{"id":989,"date":"2021-09-24T00:02:00","date_gmt":"2021-09-24T00:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=989"},"modified":"2021-09-29T00:02:59","modified_gmt":"2021-09-29T00:02:59","slug":"angela-merkel-a-lider-pratica-e-conciliadora-que-marcou-o-inicio-do-seculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/angela-merkel-a-lider-pratica-e-conciliadora-que-marcou-o-inicio-do-seculo\/","title":{"rendered":"Angela Merkel: a l\u00edder pr\u00e1tica e conciliadora que marcou o in\u00edcio do s\u00e9culo"},"content":{"rendered":"\n<p>24\/09\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entre os v\u00e1rios choques pol\u00edticos que atingiram a Europa neste in\u00edcio de s\u00e9culo 21 \u2014 da crise econ\u00f4mica que abalou o euro \u00e0 sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia, o chamado Brexit \u2014, poucos foram t\u00e3o previs\u00edveis e geraram tanta ansiedade como o fim da era Merkel na Alemanha.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2018, veio o an\u00fancio daquilo que todos sabiam que aconteceria um dia: Angela Merkel deixaria a chefia do governo alem\u00e3o em 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o vou buscar nenhum posto pol\u00edtico depois que meu mandato acabar&#8221;, disse a alem\u00e3, em entrevista coletiva. &#8220;Chegou a hora de abrir um novo cap\u00edtulo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A ansiedade veio em seguida, ao lado de muita especula\u00e7\u00e3o. Afinal, Merkel, para o bem e para o mal, era garantia de significativas seguran\u00e7a e estabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Crises de refugiados, terrorismo, separatismos, extremismos \u2014 tudo que a Uni\u00e3o Europeia temia parecia ser mais contorn\u00e1vel nas m\u00e3os da poderosa chanceler alem\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegado o momento da despedida, ap\u00f3s 16 anos no comando da maior economia europeia, \u00e9 poss\u00edvel ter uma ideia ainda mais clara de como e por que Merkel tornou-se a mais importante figura pol\u00edtica do continente \u2014 a ponto de muitos temerem o futuro sem a sabedoria de sua lideran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Origens-no-comunismo\">Origens no comunismo<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das maiores qualidades pol\u00edticas de Angela Merkel sempre foi sua capacidade de navegar entre opostos e mediar conflitos pol\u00edticos, numa era em que os extremos ganham cada vez mais espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal habilidade est\u00e1 diretamente ligada a sua origem: criada na comunista Alemanha Oriental, num ambiente familiar crist\u00e3o luterano, ela foi uma jovem universit\u00e1ria num ambiente que promovia o marxismo e as liga\u00e7\u00f5es com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tal realidade, ela estudou f\u00edsica, concluiu um doutorado em qu\u00edmica qu\u00e2ntica e estudou russo, adquirindo completo dom\u00ednio da l\u00edngua que na \u00e9poca era associada ao comunismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Vinda da chamada Cortina de Ferro e criada num ambiente luterano, Merkel faria carreira pol\u00edtica na unificada Alemanha dentro da democracia crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria uma l\u00edder conservadora com um olhar atento a quest\u00f5es sociais, tendo desde o in\u00edcio de sua carreira a capacidade de equilibrar diferentes interesses e necessidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida em 17 de julho de 1954, em Hamburgo (ent\u00e3o Alemanha Ocidental), com o nome de Angela Kasner, sua mudan\u00e7a para o lado oriental ocorreu quando tinha apenas tr\u00eas meses de idade, e seu pai aceitou a miss\u00e3o de assumir um cargo de pastor em Perleberg.<\/p>\n\n\n\n<p>A futura l\u00edder alem\u00e3 passou sua juventude, foi estudante universit\u00e1ria e iniciou carreira cient\u00edfica no Estado comunista.<\/p>\n\n\n\n<p>Crist\u00e3 dedicada, foi casada por pouco tempo \u2014 a uni\u00e3o em 1977 com o colega de universidade Ulrich Merkel, que lhe deu o nome com o qual ganharia poder e fama, terminou em div\u00f3rcio ap\u00f3s quatro anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Angela Merkel integrou o movimento por democracia na Alemanha Oriental. Sua carreira pol\u00edtica, no entanto, somente teria in\u00edcio ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim, em 1989.<\/p>\n\n\n\n<p>Num per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, ela atuou como porta-voz do governo alem\u00e3o-oriental, ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1990, por\u00e9m, a Alemanha finalmente voltaria a ser um s\u00f3 pa\u00eds. Dois meses antes da reunifica\u00e7\u00e3o, Merkel passou a integrar o partido governista conservador CDU, a Uni\u00e3o Democrata Crist\u00e3 \u2014 um caminho que respeitava sua origem familiar luterana.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca o partido era liderado pelo chanceler Helmut Kohl, um gigante da pol\u00edtica europeia que entrou para a hist\u00f3ria como um s\u00edmbolo do fim da divis\u00e3o alem\u00e3 e da Guerra Fria.<\/p>\n\n\n\n<p>Merkel avan\u00e7ou dentro da legenda, ocupando os cargos de ministra das Mulheres e da Juventude (1991 a 1994) e do Meio Ambiente (1994 a 1998).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1998, a CDU perdeu as elei\u00e7\u00f5es para os social-democratas, e Kohl foi substitu\u00eddo como chanceler por Gerhard Schr\u00f6der.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 fora do comando do partido, em 1999, Kohl foi atingido em cheio por um esc\u00e2ndalo de financiamento partid\u00e1rio ilegal.<\/p>\n\n\n\n<p>Merkel destacou-se na \u00e9poca, ao pedir publicamente que Kohl, ainda integrante do Parlamento, renunciasse a sua cadeira e colocasse um fim a sua carreira pol\u00edtica \u2014 o que ele s\u00f3 faria em 2002.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2000, Merkel tornou-se l\u00edder da CDU \u2014 fato marcante para um partido crist\u00e3o, associado a valores familiares e que passou a ser comandado por uma mulher divorciada e sem filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s cinco anos na oposi\u00e7\u00e3o, os democratas-crist\u00e3os voltaram ao poder em 2005, e Angela Merkel iniciou sua longa carreira como chanceler.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a primeira mulher a comandar o pa\u00eds, que pela primeira vez tinha como chefe de governo algu\u00e9m criado sob o comunismo do lado oriental.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua vit\u00f3ria foi hist\u00f3rica para a Alemanha, e sua longa perman\u00eancia no cargo seria marcante para a Europa e o resto do mundo.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Conviv\u00eancia-com-advers\u00e1rios\">Conviv\u00eancia com advers\u00e1rios<\/h2>\n\n\n\n<p>Merkel chegou ao poder aos 51 anos, numa \u00e9poca de crescimento econ\u00f4mico global, mas dificuldades na economia alem\u00e3, que tentava se modernizar por meio de reformas estruturais.<\/p>\n\n\n\n<p>A geopol\u00edtica era marcada por tens\u00f5es e crises provocadas pela chamada Guerra ao Terrorismo, iniciada pelos Estados Unidos ap\u00f3s os atentados de 11 de setembro de 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>A capacidade de Merkel de equilibrar diferentes press\u00f5es pol\u00edticas foi testada logo de in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s um resultado indefinido no pleito de 2005, Merkel s\u00f3 conseguiu ocupar o posto de chanceler ao fazer um governo de coaliz\u00e3o com seus hist\u00f3ricos advers\u00e1rios, o SPD, partido social-democrata.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob o comando de Gerard Schr\u00f6der, os social-democratas eram governo havia sete anos e, ironicamente, foram os respons\u00e1veis por implementar reformas para enxugar o Estado de bem-estar social do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>No m\u00e9dio e longo prazos, as reformas criaram condi\u00e7\u00f5es para uma queda sistem\u00e1tica do desemprego, mas inicialmente a taxa subiu \u2014 ultrapassando 11% em 2005 \u2014, o que dificultou a vida de Schr\u00f6der nas urnas.<\/p>\n\n\n\n<p>Derrotado numa elei\u00e7\u00e3o apertada, o SPD perdeu o posto de chanceler, mas n\u00e3o saiu do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>O acordo de coaliz\u00e3o deu aos social-democratas oito minist\u00e9rios, incluindo alguns dos postos mais importantes, como o das Finan\u00e7as, o do Exterior, o da Sa\u00fade e o do Meio Ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>A CDU de Merkel, a nova chanceler, ficou com apenas seis, incluindo Defesa, Justi\u00e7a e Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00f3s queremos fazer com que as coisas avancem neste pa\u00eds. \u00c9 por isso que eu me refiro a uma coaliz\u00e3o de novas possibilidades&#8221;, afirmou na \u00e9poca a rec\u00e9m-empossada chefe de governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava assim consolidada uma das principais caracter\u00edsticas de Merkel: o pragmatismo. Ela provou ser capaz de dialogar com advers\u00e1rios e se adaptar a situa\u00e7\u00f5es adversas, inclusive governando com advers\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Merkel parecia disposta a fazer o poss\u00edvel para fazer o acordo dar certo e, com isso, solucionar os problemas nacionais mais urgentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu primeiro discurso no Parlamento, conhecido como Reichstag, ela deixou clara sua prioridade: &#8220;Vamos soltar os freios do crescimento&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A coaliz\u00e3o que governou a Alemanha entre 2005 e 2009 acabou sendo chamada por muitos de um governo de &#8220;direita-esquerda&#8221;, em que a chanceler buscou promover crescimento econ\u00f4mico e abra\u00e7ou pol\u00edticas progressistas. Entre elas, o abandono da energia nuclear, exigido pelo SPD e pelo Partido Verde, tamb\u00e9m membro da grande coaliz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da oposi\u00e7\u00e3o da CDU e da pr\u00f3pria Merkel, o governo alem\u00e3o anunciou que fecharia suas usinas nucleares em 2021, atendendo a um desconforto da opini\u00e3o p\u00fablica alem\u00e3 que vinha desde o acidente em Chernobyl, na Ucr\u00e2nia, em 1985.<\/p>\n\n\n\n<p>Administrar os interesses da CDU e do SPD n\u00e3o era f\u00e1cil, mas Merkel mostrou not\u00e1vel habilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ap\u00f3s tomar posse como l\u00edder do governo da grande coaliz\u00e3o em 2005, Merkel tem tido que trabalhar duro para achar um denominador comum entre dois partidos que t\u00eam brigado durante a maior parte dos \u00faltimos 60 anos&#8221;, escreveu a rede alem\u00e3 Deutsche Welle em junho de 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>O notici\u00e1rio alem\u00e3o usou essas palavras para anunciar que Merkel havia conseguido o que parecia imposs\u00edvel: um acordo entre os dois partidos para a expans\u00e3o do um sal\u00e1rio m\u00ednimo na Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>O SPD pressionava pela ado\u00e7\u00e3o de um m\u00ednimo nacional, enquanto a CDU de Merkel rejeitava a ideia.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o v\u00e1lido apenas na constru\u00e7\u00e3o civil e trabalhadores de limpeza, as legendas concordaram que a medida passasse a valer para ao menos dez novas \u00e1reas da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>No cen\u00e1rio internacional, Merkel foi reconhecida por sua lideran\u00e7a logo de in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 2006, a revista Forbes a escolheu como a mulher mais poderosa do mundo \u2014 escolha que a publica\u00e7\u00e3o repetiria, seguidamente, pelos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Desde que tomou posse, Merkel conquistou respeito no cen\u00e1rio mundial e apelo popular na Alemanha por sua discreta diplomacia&#8221;, escreveu a Forbes no texto que acompanhava a lista das mais poderosas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano seguinte, poucos dias antes de obter o acordo pelo sal\u00e1rio m\u00ednimo, seu poder de negocia\u00e7\u00e3o e persuas\u00e3o foi conhecido por outras lideran\u00e7as internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Como anfitri\u00e3 da reuni\u00e3o do G-8 de 2007, em Heiligendamm, na Alemanha, Merkel conseguiu um acordo inicial pelo combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, convencendo o ent\u00e3o presidente americano, George W. Bush, a finalmente se aproximar da causa, que antes rejeitava.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O melhor que n\u00f3s poder\u00edamos conseguir foi conseguido&#8221;, disse Merkel na \u00e9poca, segundo a Deutsche Welle.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Popularidade\">Popularidade<\/h2>\n\n\n\n<p>Os quatro anos de conv\u00edvio com os advers\u00e1rios social-democratas levou muitos a questionar as verdadeiras credenciais conservadoras de Merkel.<\/p>\n\n\n\n<p>Estaria a ex-cidad\u00e3 da Alemanha Oriental se aproximando demais da esquerda?<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, o realismo imposto pela coaliz\u00e3o com a centro-esquerda foi positivo para a chanceler.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu governo &#8220;direita-esquerda&#8221; mostrou que Angela Merkel sabia como agradar a gregos e troianos \u2014 ou seja, alem\u00e3es de todos os campos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela evitou ser demonizada como uma conservadora neoliberal, sem perder o apoio tradicional de sua base partid\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, ela carregou sua CDU na dire\u00e7\u00e3o do centro, o que serviu como uma boa prepara\u00e7\u00e3o de terreno para as elei\u00e7\u00f5es que ocorreriam em 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>Merkel acumulou popularidade por meio de sua capacidade e disposi\u00e7\u00e3o de explicar temas complexos, al\u00e9m de se mostrar determinada e capaz diante de grandes desafios, como a economia.<\/p>\n\n\n\n<p>A chanceler e sua coaliz\u00e3o foram bem-sucedidos em atacar os problemas econ\u00f4micos do pa\u00eds \u2014 o desemprego logo caiu, de 12% no come\u00e7o de 2006, para 9% em meados do ano seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro 2008, no entanto, veio a fal\u00eancia do banco americano Lehman Brothers, que marcou a explos\u00e3o da crise financeira global \u2014 que se tornaria uma crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica internacional, com recess\u00e3o global e uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica em partes da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>A lideran\u00e7a de Merkel nos dois primeiros anos da crise foi bem avaliada pela opini\u00e3o p\u00fablica alem\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com o Produto Interno Bruto (PIB) despencando 5,7% em 2009, a taxa de desemprego ficou praticamente a mesma do ano anterior \u2014 7,74% em 2009, contra 7,53% em 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de o ministro das Finan\u00e7as do governo de coaliz\u00e3o, Peer Steinbr\u00fcck, ser do SPD, Merkel foi a mais beneficiada por tal desempenho.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca das elei\u00e7\u00f5es parlamentares de setembro de 2009, sua taxa de aprova\u00e7\u00e3o era de 60%.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa for\u00e7a traduziu-se em votos nas urnas. Sua CDU ficou em primeiro lugar e desta vez conseguiu formar uma coaliz\u00e3o com alinhamento ideol\u00f3gico, de centro-direita, com a CSU (Uni\u00e3o Social Crist\u00e3 da Bav\u00e1ria) e o FDP (Partido Democr\u00e1tico Livre).<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua primeira an\u00e1lise ap\u00f3s os resultados, a BBC News trouxe a avalia\u00e7\u00e3o de Detmar Doering, do Instituto Liberal. Ele destacava o pragmatismo de Merkel, que inspirava confian\u00e7a no eleitorado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os eleitores alem\u00e3es n\u00e3o s\u00e3o est\u00fapidos \u2014 eles n\u00e3o querem uma Britney Spears como chanceler da Alemanha, eles querem uma l\u00edder s\u00e9ria em quem eles possam confiar. Merkel sabe o que ela est\u00e1 fazendo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Num governo de unidade ideol\u00f3gica, formado por partidos conservadores, a chanceler ficou autorizada a governar mais de acordo com suas cren\u00e7as e prefer\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>A v\u00edtima mais proeminente dessa nova realidade pol\u00edtica foi o plano de fechar as usinas nucleares do pa\u00eds, caminho tomado sob influ\u00eancia dos social-democratas e verdes que participavam do primeiro governo Merkel.<\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 2010, a chanceler anunciou uma revis\u00e3o da medida: as 17 usinas nucleares do pa\u00eds seriam prorrogadas por mais 15 anos al\u00e9m de 2021, ano em que seriam inicialmente interrompidas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A energia nuclear \u00e9 desej\u00e1vel como uma tecnologia transit\u00f3ria&#8221;, disse a alem\u00e3 na \u00e9poca. A decis\u00e3o tinha o apoio do FDP, partido de centro-direita que compunha o governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como informou o jornal brit\u00e2nico The Guardian, por\u00e9m, a medida era impopular: segundo uma pesquisa da \u00e9poca, 56% dos alem\u00e3es eram contra estender a vida \u00fatil das usinas, por medo de acidentes e a\u00e7\u00f5es terroristas.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Crise-europeia\">Crise europeia<\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 2009, a crise financeira era sentida a n\u00edvel nacional, e Merkel passara no teste.<\/p>\n\n\n\n<p>Seus desdobramentos, por\u00e9m, levariam a uma recess\u00e3o global e uma crise continental.<\/p>\n\n\n\n<p>A chanceler teve de assumir um papel que ainda n\u00e3o exercera plenamente: o de l\u00edder europeia. \u00c0 frente da maior economia do continente, Merkel assumiu a lideran\u00e7a nas decis\u00f5es da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>A chanceler tornou-se a cara da crise financeira na Europa, em seus aspectos positivos e negativos. Do lado positivo, a alem\u00e3 sabia de sua responsabilidade: precisava encontrar solu\u00e7\u00f5es para os maiores desafios econ\u00f4micos vividos pelo bloco at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Do negativo, tamb\u00e9m sabia que suas decis\u00f5es teriam de considerar os interesses dos alem\u00e3es \u2014 o que associou seu nome, na cabe\u00e7a de muitos, \u00e0 fria imposi\u00e7\u00e3o de medidas com altos custos sociais para as na\u00e7\u00f5es menos desenvolvidas da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os maiores desafios econ\u00f4micos estavam nos pa\u00edses-membros que, nas duas d\u00e9cadas anteriores, haviam desfrutado de admir\u00e1veis saltos econ\u00f4micos e eleva\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de vida de suas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Gr\u00e9cia, Espanha, Irlanda, It\u00e1lia e Portugal haviam se tornado, em pouco tempo, for\u00e7as econ\u00f4micas alimentadas por d\u00edvidas. Suas riquezas dependiam da continua\u00e7\u00e3o da desenfreada ciranda financeira, que parecia ter chegado ao fim com a crise das hipotecas, que levou \u00e0 crise das d\u00edvidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de maio de 2010, o bloco socorreu esses pa\u00edses-membros, por meio da Facilidade Europeia para Estabilidade Financeira (EFSF) \u2014 outros mecanismos viriam nos anos seguintes, somando centenas de bilh\u00f5es de euros.<\/p>\n\n\n\n<p>Em pouco tempo, Merkel passou a ser vista com desconfian\u00e7a, criticada e at\u00e9 mesmo odiada por muitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Alemanha, parte da imprensa e da opini\u00e3o p\u00fablica reclamava que o pa\u00eds tivesse de pagar para retirar a Gr\u00e9cia da crise. Isso, entretanto, n\u00e3o impediu que em outubro de 2011 Merkel conseguisse aprovar no Parlamento \u2014 por 503 votos a 89 \u2014 a participa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 na ajuda a na\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois meses depois, num discurso no Reichstag, ela justificou e defendeu a lideran\u00e7a alem\u00e3 no processo de socorro a pa\u00edses-membros da Zona do Euro. &#8220;Criar uma Europa est\u00e1vel de forma duradoura \u00e9 a tarefa hist\u00f3rica da atual gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos&#8221;, disse a chanceler.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na Gr\u00e9cia, a imposi\u00e7\u00e3o de cortes dr\u00e1sticos nos gastos p\u00fablicos, como contrapartida para a oferta da ajuda financeira, fez com que o rosto de Merkel se tornasse presen\u00e7a constante em protestos violentos em Atenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes, seu nome e foto eram associados \u00e0 palavra &#8220;nazista&#8221; e \u00e0 su\u00e1stica, s\u00edmbolo do regime nazista de Adolf Hitler.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os manifestantes gregos, Merkel representava a opress\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia sobre integrantes mais fr\u00e1geis do bloco.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2012, Merkel visitou a Gr\u00e9cia, o que levou dezenas de milhares \u00e0s ruas da capital grega para protestar contra sua presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Merkel tornou-se uma figura odiada na Gr\u00e9cia, devido aos cortes de gastos impostos sobre o pa\u00eds em troca dos prometidos empr\u00e9stimos e al\u00edvio de d\u00edvida no valor de 347 bilh\u00f5es de euros&#8221;, escreveu a rede francesa France 24 durante a visita.<\/p>\n\n\n\n<p>Determinada, Merkel afirmou em Atenas: &#8220;Estou profundamente convencida de que este duro caminho vale a pena, e a Alemanha quer ser um bom parceiro. Muito j\u00e1 foi conseguido. Ainda h\u00e1 muito a fazer, e Alemanha e Gr\u00e9cia trabalhar\u00e3o juntas de forma muito pr\u00f3xima&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do rem\u00e9dio amargo contra a crise, Merkel, sua Alemanha e a Uni\u00e3o Europeia conseguiram o que chegou a parecer imposs\u00edvel: evitar que a Gr\u00e9cia deixasse a Zona do Euro.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, a chanceler foi creditada com o feito de ter salvado a moeda \u00fanica europeia, o que at\u00e9 mesmo um de seus ferrenhos cr\u00edticos na \u00e9poca, o economista socialista grego Yanis Varoufakis, admite ser verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 verdade que, no final, ela foi respons\u00e1vel por manter a Zona do Euro unida, porque, se a Gr\u00e9cia tivesse sa\u00eddo, eu n\u00e3o acredito que teria sido poss\u00edvel mant\u00ea-la&#8221;, disse Varoufakis, em setembro de 2021, \u00e0 correspondente Katya Adler, da BBC News.<\/p>\n\n\n\n<p>Varoufakis, por\u00e9m, questionou o que chamou de falta de plano para o futuro da uni\u00e3o monet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela nunca teve uma vis\u00e3o sobre o que fazer com a Zona do Euro depois que ela a tivesse salvado, e a maneira com que ela a salvou tornou-se muito desagregadora. Tanto dentro da Alemanha como dentro da Gr\u00e9cia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Terceira-vit\u00f3ria\">Terceira vit\u00f3ria<\/h2>\n\n\n\n<p>Com a crise das d\u00edvidas na Europa encaminhada, embora longe de estar completamente resolvida, Angela Merkel disputaria uma nova elei\u00e7\u00e3o geral em setembro de 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos antes, longe dali, uma trag\u00e9dia de grandes propor\u00e7\u00f5es ajudaria a chanceler em seu caminho rumo a mais uma vit\u00f3ria nas urnas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o de 2011, um terremoto pr\u00f3ximo ao litoral do Jap\u00e3o causou um enorme tsunami, cujas ondas gigantes atingiram o reator nuclear de uma usina em Fukushima.<\/p>\n\n\n\n<p>O desastre nuclear, em que o vazamento de radia\u00e7\u00e3o levou \u00e0 evacua\u00e7\u00e3o de mais de 150 mil habitantes, teve um impacto imediato na chanceler alem\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas quatro dias depois do acidente, Merkel anunciou o fechamento de 7 das 17 usinas nucleares da Alemanha \u2014 as que come\u00e7aram a operar antes do fim de 1980.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o da chanceler exp\u00f4s outra de suas habilidades pol\u00edticas: a de mudar de opini\u00e3o diante de uma nova realidade e da press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo depois do acidente no Jap\u00e3o, dezenas de milhares de alem\u00e3es realizaram protestos contra a decis\u00e3o de Merkel, de 2010, de adiar por ao menos 15 anos o fechamento das usinas do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Deutsche Welle informou, em 15 de mar\u00e7o de 2011, &#8220;at\u00e9 80% dos alem\u00e3es s\u00e3o agora contra a decis\u00e3o de Merkel de estender a energia nuclear, enquanto 72% dizem que os sete mais velhos reatores da Alemanha precisam ser fechados imediatamente&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o n\u00e3o foi resultado de consultas da chanceler e consenso entre partidos, como em outras oportunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Merkel mostrou saber tomar uma atitude vital sozinha e rapidamente, como lembrou o jornalista Jens Thurau, da Deutsche Welle.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tendo constru\u00eddo uma reputa\u00e7\u00e3o de sempre buscar o consenso, ela decidiu sozinha colocar um fim \u00e0 energia nuclear na Alemanha. Contra os desejos de seu partido, para o horror do setor de energia e do partido da coaliz\u00e3o liberal.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ciente do estado de esp\u00edrito da opini\u00e3o p\u00fablica, a chanceler deu um passo a mais em outubro de 2011, ao anunciar a decis\u00e3o de fechar todas as usinas nucleares at\u00e9 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo prometeu apostar ainda mais em fontes de energia renov\u00e1veis \u2014 e Merkel eliminou um potencial problema para sua campanha eleitoral em busca de um terceiro mandato, no pleito de 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>Admirada pela popula\u00e7\u00e3o e com bons resultados a exibir, Merkel chegou com for\u00e7a \u00e0 disputa eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>A economia, em especial, ia relativamente bem. \u00c9 verdade que, ap\u00f3s dois anos de forte recupera\u00e7\u00e3o em 2010 e 2011, o PIB quase n\u00e3o crescia \u2014 0,4% em 2012 e 0,4% em 2013. O desemprego, no entanto, continuava caindo, chegando a 5,2% no ano do pleito.<\/p>\n\n\n\n<p>Resultado: o partido de Merkel venceu as elei\u00e7\u00f5es parlamentares, novamente seguido pelo SPD, agora liderado por Steinbr\u016bck, seu antigo ministro das Finan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>As caracter\u00edsticas do parlamentarismo, por\u00e9m, fizeram com que Merkel tivesse que, mais uma vez, governar com seus advers\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu antigo parceiro de governo, o FDP, foi t\u00e3o mal que ficou fora do Parlamento, o que obrigou a chanceler a costurar uma nova coaliz\u00e3o com o SPD.<\/p>\n\n\n\n<p>Com uma diferen\u00e7a: os social-democratas tinham menos poder de barganha que em 2005 e tiveram uma participa\u00e7\u00e3o bem menor no governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s tr\u00eas meses de negocia\u00e7\u00f5es, o terceiro mandato de Merkel como chanceler come\u00e7ou em dezembro de 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00edder alem\u00e3 novamente seguiu na dire\u00e7\u00e3o da centro-esquerda, aceitando medidas de car\u00e1ter social exigidas pelo SPD &#8211; como um sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional para todos.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00eandulo pol\u00edtico de Merkel continuou a balan\u00e7ar, testando sua grande capacidade de navegar por diferentes campos da pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Imigra\u00e7\u00e3o-e-terrorismo\">Imigra\u00e7\u00e3o e terrorismo<\/h2>\n\n\n\n<p>Em sua nova conviv\u00eancia com seus advers\u00e1rios social-democratas no governo, Merkel continuou equilibrando-se bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril de 2014, ela cumpriu um dos principais pontos do acordo de coaliz\u00e3o com o SPD ao aprovar a ado\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional &#8211; na \u00e9poca, de 8,50 euros por hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de contr\u00e1ria aos desejos do partido, a medida refor\u00e7ava a imagem &#8220;direita-esquerda&#8221; que ajudou a manter a chanceler por tantos anos no poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua capacidade de lidar com problemas de forma humana ficou ainda mais vis\u00edvel em 2015, em meio \u00e0 crise europeia de refugiados.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma onda migrat\u00f3ria sem precedentes, intensificada pela guerra civil na S\u00edria que levaria \u00e0 sa\u00edda de mais de 6 milh\u00f5es de s\u00edrios de seu pa\u00eds, fez com que centenas de milhares de pessoas chegassem \u00e0s fronteiras da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a Alemanha recebendo um grande n\u00famero de refugiados e diante do que parecia ser uma situa\u00e7\u00e3o sem solu\u00e7\u00e3o, Merkel pronunciou uma frase que entraria para a hist\u00f3ria: &#8220;Wir schaffen das&#8221; \u2014 &#8220;N\u00f3s conseguimos fazer isso&#8221;, ou simplesmente &#8220;N\u00f3s damos um jeito&#8221;, disse ela em 31 de agosto de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>A frase referia-se a como a chanceler pretendia cumprir o que acabara de prometer: receber todos os refugiados do conflito s\u00edrio que quisessem entrar e viver na Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela alegou tratar-se de uma situa\u00e7\u00e3o excepcional e conclamou outras na\u00e7\u00f5es europeias a tamb\u00e9m abrirem suas fronteiras aos refugiados.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se a Europa fracassar na quest\u00e3o dos refugiados, sua conex\u00e3o pr\u00f3xima com direitos civis universais ser\u00e1 destru\u00edda&#8221;, disse ela, citada pelo jornal The Guardian.<\/p>\n\n\n\n<p>Merkel previu que, at\u00e9 o fim de 2015, o pa\u00eds receberia cerca de 800 mil refugiados. Recebeu cerca de 1 milh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o de Merkel foi pol\u00eamica na Alemanha, e muitos passaram a temer um crescimento da popularidade de movimentos de extrema-direita nacionalista que se opunha \u00e0 chegada e perman\u00eancia de imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas primeiras horas de 2016, uma s\u00e9rie de incidentes em cidades alem\u00e3s deu muni\u00e7\u00e3o aos cr\u00edticos da chanceler.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante as festas de rua para marcar a chegada do novo ano, centenas de mulheres foram atacadas sexualmente, incluindo casos de estupro.<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras den\u00fancias sobre ataques vieram de Col\u00f4nia, onde centenas de incidentes foram registrados, a maioria em torno da catedral da cidade, durante a queima de fogos.<\/p>\n\n\n\n<p>A prefeita de Col\u00f4nia, Henriette Reker, chamou os crimes de &#8220;monstruosos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras cidades, como Frankfurt, D\u00fcsseldorf e Hamburgo, tamb\u00e9m registraram agress\u00f5es de natureza sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo relatos, os criminosos eram aparentemente de origem africana ou \u00e1rabe e estariam embriagados, o que refor\u00e7ava o temor de muitos de que imigrantes n\u00e3o conseguiriam se integrar \u00e0 sociedade alem\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Merkel sentiu a press\u00e3o, evidenciada em protestos contra imigra\u00e7\u00e3o dias ap\u00f3s os incidentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 2016, a chanceler prop\u00f4s leis mais duras para expulsar do pa\u00eds refugiados que cometessem crimes &#8211; at\u00e9 ent\u00e3o, apenas aqueles condenados a ao menos tr\u00eas anos de pris\u00e3o eram enviados a seus pa\u00edses de origem.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema, no entanto, abalou a confian\u00e7a de muitos alem\u00e3es em Merkel.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo pesquisa do instituto Infratest dimap, publicada pela Deutsche Welle em setembro de 2016, cerca de 45% da popula\u00e7\u00e3o aprovava o trabalho da chanceler, o mais baixo n\u00famero desde 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>O levantamento tamb\u00e9m apontava o avan\u00e7o do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita e cujo discurso estava concentrado na imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final de 2016, o debate ficou ainda mais acirrado depois que um militante do grupo conhecido como Estado Isl\u00e2mico dirigiu um caminh\u00e3o contra um mercado de Natal em Berlim.<\/p>\n\n\n\n<p>O ataque deixou 12 mortos. O motorista, o tunisiano Anis Amri, foi morto pela pol\u00edtica italiana a tiros, dias depois, na cidade italiana de Mil\u00e3o, ap\u00f3s ter sido procurado por toda a Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>A tens\u00e3o na Alemanha em torno da quest\u00e3o migrat\u00f3ria continuou. Em junho de 2019, o pol\u00edtico Walter L\u00fcbke, do partido de Merkel, foi assassinado por um extremista de direita, que confessou o crime.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisas de opini\u00e3o mostraram que, entre 2014 e 2018, a imigra\u00e7\u00e3o era considerada pelos alem\u00e3es o maior problema do pa\u00eds &#8211; liderando com quase 70% das respostas em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>Merkel, por\u00e9m, nunca se arrependeu de sua arriscada decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com a imigra\u00e7\u00e3o caiu, e em 2019 o tema perdeu para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas o t\u00edtulo de maior temor nacional &#8211; em 2020, ambos ficaram atr\u00e1s da Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo do alem\u00e3o IAB (Instituto para o Mercado de Trabalho e Pesquisa Vocacional), do in\u00edcio de 2020, mostrou que 49% dos refugiados que chegaram \u00e0 Alemanha a partir de 2013 haviam conseguido um emprego est\u00e1vel ap\u00f3s at\u00e9 cinco anos desde sua entrada no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A integra\u00e7\u00e3o de refugiados, de acordo com o estudo, era poss\u00edvel e estava ocorrendo.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"\u00daltimo-mandato\">\u00daltimo mandato<\/h2>\n\n\n\n<p>Por v\u00e1rias vezes, analistas previram que Merkel poderia pagar um pre\u00e7o alto demais por sua aposta em favor dos imigrantes &#8211; inclusive ser retirada do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Veio ent\u00e3o o pleito de 2017, e Angela Merkel conseguiu assegurar mais uma vit\u00f3ria para sua democracia-crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi, por\u00e9m, um sucesso parcial. Apesar do quarto mandato, Merkel viu seu bloco formado por CDU e CSU obter seu pior resultado nas urnas em 70 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a extrema-direita, representada pelo AfD, conseguiu chegar ao Parlamento pela primeira vez, confirmando as previs\u00f5es de muitos analistas sobre seu fortalecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hora de formar o governo, pela terceira vez \u2014 a segunda seguida \u2014, a chanceler teve de contar com os social-democratas para compor uma coaliz\u00e3o &#8211; confirmada apenas em mar\u00e7o de 2018, ap\u00f3s cinco meses de dif\u00edceis negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Com gosto de despedida, o quarto e \u00faltimo mandato de Merkel acabou marcado pelo avan\u00e7o de for\u00e7as antes marginais na pol\u00edtica alem\u00e3 e o enfraquecimento dos blocos tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>O Partido Verde, \u00e0 esquerda, e o AfD, \u00e0 direita, ganhavam terreno em pleitos regionais, enquanto CDU e SPD sentiam a press\u00e3o causada pela perda de apoio.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Covid19\">Covid-19<\/h2>\n\n\n\n<p>A pandemia de Covid-19, a partir do in\u00edcio de 2020, trouxe um novo e gigantesco desafio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na batalha contra o coronav\u00edrus, a chanceler viveu momentos de grande sucesso e admira\u00e7\u00e3o, em que os n\u00fameros alem\u00e3es mostravam-se muitos mais auspiciosos que os de outras na\u00e7\u00f5es desenvolvidas, e outros de ceticismo e cr\u00edticas, quando a doen\u00e7a avan\u00e7ava e testava a resist\u00eancia de t\u00e9cnicos e pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o pa\u00eds experimentou lentid\u00e3o no processo de vacina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e os n\u00fameros de interna\u00e7\u00e3o hospitalar e de falecimentos chegaram a n\u00edveis compar\u00e1veis, e em alguns casos superiores, ao de pa\u00edses severamente atingidos inicialmente como Espanha, Fran\u00e7a e It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril de 2021, uma pesquisa da Deustchlandtrend mostrou que apenas 35% dos alem\u00e3es apoiavam a atua\u00e7\u00e3o da chanceler, \u00edndice que era de quase 70% seis meses antes. Nada menos que 64% diziam-se insatisfeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Angela Merkel, no entanto, continuava como uma refer\u00eancia segura de estabilidade para temas complexos, especialmente no campo internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es entre a Uni\u00e3o Europeia e o Reino Unido em torno do Brexit e as tumultuadas rela\u00e7\u00f5es com o presidente americano, Donald Trump, marcaram os \u00faltimos anos de Merkel como chanceler.<\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 2021, ela fez uma visita de despedida ao presidente russo, Vladimir Putin, com quem sempre teve um tr\u00e2nsito facilitado devido ao passado de ambos &#8211; ela fluente em russo, e ele com dom\u00ednio equivalente do alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Merkel defendeu o dissidente russo Alexei Navalny e pediu sua liberta\u00e7\u00e3o, solicita\u00e7\u00e3o rejeitada por Putin.<\/p>\n\n\n\n<p>O respeito m\u00fatuo, no entanto, era vis\u00edvel no encontro, indicativo de quanto a influ\u00eancia de Merkel se estendeu ao longo de 16 anos no poder, tanto no Ocidente como no Oriente.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Imagem-positiva\">Imagem positiva<\/h2>\n\n\n\n<p>Na Europa, continente que ela acabou informalmente liderando, Merkel deixou uma imagem positiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudo do Conselho Europeu em Rela\u00e7\u00f5es Estrangeiras, publicado em setembro de 2021, mostra que os cidad\u00e3os de 12 na\u00e7\u00f5es da Uni\u00e3o Europeia &#8211; incluindo Fran\u00e7a, Holanda, Su\u00e9cia, Espanha, It\u00e1lia e a pr\u00f3pria Alemanha &#8211; admiram e concordam com o car\u00e1ter pol\u00edtico conciliador e cuidadoso da chanceler.<\/p>\n\n\n\n<p>Apresentada em oposi\u00e7\u00e3o ao franc\u00eas Emmanuel Macron, cujo estilo de lideran\u00e7a envolve propostas de mudan\u00e7as r\u00e1pidas e abrangentes, Merkel apareceu como favorita para um fict\u00edcio cargo de &#8220;presidente europeia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Um total de 41% dos entrevistados pelo instituto votariam em Merkel, contra apenas 14% que escolheriam Macron.<\/p>\n\n\n\n<p>Aparentemente confort\u00e1vel diante do seu hist\u00f3rico e seu legado, a primeira mulher a governar a Alemanha deixou transparecer, a poucas semanas de deixar o cargo, um lado pouco conhecido de sua atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um evento em D\u00fcsseldorf, no in\u00edcio de setembro de 2021, Merkel apresentou-se, pela primeira vez, como feminista.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Essencialmente, \u00e9 sobre o fato de que homens e mulheres s\u00e3o iguais, no sentido de participa\u00e7\u00e3o na sociedade e na vida em geral&#8221;, afirmou a chanceler. &#8220;E, nesse sentido, posso dizer: &#8216;Sim, eu sou uma feminista&#8217;.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Com a fala, a l\u00edder alem\u00e3 adicionou mais uma caracter\u00edstica a tantas que, durante 16 anos, marcaram sua passagem pelo topo do poder na Alemanha e no mundo. Angela Merkel deixa o comando de seu pa\u00eds com lugar garantido na hist\u00f3ria, como uma das mais importantes l\u00edderes do s\u00e9culo 21.<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>24\/09\/2021 Entre os v\u00e1rios choques pol\u00edticos que atingiram a Europa neste in\u00edcio de s\u00e9culo 21 \u2014 da crise econ\u00f4mica que abalou o euro \u00e0 sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia, o chamado Brexit \u2014, poucos foram t\u00e3o previs\u00edveis e geraram tanta ansiedade como o fim da era Merkel na Alemanha. 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