{"id":998,"date":"2021-09-29T17:24:00","date_gmt":"2021-09-29T17:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/?p=998"},"modified":"2021-10-04T18:06:59","modified_gmt":"2021-10-04T18:06:59","slug":"as-criancas-que-esqueceram-como-ler-e-escrever-durante-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/as-criancas-que-esqueceram-como-ler-e-escrever-durante-a-pandemia\/","title":{"rendered":"As crian\u00e7as que esqueceram como ler e escrever durante a pandemia"},"content":{"rendered":"\n<p>29\/09\/2021<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Elas j\u00e1 s\u00e3o chamadas de &#8220;a gera\u00e7\u00e3o perdida&#8221;: em relat\u00f3rio recente, a ONU alertou que quase 1 bilh\u00e3o de crian\u00e7as em todo o mundo correm o risco de &#8220;perda de aprendizagem&#8221; significativa devido a interrup\u00e7\u00f5es na frequ\u00eancia escolar durante a pandemia de covid-19.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso: em muitos pa\u00edses, o sistema educacional est\u00e1 prestes a entrar em colapso, se, al\u00e9m da pandemia, outros fatores como mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e conflitos internos forem adicionados.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo dessa crise alertada pela ONU acontece na \u00cdndia.<\/p>\n\n\n\n<p>A jornalista da BBC Divya Arya descobriu que crian\u00e7as em v\u00e1rias regi\u00f5es deste pa\u00eds asi\u00e1tico &#8220;se esqueceram de ler e escrever&#8221; porque foram impedidas de frequentar a escola no ano passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Arya revela o caso de Radhika Kumari, de 10 anos, que basicamente se esqueceu de escrever porque &#8220;passou 17 meses&#8221; fora da sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>Radhika mora no estado de Jharkhand, onde a exclus\u00e3o digital \u00e9 enorme. E quando a pandemia de covid-19 for\u00e7ou o fechamento de escolas, muitas crian\u00e7as em escolas p\u00fablicas n\u00e3o tiveram acesso a dispositivos que lhes permitissem continuar seus estudos remotamente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Foi realmente chocante descobrir que, de 36 crian\u00e7as matriculadas em um \u00fanico curso do Ensino Fundamental, 30 n\u00e3o sabiam ler uma \u00fanica palavra&#8221;, diz o economista Jean Dreze, que analisa a situa\u00e7\u00e3o nesta regi\u00e3o da \u00cdndia desde que os alunos puderam para voltar para a sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o se esquece de ler e escrever, ficar um pouco para tr\u00e1s pode ser remediado. Mas se esquecer o b\u00e1sico, ao voltar para a sala de aula e avan\u00e7ar a pr\u00f3xima s\u00e9rie, a lacuna vai ser pior&#8221;, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Estudantes-latinoamericanos\">Estudantes latino-americanos<\/h2>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, o quadro \u00e9 semelhante: segundo o relat\u00f3rio da Unicef, o bra\u00e7o da ONU para a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, \u200b\u200bh\u00e1 uma semana, cerca de 86 milh\u00f5es de crian\u00e7as ainda n\u00e3o voltaram \u00e0s aulas, colocando em risco o progresso do aprendizado e os n\u00edveis de conhecimento previamente adquiridos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nos \u00faltimos 18 meses, a maioria das crian\u00e7as e adolescentes da Am\u00e9rica Latina e do Caribe n\u00e3o viu seus professores ou amigos fora de uma tela. Quem n\u00e3o tem Internet n\u00e3o os viu diretamente&#8221;, explica Jean Gough, diretor-regional da Unicef para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele acrescenta que n\u00e3o existe apenas o risco de as crian\u00e7as deixarem de aprender as compet\u00eancias b\u00e1sicas para a vida, mas tamb\u00e9m de nunca mais regressarem \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A educa\u00e7\u00e3o virtual deve continuar e melhorar, mas \u00e9 claro que durante a pandemia as fam\u00edlias mais marginalizadas n\u00e3o tiveram acesso ao aprendizado&#8221;, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade \u00e9 ainda mais dura entre os grupos mais vulner\u00e1veis, para os quais a evas\u00e3o escolar era um problema antes da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Cada dia fora da sala de aula aproxima as crian\u00e7as e adolescentes mais vulner\u00e1veis \u200b\u200bda evas\u00e3o escolar, da viol\u00eancia de gangues, do abuso ou do tr\u00e1fico de pessoas&#8221;, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Minha-escola-falhou\">&#8220;Minha escola falhou&#8221;<\/h2>\n\n\n\n<p>Para muitos dos alunos, durante estes \u00faltimos 18 meses &#8220;nada foi aprendido&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A BBC News Mundo, o servi\u00e7o de not\u00edcias em espanhol da BBC, conversou com algumas crian\u00e7as em idade escolar em partes da Am\u00e9rica Latina que foram afetadas pela falta de conectividade e baixa frequ\u00eancia escolar durante a pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma deles \u00e9 Richard Guimar\u00e3es. Ele tem 15 anos e mora em San Rafael, uma comunidade ind\u00edgena localizada a duas horas e meia da cidade de Pucallpa, na Amaz\u00f4nia peruana.<\/p>\n\n\n\n<p>O sonho dele \u00e9 se tornar designer gr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Meus pais fazem artesanato e eu aprendi a tecer e a fazer v\u00e1rias coisas que vendemos no mercado&#8221;, conta Richard \u00e0 BBC News Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E quero aprender a fazer isso melhor&#8221;, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ano atr\u00e1s, Richard estava na escola quando a pandemia de covid-19 fez com que milh\u00f5es ao redor do mundo ficassem em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nesse \u00faltimo ano e meio n\u00e3o aprendi nada&#8221;, reclama.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da pandemia, ele frequentava a escola das 7h30 ao meio-dia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Naquela \u00e9poca, estud\u00e1vamos durante a semana 12 disciplinas&#8221;, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas depois que a pandemia come\u00e7ou e as aulas foram suspensas, tudo ficou mais dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Passamos de 12 disciplinas para apenas seis&#8221;, diz ele.<\/p>\n\n\n\n<p>O sistema estabelecido para remediar a crise funcionava assim: todo m\u00eas os professores vinham \u00e0 sua cidade, deixavam uma esp\u00e9cie de li\u00e7\u00e3o de casa e os alunos tinham que faz\u00ea-la e mandar as respostas pelo WhatsApp.<\/p>\n\n\n\n<p>Arte, que \u00e9 sua aula preferida, ficou reduzida a desenhos que ele fazia em casa e que mandava para a professora no celular.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Meu pai vive do artesanato e da venda de bananas, moramos em uma \u00e1rea muito remota, por isso \u00e9 dif\u00edcil acessar a internet&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Como muitos de seus professores n\u00e3o moravam perto de sua comunidade, ele s\u00f3 podia contat\u00e1-los por telefone quando se conectava \u00e0 Internet. Al\u00e9m disso, algumas das li\u00e7\u00f5es de casa pareciam confusas e \u00e0s vezes at\u00e9 inintelig\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Aumento-da-desigualdade\">Aumento da desigualdade<\/h2>\n\n\n\n<p>Para muitos especialistas em psicopedagogia e processos educacionais, est\u00e1 claro que as crian\u00e7as precisam retornar \u00e0 sala de aula o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>O desaparecimento desse espa\u00e7o de aprendizagem e socializa\u00e7\u00e3o tem sido para muitos meninos e meninas \u2014 principalmente entre as fam\u00edlias de menor n\u00edvel sociocultural \u2014 &#8220;uma cat\u00e1strofe&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 uma cat\u00e1strofe. Vai demorar muito para superarmos isso&#8221;, afirma Guillermina Tiramonti, especialista em educa\u00e7\u00e3o e pesquisadora da Flacso Argentina, \u00e0 BBC News Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Dou um exemplo: um menino que estava no primeiro ano do Ensino Fundamental antes da pandemia, e ainda n\u00e3o tinha conseguido aprender a ler, agora que voltou \u00e0 escola deve terminar a segunda s\u00e9rie sem saber o b\u00e1sico&#8221;, assinala.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os acad\u00eamicos, n\u00e3o se trata apenas do conte\u00fado que n\u00e3o foi aprendido ou incorporado, mas de algo mais importante: resgatar o h\u00e1bito de aprender.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A perda de conhecimento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 n\u00e3o ter aprendido determinados conte\u00fados, mas sim o fato de perder o ritmo, o h\u00e1bito, a rotina escolar&#8221;, ressalta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tome como exemplo os c\u00f3digos lingu\u00edsticos. As crian\u00e7as dos setores socioculturais inferiores n\u00e3o est\u00e3o acostumadas com esses c\u00f3digos complexos e s\u00f3 t\u00eam acesso a eles na escola, onde s\u00e3o essenciais para o avan\u00e7o do conhecimento. N\u00e3o t\u00eam acesso a eles em casa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para crian\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o expostas a esses c\u00f3digos h\u00e1 dois anos, o decl\u00ednio cognitivo \u00e9 muito grande, conclui Tiramonti.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Objetivos-revistos\">Objetivos revistos<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 pandemia s\u00e3o suspensas em diferentes regi\u00f5es, a reabertura de escolas se tornou uma prioridade para muitos governos. At\u00e9 o momento, o relat\u00f3rio da ONU indica que 47 milh\u00f5es de crian\u00e7as voltaram gradativamente para a sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>E a pr\u00f3xima etapa tamb\u00e9m destaca o grande desafio de atualizar as crian\u00e7as com os objetivos que deveriam ter aprendido neste um ano e meio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as se perdeu no esfor\u00e7o de proteger a vida de toda a popula\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus&#8221;, explica Irma Mart\u00ednez, especialista em educa\u00e7\u00e3o da ONG Human Rights Watch.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se oportunidades surgem em crises, esse \u00e9 o momento de repensar algumas das premissas da escolaridade e do sistema educacional como um todo, defendem os especialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O objetivo n\u00e3o deve ser simplesmente voltar a ser como as coisas eram antes da pandemia, mas corrigir as falhas dos sistemas que h\u00e1 muito impedem as escolas de serem abertas e receptivas a todas as crian\u00e7as&#8221;, acrescenta Mart\u00ednez.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre essa quest\u00e3o, Tiramonti \u00e9 categ\u00f3rico: &#8220;N\u00e3o podemos voltar para a escola e fingir que nada aconteceu&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 preciso fazer uma avalia\u00e7\u00e3o, ver o que aconteceu com as crian\u00e7as, quais s\u00e3o as perdas, quais s\u00e3o os problemas de aprendizagem que elas t\u00eam e montar um programa para que elas recuperem esses conhecimentos b\u00e1sicos para seguir adiante em sua jornada escolar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 preciso muito trabalho profissional para encontrar formas de recuperar o tempo perdido&#8221;, assinala.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 menos de um m\u00eas, Richard Guimar\u00e3es \u00e9 um das dezenas de milhares de alunos que voltaram para a sala de aula depois de quase um ano e meio.<\/p>\n\n\n\n<p>E embora esteja feliz, ele sabe que n\u00e3o ser\u00e1 nada f\u00e1cil: &#8220;Agora estamos estudando mat\u00e9rias que deixamos de estudar na pandemia e est\u00e1 sendo dif\u00edcil acompanh\u00e1-las. \u00c9 como come\u00e7ar tudo do zero.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BY ALEXSANDER QUEIROZ SILVA<br>Fonte: BBC Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>29\/09\/2021 Elas j\u00e1 s\u00e3o chamadas de &#8220;a gera\u00e7\u00e3o perdida&#8221;: em relat\u00f3rio recente, a ONU alertou que quase 1 bilh\u00e3o de crian\u00e7as em todo o mundo correm o risco de &#8220;perda de aprendizagem&#8221; significativa devido a interrup\u00e7\u00f5es na frequ\u00eancia escolar durante a pandemia de covid-19. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso: em muitos pa\u00edses, o sistema educacional [&#8230;]\n","protected":false},"author":1,"featured_media":999,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[23],"tags":[69,56,357,33],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/998"}],"collection":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=998"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/998\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1000,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/998\/revisions\/1000"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/999"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=998"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=998"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alexsanderluizqueirozsilva.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}