas incomuns&#8221; no litoral brasileiro: em S\u00e3o Vicente (SP) em 1541, em Salvador em 1666, em Cananeia (SP) em 1789, na Ba\u00eda de Todos os Santos (BA) em 1919 e no Arquip\u00e9lago de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo (no litoral de PE) em 2006.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todos esses epis\u00f3dios, houve relatos de mar violento ou ressaca forte. Mas boa parte desses fen\u00f4menos sequer foi antecedido por algum tipo de abalo s\u00edsmico ou erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica, o que descaracteriza a ocorr\u00eancia como um tsunami. Os epis\u00f3dios de grandes ondas em Cananeia e Ba\u00eda de Todos os Santos tiveram sua origem em terremotos \u2014 mas com magnitudes relativamente baixas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Identificou-se um tremor que gerou ondas parecidas com um pequeno tsunami. Apesar de modesto o caso \u00e9 significativo, pois se est\u00e1 validando um &#8216;minitsunami&#8217; brasileiro.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Cumbre-Vieja\">Cumbre Vieja<\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo do professor Velasco tamb\u00e9m especula sobre a possibilidade de um tsunami se formar com a erup\u00e7\u00e3o do Cumbre Vieja, das Ilhas Can\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se, ao inv\u00e9s do passado, voltarmos ao futuro, podemos nos deparar com a amea\u00e7a de um poss\u00edvel megatsunami partindo do meio do Oceano Atl\u00e2ntico. O alerta partiu de pesquisadores brit\u00e2nicos e ganhou notoriedade ap\u00f3s o maremoto da Indon\u00e9sia, de 2004 (Ward &amp; Day, 2001)&#8221;, escreve ele.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O estudo sugere que durante uma nova erup\u00e7\u00e3o do vulc\u00e3o Cumbre Vieja, na Ilha Las Palmas, nas Can\u00e1rias, junto \u00e0 costa ocidental da \u00c1frica, um de seus flancos colapsaria em dire\u00e7\u00e3o ao mar, provocando um imenso tsunami, principalmente contra a costa das Am\u00e9ricas. Dependendo do volume das rochas envolvidas no deslizamento, algo entre 150 km\u00b3 e 500 km\u00b3, enormes ondas com amplitudes de 15 a 20 m chegariam \u00e0 costa dos Estados Unidos e tamb\u00e9m ao litoral norte do Brasil.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o professor afirma que tsunamis provocados por erup\u00e7\u00f5es de vulc\u00f5es s\u00e3o raros, e que h\u00e1 poucos dados sobre o Cumbre Vieja para se especular sobre a forma\u00e7\u00e3o de um tsunami no litoral do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O artigo \u00e9 pol\u00eamico pelo tema incomum e por envolver mecanismos desconhecidos, como grandes colapsos laterais em ilhas vulc\u00e2nicas. Ademais, os pesquisadores enfatizaram o pior cen\u00e1rio ao admitir a ca\u00edda total do bloco rochoso, uma vez que ele poderia vir abaixo, em partes, e o impacto final seria bem menor. Outra quest\u00e3o \u00e9 saber se o tsunami se dispersaria rapidamente, ou se se propagaria a dist\u00e2ncias transoce\u00e2nicas, implicando, nesse caso, grande perigo \u00e0s popula\u00e7\u00f5es costeiras. Apesar de todas as incertezas de ocorr\u00eancia, um tsunami dessa natureza produziria danos por quase todo o Atl\u00e2ntico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O professor conclui: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 por que temer, em nosso litoral, o aparecimento de tsunamis com a grandeza e o mecanismo s\u00edsmico similares aos dos acontecidos no Jap\u00e3o em 2011, ou na Indon\u00e9sia em 2004&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A possibilidade de um novo tsunami foi praticamente descartada por ge\u00f3logos da Rede Sismogr\u00e1fica Brasileira, que publicou em sua p\u00e1gina no Facebook um post sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p>A origem dessa preocupa\u00e7\u00e3o seria de um feito por ge\u00f3logos americanos sobre a possibilidade de um desabamento de uma parte da ilha (de La Palma) provocar um tsunami no Brasil. Mesmo aquele estudo considerava remota essa possibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>20\/09\/2021 A erup\u00e7\u00e3o do vulc\u00e3o Cumbre Vieja, de La Palma, nas Ilhas Can\u00e1rias (Espanha), no final de semana levou muitas pessoas a se perguntarem se o evento no outro lado do Oceano Atl\u00e2ntico poderia causar um tsunami no Brasil. 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